Polícia

Mãe entrega filho à polícia no dia de seu aniversário

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

As drogas narraram mais uma triste história em Bauru. Em pleno aniversário de 16 anos, um jovem foi denunciado por tráfico de drogas. O caso, que já seria dramático, ganha ainda contornos mais intensos uma vez que a denúncia foi feita pela própria mãe do adolescente. Além da triste realidade, ela passa a conviver agora com o medo de represálias.

A família, que teve a identidade preservada, reside no bairro Jardim Flórida. Após a denúncia da mãe do jovem, policiais da Base Leste da Polícia Militar (PM) foram até a residência por volta das 18h de anteontem.

No quarto do adolescente, eles encontraram 43 pedras de crack. Além da droga, cujo peso total foi de aproximadamente 20 gramas, os policiais responsáveis pela ocorrência disseram ter encontrado várias embalagens para comercialização do produto.

Junto com a mãe, o garoto foi conduzido ao Plantão Policial da cidade. "Eu não aguento mais essa situação. Não conseguia mais ver ele envolvido com essa gente", desabafa. De acordo com ela, o filho mudou de comportamento há poucos meses, influenciado por más companhias.

Questionada sobre o sentimento de ter que denunciar o próprio filho, a mãe, mesmo com lágrimas nos olhos, continua firme. "Sei que ele vai ser detido, mas quero ver meu filho fora dessa vida. Ele anda com muita gente que não presta. Muitas vezes eles também vêm aqui (na residência), comem e levam tudo que eu comprei com muito sacrifício", afirma a mulher de 40 anos, que vive sozinha com o jovem e trabalha de faxineira para garantir o sustento do lar.

Apesar de a polícia ter encontrado as drogas, que estavam em um saco plástico sobre um armário no quarto do adolescente, a mãe relata que garoto já chegou a levar até armas de fogo para a residência. "Ele sempre diz que está guardando a droga e essas outras coisas para os amigos. Também fala que não usa as drogas. Não sei se ele trafica, pois nunca fica com dinheiro algum. Já não é a primeira vez que preciso chamar a polícia para ele".

Entretanto, não é só com o drama do filho que ela vai ter que conviver a partir de agora. Segundo a mãe, já foram feitas ameaças pela droga que foi apreendida após ela ter efetuado a denúncia. "Já ligaram e disseram que eu que vou ter que prestar contas da droga. Estou com muito medo".

A situação extrema fez com que a mãe colocasse a casa à venda para fugir das ameaças e das más companhias do filhos.

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Situação extrema


Segundo a titular da Delegacia da Infância e da Juventude (Diju) de Bauru, Rejani Borro Tiritan, a mãe optou entre deixar o filho nas mãos dos policiais ou nas dos bandidos. E, de acordo com a delegada, ela fez a escolha certa.

"Nenhuma mãe quer ver o filho nessa situação. Vemos muitos casos de jovens que se envolveram com o crime e acabaram perdendo a vida. Na realidade, casos como esses mostram que o envolvimento com drogas acaba com toda a família", explica.

Segundo a delegada, semanalmente pais procuram a Diju para saber como tirar o filho da criminalidade. "O ideal é sempre ficar atento para não chegar a esses casos extremos. A família precisa conversar bastante e, caso verifique o envolvimento com drogas, é necessário o quanto antes procurar um tratamento", aconselha, em tom de alerta, Rejani Tiritan.

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Liberado


Após ser apresentado no Plantão Policial, o delegado plantonista Kléber Granja o autuou em flagrante por ato infracional de tráfico de drogas. Ele seria conduzido no mesmo dia ao Núcleo de Atendimento Integrado (NAI) da Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Casa), onde ficaria apreendido.

Entretanto, finalmente, o jovem ganhou um presente no seu aniversário: a unidade, que tem capacidade de oito vagas, estava lotada e ele não pode ficar detido.

O juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer foi acionado. Segundo ele, ainda foram procuradas vagas nas cadeias públicas de Duartina, Jaú e Barra Bonita, onde o jovem infrator ficaria em cela especial, porém, todas as unidades também estavam sem vagas.

"O NAI é transitório. Realmente, ele fica sempre cheio, porém, geralmente há vagas. Foi uma situação incomum, na qual vários jovens se envolveram em crimes de roubos e tráfico na cidade. Por isso ficou lotado e sem vagas", explica o juiz.

Como não foram encontradas unidades prisionais para que o adolescente fosse apreeendido, ele foi liberado pelo juiz Maintinguer após assinatura de um termo de compromisso para posterior apresentação e adoção de medidas cabíveis ao inquérito.

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