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Viagem na hiper-realidade

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Los Angeles - Sempre me disseram que Los Angeles era a anticidade. Avenidas enormes, tudo muito longe, autoestradas, calçadas vazias, transporte público inexistente. Percebo que tudo isso é verdade, menos o transporte público ruim. Também é verdade que a extensão da linha do metrô é ridícula. Até mesmo se comparada com a de São Paulo. Liga apenas Hollywood ao centro da cidade. Para o turista até seria o suficiente porque o melhor de L.A. é o Hollywood Boulevard, a poucos passos do célebre Teatro Chinês, com suas colunas da dinastia Ming. Foi lá que Elizabeth Taylor e Frank Sinatra iniciaram a tradição de deixar as impressões de suas mãos é pés no concreto. Fora daí, o ônibus é a única opção para quem não tem carro, numa cidade em que existem mais veículos automotores que o número de habitantes. Em cada ponto existe uma tabela de horários. Resolvi esperar o bus das 10h43m. Foi exatamente neste horário que ele parou na minha frente e o piso do primeiro degrau se igualou a altura da calçada para que eu subisse. Os idosos e os cadeirantes são os principais usuários dos serviços de ônibus. É notável a delicadeza com que são tratadas aquelas senhoras de cabelinhos tingidos de lilás. O motorista para, sai do assento, desce, dá a mão como se fosse dançar uma valsa. Cumprimentam-se pelo nome, numa cidade que é a segunda maior dos Estados Unidos, com 4,5 milhões de habitantes, sem contar a área metropolitana, que é enorme. Enquanto o ônibus rodava vi restaurantes em forma de cartola e de hambúrguer. A cidade é cortada por rodovias. Transitei por uma de quatro andares. O motorista contou que existem mais de 10 mil entroncamentos rodoviários.

L.A. nos mostra a realidade dos cenários de cinema. Lá está Hollywood com seu famoso letreiro no Monte Lee; Beverly Hills com as mansões dos artistas de cinema; Malibu, Long Beach, Downtown e até a violenta South Central onde é gravada boa parte dos filmes que tem como temática as brigas entre gangues. Os estúdios da Universal, Warner e Walt Disney também estão instalados na cidade. A 50 quilômetros fica a Disneylândia. Nem em um ano dá para ver tudo. Hollywood, Venice e Sunset Boulevard têm casas noturnas, bares e cozinhas de todos os tipos. A homoafetividade aqui está em toda parte, para desespero dos homofóbicos. Na Venice Beach, saradões bronzeados passeiam de mãos dadas. O lugar foi desenvolvido inspirado na Veneza italiana e tem quilômetros de canais. Na década de 60 foi o epicentro do movimento hippie. Hoje é habitada por uma variedade de tipos, não só gays: motociclistas tatuados, gatinhas de biquíni em patins, rostos conhecidos das telas de cinema, e rappers endinheirados. Imperdível.

Quem vai a L.A na esperança de fazer compras pode sair frustrado. A cidade é cara e os artigos de luxo têm preços para superstars. Vale a pena visitar a Rodeo Drive, um dos centros comerciais mais sofisticados do mundo. Só para ver e babar. Para comprar só nas lojas da Chinatown, no centro. Investi uns dólares num táxi para Sunset Boulevard, a mais famosa das alamedas de Los Angeles e talvez do mundo. Quilômetros de extensão que vão de Downtown até a praia, passando por estúdios de cinema históricos, lojas famosas, clubes de strip-tease e mansões espetaculares. Quem está na minha faixa etária viu o Sunset Boulevard em Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder. Gloria Swanson fez o papel de uma atriz decadente, apaixonada pelo aventureiro interpretado por William Holden. Muitas daquelas mansões já serviram de moradia de estrelas decadentes, e foram a leilão. É um show hiperbólico ou, na linguagem deles é the real thing, como a Coca-Cola. Quer dizer o máximo, o melhor, mas literalmente é "a coisa verdadeira". Tudo parece verdadeiro, ainda que, como Alice no País das Maravilhas nunca tenha existido. O que mais se ouve na televisão é "more". Que é um modo de dizer "ainda", mas sob a forma de "mais". Mais do que aquilo que você poderia desejar, para jogar fora é more ? esse é o bem-estar. Quando se diz que o espetáculo vai continuar é "more to come". O Museu Getty tem salas atulhadas de Rafael, Ticiano, Uccello, Veronese, Poussin. More, more... Nem a Uffizi de Florença, o Louvre e a Tate Gallery somadas têm tantos. O rádio do táxi toca um velho sucesso de Olivia Newton John, Please mister, please. Sou tocado por essa grandeza kitsh. Sinto um arrepio. A viagem certamente não termina aqui: more to come!


O autor, Zarcillo Barbosa, jornalista e colaborador do JC

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