Bairros

Em Bauru, temperatura varia até 4ºC

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Quase toda manhã, a estudante Isabela Nogueira Malizea, 19 anos, vai para o câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde cursa psicologia. Com o frio registrado ultimamente na cidade, a jovem convive ao longo do trajeto com uma sensação, no mínimo, desconfortável: a variação das temperaturas entre as regiões do município. Essa diferença, que pode chegar a quatro graus, pode ter registrado nos termômetros de algumas localidades temperatura ainda menor do que a de 7,5 graus de ontem, a mais baixa do ano até agora.

A universitária Isabela, que já mora em uma região fria, relata que a variação realmente ocorre. "Moro perto do shopping, no bairro Jardim Infante Dom Henrique. Resido em um edifício e venta muito. Porém, no câmpus (da Unesp) é muito mais frio e temos que nos proteger como podemos", conta a jovem, agasalhada com três blusas.

O fenômeno que a estudante vivencia quase diariamente é explicado cientificamente por dois fatores principais: a topografia e a vegetação existente. "Em Bauru, a questão do relevo não influencia bastante, pois entre o ponto mais alto e o mais baixo, a variação não chega a 100 metros. E isso não é suficiente para alterar em muito a temperatura", explica o professor da Universidade Sagrado Coração (USC) e mestre em Geografia Humana, José Carlos Rodrigues Rocha.

Na cidade, o que mais influencia realmente é a vegetação - ou a falta dela. Enquanto em regiões bastante arborizadas, como a do câmpus da Unesp, a temperatura tende a ser menor, ocorre o inverso em regiões mais urbanizadas.

"O Centro de Bauru é provavelmente a região mais quente. Com o excesso de construções, o calor fica retido. O próprio asfalto colabora com isso. Por ser escuro, ele retém mais o calor. Já em regiões com mais vegetação, a temperatura tende a diminuir", explica o professor, que orientou um projeto de iniciação científica comprovando que a temperatura decrescia ao passo que se afastava da área central de Bauru.

Segundo o meteorologista do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp Fernando de Almeida Tavares, essa variação pode ser grande. Apesar de não haver qualquer medição específica, a diferença média entre as diversas regiões da cidade pode chegar a até quatro graus.

Sensação térmica

Além da variação nos termômetros, outro fator que incomoda as pessoas nessa época do ano é a sensação térmica. O fenômeno, que pode trazer a impressão de mais frio ou calor, ocorre devido a dois fatores: a velocidade do vento e a umidade relativa do ar.

O vento atua dependendo da sua força. De acordo com a velocidade, o corpo perde calor e a sensação de frio é maior. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) calcula que, a cada vez que os ventos chegam a 7km/h, a temperatura no corpo das pessoas diminui um grau. Ontem, por volta das 10h, os ventos chegaram a cerca de 35km/h, o que representaria uma diminuição de cinco graus de sensação térmica.

Tal fenômeno é o que, além da vegetação que modifica as temperaturas, influencia também na região do câmpus da Unesp. Como é um local bastante descampado, venta bastante. O mesmo ocorre nas proximidades do Aeroclube, do Zoológico de Bauru e nos entornos das rodovias, onde se forma uma espécie de "corredor de ar".

A umidade do ar também reflete na sensação térmica. Quando está alta, o suor não evapora e surge aquela sensação de calor. Já quando o tempo está seco e a umidade baixa, ocorre a evaporação do suor e o calor é perdido. Ontem, a umidade do ar registrada foi de 39%, abaixo do que é considerado ideal para a saúde humana.

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Duas calças e quatro blusas

A universitária Gabriela Lins Maia, 25 anos, está sofrendo com o frio e todas os agravantes descritos na reportagem. Em sua residência, localizada no Jardim Brasil, as temperaturas já são baixas pela proximidade com a rodovia Marechal Rondon.

Entretanto, quando ela sai de casa, a situação piora muito. Ela, que estuda à noite na Unesp - um dos locais mais frios pela presença de vegetação -, vai de moto até o local, intensificando em muito a velocidade do vento e a sensação térmica. "Tenho que pôr luvas, duas calças e quatro blusas. Com esse frio, não é só o capacete que é proteção. A roupa também é", complementa Gabriela, bem humorada.

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Bauru registrou ontem temperatura mais baixa deste ano, com 7,5 graus

O frio intenso em Bauru ainda deve permanecer por, pelo menos, mais um dia. Ontem, os termômetros do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp marcaram a temperatura mais baixa do ano: 7,5 graus.

O recorde até agora foi registrado por volta das 5h20 e teve um decréscimo de mais de um grau em relação à segunda temperatura mais baixa - 8,7 graus -, registrada exatamente no dia anterior.

Segundo o meteorologista Fernando de Almeida Tavares, a previsão do IPMet é de que as madrugadas tendem a continuar frias, porém, com temperaturas superiores às últimas registradas.

Segundo ele, "essas baixas temperaturas decorrem de uma frente fria que passou pelo Estado de São Paulo há alguns dias e trouxe com ela uma massa de ar frio. Por isso, mesmo frias, as madrugadas devem ser mais amenas".

A previsão, de acordo com o IPMet, para hoje é de variação entre 12 e 26 graus e de sol na maior parte do dia. Já amanhã, também haverá predomínio do tempo ensolarado, com mínimas de 13 e máximas de 26 graus.

Segundo o instituto, o clima deve continuar assim até o próximo domingo. Em todos os dias, o tempo será seco, com probabilidade de chuva de apenas 5%.

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Perto de córregos e linha férrea, a sensação de frio é mais intensa

De acordo com Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru, outro ponto que influencia na sensação térmica em muitas localidades de Bauru é a proximidade com córregos. "Na região da Vila Falcão e entre as vilas Giunta e a Mariana, há a presença do Córrego Águas do Sobrado. Isso faz com que a temperatura caia também". Segundo Brito, o mesmo ocorre em regiões como o Parque das Nações, o Jardim Marise, a Vila Santa Filomena e a favela São Manuel.

O coordenador ainda faz outro alerta em relação às proximidades da extinta linha férrea, que também registram baixas temperaturas. "A região do entorno da linha férrea também é muito fria. Isso ocorre porque é muito aberta. Assim, é muito perigoso para aqueles usuários de drogas que frequentam o local. A combinação entre a falta de alimentação, o uso de drogas e o frio pode ser fatal", completa o coordenador da Defesa Civil.

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