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Denúncias de crimes cometidos contra os animais quadruplicam

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Oito minutos. Segundo o professor Hudson Willian Pena, 30 anos, esse foi o tempo necessário para que o veneno ingerido pelo seu cachorro Nick se espalhasse na corrente sanguínea e, após convulsões e espasmos, matasse o animal. O crime ocorreu no início da madrugada de ontem no nono andar de um edifício (leia mais ao lado) e é mais um dos que serão investigados pela Delegacia de Crimes Ambientais no 1º Distrito Policial (DP) de Bauru. Nos seis primeiros meses de funcionamento da delegacia, o número de denúncias de maus-tratos e mortes de animais quadruplicou em relação a todo o ano passado, porém, o medo ainda freia essas queixas. Até abuso sexual está sendo apurado.

Segundo o delegado titular do 1º. DP, Dinair José da Silva, já foram registradas 36 denúncias nesse período. 21 delas foram do artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, que trata dos maus-tratos a animais, e 15 do artigo 29, que, geralmente, termina com a morte do animal.

"Em 2010 todo, foram feitos apenas oito registros. Então, vemos que está aumentando muito. Com certeza, a instalação da delegacia especializada na cidade, há seis meses, contribuiu para o aumento dessas denúncias".

Entretanto, apesar do crescimento, ainda está longe de retratar a realidade da crueldade com os animais em Bauru. O delegado explica que, muitas vezes, o medo impede que as denúncias sejam feitas. "Uma das maiores dificuldades é que, geralmente, as pessoas não querem se envolver. Muitas têm medo de gerar um desentendimento. Há casos em que a própria família que faz a denúncia pede não ser envolvida mais no caso".

Assim, ele afirma que o número de denúncias ainda está muito aquém da realidade de Bauru. "Acredito que a lei avançou bastante, porém, ainda deixa a desejar no critério punitivo. Como a pena é branda, as pessoas acabam não pensando muito antes de cometer um crime e aparecem esses casos de crueldade", afirma Dinair.

A punição prevista para o artigo 29 é de seis meses a um ano de detenção e multa. Já para o artigo 32 é ainda mais leve: reclusão de três meses a um ano e multa. "Apesar dessa punição, em muitos casos ocorre a substituição por penas alternativas. É feito um termo circunstanciado e o acusado pode pagar cestas básicas ou serviço comunitário. Acredito que a falta dessa penalidade mais rigorosa não ajuda a coibir os crimes contra animais".

Investigação


O delegado explica que, em qualquer denúncia, é feita uma investigação formal. Por isso, ela afirma que as vítimas precisam sempre registrar queixa. "Quando há a denúncia, vamos ao local e fazemos a investigação para apurar o que está acontecendo. Apesar de difícil justamente pelo medo das pessoas, temos tido resultados, por isso, a população pode acionar tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar (PM)".

Em relação aos casos de morte por envenenamento, Dinair explica que fazer a denúncia de forma imediata facilita o trabalho policial. "A Polícia Técnica vai ao local para apurar e reunir provas. O problema é que muitos enterram o animal e somente denunciam dias depois".

Além de agir sob queixas, o delegado completa que há trabalhos preventivos para evitar envenenamentos, principalmente em casas de rações. "Muitas comercializam o popular ?chumbinho?, que é um veneno muito utilizado por quem quer matar cães e gatos. É proibido que casas de rações vendam esse produto. Então, estamos fiscalizando", conclui o titular do 1º. DP, Dinair José da Silva.

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Cão é envenenado em corredor de edifício


O pequeno cão Nick foi comprado há pouco mais de um ano por Hudson Willian Pena, 30 anos, e Niléia Capelari, 27. Como não tinham filhos, o casal, que reside em um condomínio vertical no bairro Infante Dom Henrique, em Bauru, passou a tratar o pequeno shitsu dessa forma. Entretanto, por volta das 00h40 de ontem, em poucos minutos eles perderam o cachorro.

"Quando minha esposa foi tirar o lixo, ele saiu pelo corredor do nosso andar, que é o nono. Ao entrar no apartamento, vimos que ele estava com algo na boca. Era uma salsicha com uma espécie de farofa amarela em cima", conta Hudson.

Em poucos minutos, o animal começou a apresentar espasmos nas patas e a respiração diminuiu. O casal o levou para uma clínica veterinária de plantão, porém, em cerca de oito minutos, após convulsionar várias vezes, Nick morreu.

"Nós o protegíamos de tudo. Eu chorei durante toda a noite. Vimos ele daquele jeito e tentamos salvá-lo. Mas não deu tempo. Em pouco tempo, o coração parou", afirma Niléia.

Ainda de acordo com o casal, em todos os 17 andares do edifício foram encontradas as mesmas salsichas envenenadas. No térreo, foi localizado o recipiente com o veneno utilizado. Segundo Hudson Pena, era um raticida e já foi entregue à polícia.

Com o crime, os moradores do local passaram a viver com medo. É o caso da bióloga Simone Patrícia Paganini Spazzini, 41 anos, que possui três cachorros. "Hoje (ontem), fiquei o dia todo em casa. Estamos nos sentindo muito amedrontados. Na verdade, é um sentimento de revolta e medo".

A bióloga ainda alerta para um perigo ainda maior. "No prédio, há muitas crianças. E se alguma delas tivesse pegado o recipiente com o veneno ou alguma dessas salsichas?", questiona, em tom de alerta.

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Até abuso sexual em cadela é investigado


Em julho do ano passado, o caso da bull terrier Vida escancarou a crueldade com animais em Bauru. Ao contrário do nome que recebeu após ser acolhida, a cachorra foi espancada e localizada quase morta no bairro Vila Santista. Hoje, quase um ano após o ocorrido, mesmo com sequelas, ela vive como uma cachorra normal, porém, a família que a adotou continua vivenciando a falta de humanidade de alguns seres humanos.

"Há cerca de um mês, resgatamos a Mária Quitéria, uma cadela vira-lata que estava com a pata quebrada. Ela havia sido agredida pelos donos, dois irmãos, um com problemas mentais e outro usuário de drogas, e colocada na rua. Depois que fomos à polícia, fomos resgatar outra cachorra que estava lá e nos deparamos com algo assustador", conta Leandra Marquezini.

De acordo com ela, a outra cachorra, a Catita, estava sendo abusada sexualmente. "A veterinária constatou que ela sofria abuso. O útero estava todo ferido e inchado. A Delegacia de Crimes Ambientais está investigando o caso", relata o caso impressionante.

Ambas as cachorras foram acolhidas por Leandra, que mora em uma chácara na Quinta da Bela Olinda com o marido. Assim como Vida, elas têm a chance de, a partir de agora, ter uma vida melhor. "A Vida é uma cachorra carinhosa e obediente. Ela ficou praticamente cega com todas as pancadas que levou. Hoje, ela vive como uma cachorra normal e já é da nossa família", completa Leandra Marquezini, emocionada e dando o exemplo de pessoas que ainda podem ser chamadas de "humanos".

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Perfil assassino


Segundo o delegado titular do 1º. DP, Dinair José da Silva, não é somente um animal de estimação que pode ser salvo quando o autor de um crime ambiental é punido. Ele explica que o perfil de quem comete tais crueldades geralmente converge com o de agressores e até assassinos.

"Geralmente quem mata ou espanca um cachorro é alguém que agride mulheres ou crianças. É uma pessoa que não tem sentimentos. Há estudos que mostram que muitos dos assassinos em série cometiam crueldades contra animais. Quando punimos alguém assim, punimos alguém de alta periculosidade e podemos, inclusive, estar evitando um crime mais grave", completa o delegado.

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