No dia 5 de junho de 1981, há exatos 30 anos, o Centro de Controle de Doenças de Atlanta, nos Estados Unidos, descobriu uma estranha pneumonia que só afetava pessoas com o sistema imunológico muito debilitado. Estava aberto o caminho para o diagnóstico da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, Sida, em inglês, aids.
Desde então, cerca de 30 milhões de pessoas já morreram em decorrência da contaminação pelo vírus HIV, o que dá uma média de 1 milhão de vítimas por ano. Poucas doenças são tão letais. Em Bauru, são cerca de 2 mil infectados, levando em conta apenas os casos notificados.
Apesar do longo período desde a descoberta da aids até hoje, dois aspectos teimam em permanecer intactos, o que só faz agravar a situação ou, no mínimo, impede que ela seja amenizada, juntamente com seus efeitos. "O preconceito e a ideia de que as coisas só acontecem com os outros são dois desafios permanentes na luta contra a aids", afirma Márcia Pereira da Silva, coordenadora administrativa da Sociedade de Apoio a Pessoa com Aids de Bauru (Sapab).
De acordo com ela, se por um lado houve avanços significativos, com a melhora dos tratamentos e a consequente melhora da qualidade de vida dos portadores dos vírus, por outro houve um retrocesso, por conta da discriminação. "A aids ainda não é aceita socialmente, não se fala dela abertamente", reclama. Para a coordenadora, não dá nem para tratar isso como retrocesso porque não se avançou nesse aspecto. "Se não houve avanço, não há retrocesso. Então, ainda estamos estacionados no mesmo ponto de 30 anos atrás."
Segundo ela, enquanto a sociedade não compreender corretamente o que é a aids, continuarão existindo empresas que se negam a contratar portadores do vírus. Embora elas não façam isso abertamente, a resposta mais comum aos candidatos soropositivos é que ele não está qualificado para a vaga. Os depoimentos contidos na matéria dão bem a dimensão dessa realidade.
Para Márcia, o grande avanço está mesmo na melhora da qualidade de vida dos portadores proporcionada pelos tratamentos com remédios retrovirais. "Hoje, as pessoas que têm aids não se preparam para morrer, mas se preparam para o futuro", destaca.
Na opinião da infecto pediatra Renata Roledo Masotti Arcelis, do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Bauru, o principal desafio continua sendo a prevenção e a adesão ao tratamento. Como não se fala tanto em aids como há algum tempo, a médica diz que as pessoas perderam um pouco a noção do perigo e não estão se cuidando como deveriam.
Segundo ela, pessoas que fazem parte do suposto grupo de risco estão correndo menos risco do que aqueles que estariam fora desse grupo. De acordo com a análise de Renata, profissionais do sexo, que teoricamente fariam parte desse grupo de risco, se protegem mais contra uma possível contaminação, usando camisinha, do que quem se acha fora de risco. Ao se acharem fora do grupo de risco, as pessoas fazem sexo sem camisinha, o que facilita a contaminação.
Quanto à dificuldade de adesão ao tratamento, ela diz que isso ocorre, principalmente, por causa dos efeitos colaterais, que, na maioria das vezes, são bastante desagradáveis. Além disso, os medicamentos precisam ser tomados na hora certa e pela vida toda, como todo doente crônico. Também há restrições quanto a certas comidas e bebidas.
"E tomar remédio na hora errada ou um dia sim e outro não, é pior porque o vírus cria resistência ao medicamento com mais facilidade", observa.