Em um primeiro contato, Leilane Aparecida Figueiredo Strongren é uma mulher que chama a atenção por sua estatura e simpatia. Mas, em poucos minutos de conversa, a mulher grande dá lugar à grande mulher que enfrentou e venceu obstáculos, lutou por seus objetivos e sobreviveu a grandes desafios.
Ainda estudante, a atual diretora executiva da Consiste - empresa que que presta serviços de segurança e vigilância, administração de condomínios, segurança eletrônica, terceirização de mão de obra e corretora de seguros - contrariando a tradição da família, onde mulheres não trabalhavam, começou sua carreira profissional escondida do pai.
"Fui a primeira mulher da minha família a trabalhar fora. Eu não conseguia ficar em casa esperando o horário das aulas, eu queria trabalhar".
Com a militância como vocação, ela integrou a Pastoral Universitária e lutou em épocas de repressão. Além de empresária de sucesso, Leilane hoje também é atuante na diretoria estadual do Sindicato dos Diretores de Seguro (Sincor) e na regional da Sindicato da Habitação (Secovi).
Família, religião, tristezas e alegrias, além de novos projetos também fazem parte da entrevista que você confere a seguir.
Jornal da Cidade - Você tem uma carreira profissional de sucesso. Como tudo começou?
Leilane Aparecida Figueiredo Strongren - Comecei cursando faculdade de biologia, mas mudei para o curso de direito. Ainda estudante, eu não conseguia ficar em casa esperando o horário das aulas, eu queria trabalhar. Fui a primeira mulher da minha família a trabalhar fora de casa, e comecei escondida do meu pai, por sinal (risos). Isso foi uma coisa interessante porque, em casa, uma mulher trabalhar fora era um absurdo. Prestei concurso para ser vendedora de filtros residenciais de porta em porta. Na época, minha mãe não gostou da ideia e me arrumaram um trabalho em dos escritórios do meu pai.
JC - A empresa já era do grupo Consiste?
Leilane - O nome era Escritório Comercial Progresso, mas era a mesma empresa, sim. No início foi difícil, porque os funcionários me viam apenas como a filha do dono. Cheguei, sentei-me em uma mesa e puseram, do meu lado esquerdo, uma máquina de calcular daquelas bem antigas. Eu fiquei uns dois meses fazendo livros diários de contabilidade até que uma funcionária me disse que, seu eu colocasse a máquina do lado direito, ficaria mais fácil para calcular. Quer dizer, ela percebeu que realmente eu estava ali para trabalhar e quis me ajudar. E minha primeira tarefa foi montar a nossa financeira.
JC - Foi quando sentiu que esse era o seu caminho?
Leilane - Um tio me disse que, para você mandar, você precisa saber fazer. Então eu tinha de fazer banco, tirar xerox, fazer malote... Aprendi de tudo para um dia me tornar o que eles queriam, ou seja, gerente da empresa. E fui crescendo e trabalhando com a minha família.
JC - Foi também nesse período que você trocou a biologia pelo direito?
Leilane - Ainda fazia biologia, mas não tinha mais tempo para os estágios desse curso. Eu gostava muito da ideia de dar aulas, mas o que me levou a desistir mesmo da biologia foi uma greve que houve na faculdade. Eu tinha colegas que precisavam trabalhar para pagar a faculdade e o dinheiro deles era todo destinado a isso. Por outro lado, as mensalidades subiam muito e fizemos uma greve. Porém, as pessoas não podiam pagar a multa da mensalidade e eu fui reclamar com um dirigente que disse não se importar nem um pouco porque tinha crédito educativo. Fiquei muito nervosa com aquilo e larguei da biologia para fazer direito.
JC - A mudança foi positiva?
Leilane - Eu acho que a faculdade de direito traz um conhecimento muito grande para as pessoas. Acho até que todas as pessoas deveriam estudar direito. Nessa época, eu fazia parte de algumas pastorais da igreja que questionavam muito e uma das coisas que me chocavam era a diferença entre justiça e legalidade. Muitas vezes você acha que uma coisa é justa, mas não é legal. Então eu briguei muito por algumas questões, mas antes de terminar a faculdade, já havia decidido que não queria ser advogada. Conclui o curso, continuei trabalhando nas empresas e depois de alguns anos eu fiz gestão empresarial. São conhecimentos que não abro mão. Acho que tudo foi muito interessante.
JC - E quando passou a gerenciar a Consiste?
Leilane - Na verdade eu sempre tive um cargo de direção pelo fato de ser da família. Mas me tornei diretora executiva há mais ou menos oito anos, quando a família toda fez uma reunião e ficou determinado que eu seria a sucessora do meu pai no grupo.
JC - Imagino que essa determinação foi uma grande conquista, já que enfrentou alguns obstáculos na família até mesmo para começar a trabalhar. Como você encarou essa responsabilidade?
Leilane - Olha, a conquista vem com o tempo, mas acho que foi um pouco precipitada. Acredito que deveria ter tido mais tempo de treinamento e ter passado por outras fases dentro da empresa. Foi tudo imediato e, em seguida, minha mãe adoeceu e meu pai disse que eu assumiria o posto para ele cuidar da minha mãe. Quer dizer, assumi uma empresa justo em um momento de grandes problemas familiares e emocionais. Mas encarei. Tive ajuda de algumas pessoas que estiveram do meu lado, inclusive do meu pai, que até hoje está comigo. Ele é visionário e tem uma força enorme. Minha irmã também me apoia muito. Tais transformações que acontecem em nossas vidas não são fáceis, contudo, é preciso encará-las.
JC - De onde veio força para encarar o trabalho e cuidar da família?
Leilane - Acredito que a mulher tem um diferencial. Há um tempo eu dizia que gostava de trabalhar com mulheres porque nós batalhamos por prazer ou porque precisamos colocar comida na mesa, enquanto o homem, muitas vezes, trabalha porque isso foi instituído como sua obrigação. Assim, acho que a determinação feminina é maior, além de termos uma visão mais ampla das situações. Minha mãe dizia que não iria cuidar de meus filhos, acho que ela tinha medo de eu fugir e deixá-los com ela (risos). Assim, quando eu saía, eles iam junto. E, com isso, tenho a certeza de que criei meus filhos próximos a mim. Até hoje, quando viajo, eles querem me acompanhar.
JC - Você faz parte das diretorias do Secovi e Sincor?
Leilane - Sim. No Sincor, sucedi meu marido na região de Bauru. Ele estava saindo e eu achei que a gente não podia deixar acabar tudo aquilo que a gente tinha construído em equipe. Na época, eu era a única mulher diretora regional no Estado de São Paulo e isso fez a diferença, porque os homens corretores de seguros associados não me viam como uma concorrente, mas sim como uma amiga. Acabei me destacando pelo fato de ser mulher e de ser falante (risos). Uma passagem que me marcou foi um congresso que participei e falei para um público de três mil pessoas, sem nunca ter feito isso antes. Terminei minha palestra com uma piada e as pessoas levantaram para me aplaudir. Aquilo mudou a minha vida, porque passei a ser mais ouvida.
JC - Você disse que participou de algumas pastorais. É uma pessoa religiosa?
Leilane - Embora mais distante, ainda sou, sim. Antes de entrar de cabeça nos sindicatos, eu trabalhei muito para a igreja. Na época de solteira, atuei na Pastoral Universitária, ainda na época da ditadura militar. Fui para congressos com o perigo de ser presa e conheci muitas pessoas maravilhosas e atuantes. Depois de casada, passamos a participar de grupos de casais e até trouxemos uma novidade para a cidade: o encontro para casais de segunda união. Na época, a Igreja Católica de Bauru ainda não tinha essa abertura. Nosso foco sempre foi valorizar a família. Hoje não trabalho mais, mas tenho saudade.
JC - Um momento difícil...
Leilane - Ficar viúva foi um choque muito grande que eu só consegui superar com o trabalho, pelos meus filhos e devido aos amigos que me apoiaram. Na época eu não tinha consciência do que estava acontecendo. Trabalhei, trabalhei e trabalhei. Acredito até que perdi o foco da minha vida por ter perdido a noção do que estava acontecendo. Foi muito forte porque eu havia perdido a minha mãe quatro meses antes. Praticamente tudo ao mesmo tempo. Para minha família toda isso foi terrível. Minha mãe era muito forte e meu marido também.
JC - Uma grande alegria...
Leilane - Acho que não temos uma grande alegria e sim vários momentos felizes. A cada dia que acordo eu agradeço a vida que tenho, porém, minha maior felicidade são meus filhos. Às vezes não temos a noção do quanto a família é importante. A mulher não pode esquecer que ela é mãe e ninguém pode substituir esse papel. Apesar de hoje termos pais super participativos, a função de mãe é insubstituível. O carinho que meus filhos têm comigo é minha verdadeira alegria.
JC - Novos projetos pessoais e profissionais?
Leilane - No âmbito pessoal, eu estou noiva e essa é uma nova etapa da minha vida. Nós dois somos viúvos e já nos conhecíamos, no entanto, um dia percebemos semelhanças e coisas que poderíamos dividir e somar juntos. E está sendo muito bom. Meus filhos até brincam que voltamos a ser adolescentes (risos). Outro projeto é um sonho que estou realizando em Bauru: uma escola de formação para pessoas carentes, onde iremos formá-las para trabalhar em corretoras de seguro. Temos um grupo chamado Projeto Seguro e estamos batalhando para conseguir as verbas. Agora estamos formatando as aulas e depois vamos fazer uma festa julina, que já é tradição desse grupo para arrecadar fundos. Na próxima semana teremos a 7ª Pastelada da Consiste e também realizamos um bingo anual.