Adoro escrever sobre os guerreiros a defender verdadeiramente essa terra. Muitos falam de seus amores, mas da boca para fora, poucos nutrem algo verdadeiramente sólido e sincero, exercendo na prática e no dia-a-dia o que a boca propaga. Um deles se foi na manhã dessa terça, Vivaldo Pitta, ferroviário apaixonado por tudo o que a ferrovia representou na vida de suas cidades, Avaí e Bauru. Foi um abnegado, desses a gastar do próprio bolso para continuar movendo os moinhos de sua paixão.
Convivi com ele por poucos anos e de uma desconfiança inicial, nasceu um respeito imenso, por ter a certificação de no seu fazer não nutrir nenhum sentimento de benefício das benesses do meio ferroviário em ebulição. Pitta vivenciou a ferrovia em todos os seus momentos e no pior deles, a privatização a decretar o seu fenecer, quando todo um patrimônio estava sendo dilapidado, se esvaindo entre os dedos, com muitos levando peças importantes para casa, ornamentando fazendas, salas de estar ou revendendo para colecionadores, ele fez o oposto.
Empenhou uma luta fratricida para angariar tudo o que podia e o fez, dentro do alcance dos seus braços e montou com tudo um museu, o de Avaí. E o fez lá porque aqui já exista um museu ferroviário e lá, sua cidade natal, local onde também encontrou amparo de administradores a concretizarem a realização de seu sonho. O de sua vida.
Minha desconfiança advinha daí. Via Pitta no seu passo ligeiro, objetivos definidos, pouca conversa e muita ação, sempre circulando nos meios férreos, galgando objetos e peças. Nos museus um voraz pesquisador, desses a ser considerado rato de biblioteca, tal a persistência na pesquisa, tudo canalizado para um jornal, um dos únicos de um museu brasileiro.
Um memorialista na acepção da palavra. E a fonte de sua pesquisa está à disposição de todos, ofertada gratuitamente. Lá em Avaí no museu muito de uma história pouca conhecida de muitas cidades da região, algo garimpado com sangue, suor e lágrimas em jornais antigos de Bauru, fonte inesgotável de história. Ele sabia disso e sugou esse néctar até não mais poder.
Dentro poucos, um verdadeiro e exemplar "consultor", desses que se podia perguntar qualquer coisa da história da ferrovia e obter quase sem consulta uma resposta precisa e definitiva. Ele entendia que a história, o arrebanhado ao longo do tempo não podia e nem devia ser comercializado, e sim, exposto, oferecido à comunidade. Nisso foi um exemplo para tantos outros.
Num momento de grande dor e padecimento em minha casa, com minha mãe sofrendo entrevada num hospital, vi Pitta sofrer demais nos últimos tempos e verdadeiramente descansou. Seu nome permanecerá ad eternum, pois fez diferente, mais do que isso, mostrou que é possível ser diferente. Que sirva de exemplo para todos os interessados nessas questões de defesa do patrimônio histórico, para que se apeguem menos no ter e só no fazer.
Henrique Perazzi de Aquino - professor de História e blogueiro - www.mafuadohpa.blogspot.com