O que se vê nas calçadas é que nem sempre os exemplares abatidos com autorização da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) são repostos. É o que ocorre, por exemplo, na quadra 9 da rua Conselheiro Antônio Prado, no bairro Higienópolis. No local, de acordo com o morador Omar Calil, uma sibipiruna caiu em janeiro, após um forte vendaval.
Os galhos, que derrubaram a fiação elétrica, foram retirados pelo Corpo de Bombeiros mas, até hoje, o caule permanece intacto - parte ainda fincada sob a terra e parte estendida sobre o passeio público. "Não pedimos para tirar e ninguém veio tirar também, então acabou ficando aí. Era uma árvore antiga, de mais de 40 anos, que não resistiu à chuva. Sobrou só o tronco", comenta o morador, dizendo acreditar que o exemplar veio abaixo porque já estava condenado.
Das 429 árvores derrubadas entre janeiro e maio, apenas metade demandou a supressão por problemas fitossanitários, ou seja, por apresentarem doenças que comprometiam sua estrutura. Os demais casos, direta ou indiretamente, estão atrelados à inadequação da espécie ao local em que foi plantada.
São exemplares cujas raízes ameaçam a estrutura subterrânea de imóveis ou a rede de água e esgoto. Há ainda aquelas que foram plantadas muito próximas a casas ou guias e, depois de grandes, passaram a apresentar risco de queda ou acidentes.
Neste contexto, a falta de um plano de arborização ? que nunca existiu em Bauru ? é fator determinante para a derrubada de tantas árvores na cidade, conforme avalia Osmar Cavassan, professor de ecologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). "O planejamento adequado contempla o espaço disponível para que a árvore possa se desenvolver, avalia o tipo de ramificação e a altura máxima de cada espécie, assim como a disposição da fiação elétrica, rede de água e esgoto e os imóveis próximos", enumera.
Equívocos
Sem o critério adequado, ocorrem equívocos como a plantação de flamboyants ao longo do canteiro central da avenida Comendador José da Silva Martha. Na quadra 4, por exemplo, duas das árvores tiveram de ser decepadas porque suas raízes começaram a provocar ondulações no asfalto. O mesmo ocorreu na Praça Portugal, onde algumas espécies plantadas no passeio público também foram suprimidas.
"Num bairro novo da zona Sul, foram plantados, no ano passado, ipês a meio metro de distância dos postes de iluminação, quando a lei diz que este espaço tem de ser de, no mínimo, quatro metros. É evidente que, quando estas plantas crescerem, causarão problemas e também serão derrubadas justificadamente", critica Osmar Cavassan, professor de ecologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Árvores decepadas
Não é só a derrubada de árvores que compromete a paisagem e a qualidade do ambiente urbano. A chamada poda drástica, quando galhos são radicalmente decepados, é tão criminosa e irregular quanto o abate das espécies. De acordo com o titular da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), Valcirlei Gonçalves da Silva, a poda não autorizada é ainda mais frequente do que a derrubada de árvores.
Um exemplo típico desta total falta de consciência ambiental é o flagrante registrado recentemente por um leitor do JC, que enviou uma foto de um munícipe desfigurando um exemplar na esquina da rua Aviador Gomes Ribeiro com a rua Engenheiro Saint Martin. Mas até mesmo as equipes da Empresa Municipal do Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), contratadas pela prefeitura para realizar serviços de poda, já foram alvo de reclamações do próprio chefe do Executivo por conta de cortes drásticos em copas de árvores.
No mês passado, após ser avisado pela reportagem do JC, ele mandou a equipe da Emdurb suspender imediatamente o serviço na quadra 14 da avenida Comendador da Silva Martha. Duas das oito árvores que seriam "podadas" foram completamente retalhadas.
Verde diminui agressividade
Além de conforto térmico e sombra, as árvores são responsáveis por um efeito paisagístico capaz até mesmo de garantir maior segurança ao local onde estão plantadas. Segundo Osmar Cavassan, professor de ecologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a beleza das árvores tornam o ambiente mais agradável e, neste sentido, a tendência é que o comportamento das pessoas ? sejam eles pedestres ou motoristas ? seja menos agressivo.
"Os elementos da natureza tornam aquele espaço menos violento. O ideal é que a cidade tivesse muito mais árvores, porque a qualidade de vida que ela proporciona decresce à medida em que são abatidas", sentencia, acrescentando que algumas espécies ? desde que saudáveis e resistentes - também oferecem proteção aos imóveis próximos durante temporais ou vendavais.
Sibipiruna é a 1ª no ranking de corte
Segundo ranking divulgado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), as árvores mais derrubadas sob autorização da pasta neste ano são da espécie sibipiruna, com 101 exemplares. Em seguida, vêm o ficus, a canelinha, o chapéu de sol, a monguba e o oiti. "São todas de grande porte, muitas plantadas há mais de 20 anos. Algumas, como a canelinha, não se adaptaram bem à arborização urbana e acabam condenadas pelo ataque de pragas", detalha o secretário Valcirlei Gonçalves da Silva.
Entre os bairros que mais solicitam a derrubada de árvores estão o Núcleo Mary Dota, Núcleo Gasparini e Altos da Cidade. "E, geralmente, o solicitante já tem uma idade mais avançada. São pessoas que não têm mais disposição para ficar limpando as folhas que caem na calçada. Mas cada solicitação é avaliada com critério e nem sempre é acatada", salienta.
Cerrado paulista está com dias contados
Pode parecer improvável, mas estudos revelam que o cerrado deve desaparecer de todo o território paulista até 2030, caso o ritmo de destruição continuar na mesma velocidade. Se, no início deste século, ainda restavam 16% deste tipo vegetação, agora sobram apenas 0,86% de fragmentos de mata nativa. Por ano, conforme levantamento da Organização Não-Governamental (ONG) Conservação Internacional CI-Brasil, a taxa anual de desmatamento chega a 1,5% (leia mais na página 5).
"São 3 milhões de hectares por ano. Se nenhuma atitude drástica for tomada, acredito que o cerrado seja extinto antes mesmo dos próximos 20 anos, o que é lamentável, porque nossas árvores são riquíssimas. Algumas estão sendo estudadas até em pesquisas para a cura do câncer", destaca Amilton Marques Sobreira, presidente da ONG SOS Cerrado.
Na área urbana, os principais e maiores fragmentos ainda preservados são as reservas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Jardim Botânico e Instituto Lauro de Souza Lima, que, juntos, somam aproximadamente 400 alqueires. Por serem consideradas áreas de proteção permanente, não podem ser suprimidas.
No outro extremo da cidade, nas imediações do Jardim Bela Vista e Vila Falcão, a mata nativa praticamente não existe mais, conforme lembra o professor de ecologia Osmar Cavassan, da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O único fragmento protegido desta vegetação, semelhante à Mata Atlântica, é a Estação Ecológica Sebastião Aleixo, localizada próxima ao Aeroporto Moussa Tobias. Há ainda pequenos trechos deste bioma às margens de riachos do Córrego Água Parada e afluentes do Rio Batalha.
Contratação de fiscais
Atualmente, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) não dispõe de fiscais para autuar moradores que retiram ou podam de maneira irregular árvores do passeio público. O trabalho é realizado, de maneira improvisada, por três engenheiros e biólogos, quando estes saem às ruas para executar outros trabalhos.
"É uma dificuldade que enfrentamos", aponta o titular da Semma, Valcirlei Gonçalves da Silva. De acordo com o secretário, entretanto, a pasta planeja realizar concurso público dentro dos próximos 60 dias para a contratação de 10 fiscais, que terão atribuições variadas dentro da secretaria, incluindo a de multar responsáveis por derrubada ou poda irregular de árvores.
Caminhada ecológica
A Polícia Militar Ambiental de Bauru realiza hoje a 1.ª Caminhada Ecológica em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente. O passeio, que marcará o encerramento da Semana do Meio Ambiente, terá início às 9h, no Horto Florestal, que fica na avenida Rodrigues Alves, 38-55. Durante o evento, haverá sorteio de brindes aos participantes.