Articulistas

Terras raras

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

Voltou a ocupar espaço na mídia esta se-mana o problema do virtual monopólio chinês na produção e comercialização das chamadas "terras raras", um conjunto de minerais  (também denominados elementos químicos-metálicos) que contém insumos fundamentais das novas tecnologias dos equipamentos de comunicação, de geração e transmissão da energia alternativa ao petróleo, como as turbinas eólicas, baterias elétricas de automóveis, etc. No Brasil, afloraram notícias sobre a localização de jazidas daqueles elementos no nordeste e em território maranhense, enquanto no mundo há uma verdadeira corrida de mineradoras para novos projetos.

Há pouco mais de 30 anos os EUA eram o maior produtor  mundial e tinham o domínio absoluto do mercado de terras raras. Os chineses usando mão de obra barata, métodos primitivos e "incentivos" apropriados perceberam que havia uma oportunidade, a vista dos altos custos da produção americana e investiram para aumentar a sua oferta a preços que eliminaram a competição. O mercado revelou sua miopia e oportunismo: transferiu toda a sua demanda para a China! Os chineses aperfeiçoaram a tecnologia da  produção, organizaram-na e mantiveram seus "incentivos". Hoje garantem mais da metade da produção mundial e respondem por 97% da oferta nos mercados. Controlam a sua exportação (com quotas que vêm diminuindo) para reservá-lo para uso doméstico, o que lhes dá vantagem competitiva nas tecnologias de última geração. Olhado superficialmente o fato parece sugerir que os dois (os agentes competitivos nos EUA e o Estado chinês) agiram "racionalmente". Os primeiros reduziram seus custos. O segundo deu emprego à sua mão de obra excedente. Logo tudo pareceria que ía  terminar no melhor dos mundos. A não ser que entre seus inegáveis talentos, Deng Xiao Ping tivesse, também, o de conhecer o futuro, é difícil explicar porque ele disse, em plena crise do petróleo nos anos 80, "os senhores têm o petróleo, mas a China tem as terras raras"...

É absolutamente legítimo e economicamente correto estimular atividades onde a dimensão do mercado interno presente ou futuro, permite a absorção de tecnologia capaz de construir num prazo razoável vantagens comparativas para que seus produtos possam competir no exterior sem a ajuda do Estado Indutor.

O fundamental é a existência da capacidade para absorver a tecnologia, de ambientá-la no "estado da arte" e, principalmente, ter a perspectiva de segura demanda interna futura. Sem esta última o incentivo necessário para o início do processo tem pouca probabilidade de sobreviver. Deveria ser óbvio que os estímulos chineses (taxa de câmbio desvalorizada, taxa de juros muito baixa e amplo crédito para exportação), oferecidas a quem investir localmente e transferir tecnologia têm funcionado com sucesso porque ela é o mais apetitoso mercado interno do mundo. E o mesmo vai repetir-se com a Índia...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

Comentários

Comentários