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Fiz, mas quem não faz?

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"Fazer o bem sempre que possível e usar o mal só quando necessário", aconselha o texto de Maquiavel, velho de 500 anos. Maquiavel não era maquiavélico. Os políticos que querem praticar o mal em regime de dedicação exclusiva é que deturpam as lições políticas deixadas pelo sábio florentino. O Príncipe é facílimo de ler, mas poucas pessoas se deram a esse trabalho, mesmo sendo um livro de poucas páginas. Maquiavel nunca disse que "os fins justificam os meios". Ele admitia que, em razão dos altos interesses do Estado, até seria possível ao príncipe mentir e faltar com a palavra.

Isto é, em benefício do poder exercido a bem do povo, e não do próprio bolso. Sua análise do poder, que é uma festa para a ciência política, é uma preocupação para a moral ? a tal ponto que em inglês um dos nomes do diabo, Old Nick, derivaria do seu prenome Nicolau. Um dos seus aconselhados, à época, Cesar Borgia acabou caindo em desgraça porque não soube mudar quando os tempos assim exigiram. Quando se exacerba no exercício do poder para ir à forra antes que a mamata acabe ? ir com muita sede ao pote ? o horizonte é trágico. Maquiavel advertia: por mais que tentemos governar as circunstâncias, podemos perder. Ser político não é só vencer. É saber fazê-lo com virtù. Virtude, mas não no sentido moral, mas com capacidade, ação deliberada e, também, certa honra.

Com as devidas escusas pela introdução acadêmica chegamos ao caso Antonio Palocci e sua consultoria Projeto. Um acaso de tráfico de influência com relações promíscuas entre o público e o privado. Caracteriza-se por vender na forma de consultas especializadas, informações que os concorrentes da empresa assessorada não têm. A não ser que também tenham "consultores" do mesmo calibre junto ao governo de turno. Os contratos de consultoria têm clausulas que asseguram a manutenção de segredos quanto à identidade da empresa contratante e, "taxas de sucesso".

Percentual sobre o recebido ou sobre o que deixou de ser pago ? multas, impostos. O interesse do Estado aí é nenhum. Sobrepõe-se o particular. O desejo de ficar rico em pouco tempo, sem fazer força. Bastam alguns telefonemas ou visitas para um cafezinho. "Fiz, mas quem não faz" é a frase que define o padrão moral na política brasileira. Como dizia o filósofo, quem assim age corre riscos cujos danos podem ser insolúveis para a legitimidade do sistema em função dos seus procedimentos. A crise que se instaurou há duas semanas no governo de apenas cinco meses de Dilma Roussef é mais uma missão para o SuperLula. Eis que ele retorna para pôr ordem na casa. É o nosso D. Sebastião ? aquele rei português desaparecido na Cruzada contra os mouros e que até hoje volta redivivo para salvar o povo.

Almoçou com Sarney e acalmou a bancada evangélica no Congresso, estomagada com os filmetes do Ministério da Educação destinados a ensinar homoafetividade como algo "normal". Justificou os ganhos extraordinários do companheiro Palocci por ser "o Pelé da Economia". Coitado do "rei", nos tempos da tevê em preto-e-branco jamais teve uma vida de folga financeira. Sequer ganhou R$ 20 milhões em quatro anos, ou na carreira toda.

O ministro chefe da Casa Civil é médico sanitarista, área em que nunca deu consultoria. O importante é que o governo foi blindado. Palocci que vá ser sócio de José Dirceu. No próximo Carnaval vamos ter mais uma marchinha do tipo "Bota o retrato do velho, outra vez", dos tempos de Getúlio Vargas.

A política brasileira ? e mundial ? está lotada de exemplos de ex-membros da elite dirigente do Estado a prestarem serviço ? generosamente remunerado ? para bancos, empreiteiras e planos de saúde dominantes. São eles privilegiados detentores do "mapa da mina". Na história recente do país, Golbery do Couto e Silva fora "consultor" da Dow Chemical; ex-ministros da Fazenda como Maílson da Nóbrega e Pedro Malan vêm ocupando postos relevantes em consultorias ou instituições financeiras; ex-presidentes do Banco Central como Armínio Fraga são líderes de empresas de investimento de risco e um ex-ministro da Casa Civil, Pedro Parente, é executivo de transnacional.

Ninguém ganhou tanto quanto Palocci, em tão pouco tempo. Lula errou na comparação: ele é o Messi da Economia. A cada governo o "tesouro" é enterrado em outro lugar e poucos têm o mapa. Mas, a pirataria continua. Ativa como nunca.

O autor Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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