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Garota achada inconsciente expõe uso precoce de álcool

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Uma garota de apenas 14 anos encontrada inconsciente na rua após consumir quantidade excessiva de bebida alcoólica em pleno início de tarde expôs, ontem, o problema crítico da embriaguez na adolescência em Bauru. Institutos e profissionais que lidam diariamente com o assunto são unânimes em afirmar que a ingestão de álcool nesta faixa etária tem crescido a cada ano na cidade, acompanhando um fenômeno verificado também em âmbito nacional.

As propagandas incisivas, a facilidade de acesso, o aumento da competitividade e o distanciamento das relações familiares são apontados como principais motivos para o descontrole. Em situações não raras, até mesmo crianças de 8 anos vêm sendo submetidas a tratamento na rede municipal de saúde por conta do uso da substância.

No caso de ontem, a adolescente havia acabado de participar de uma festa junina na escola onde estuda, na Vila Giunta, quando se reuniu com alguns amigos do lado de fora da instituição. De acordo com o relato de alunos, o grupo conversava ao mesmo tempo em que dividia três pequenas garrafas de pinga.

Meia hora depois, por volta das 13h30, a garota, completamente alcoolizada, desfaleceu na quadra 9 da rua Mário Gonzaga Junqueira. Socorrida por uma viatura da Polícia Militar (PM), ela foi encaminhada ao Pronto-Socorro Central (PSC), onde foi medicada e permaneceu em observação até recuperar-se completamente.

A mãe dela, que chegou à unidade de saúde por volta das 14h30, aparentava desespero. Chorando muito e temendo pela vida da filha, a mulher contou à reportagem que a menina não tem o hábito de ingerir bebidas alcoólicas e tão pouco costuma sair de casa sozinha para se divertir com os amigos.

"Eu estava no trabalho e ela me ligou, dizendo que iria na festa junina da escola. Não imaginava que isso iria acontecer. Pelo que sei, ela nunca tinha bebido nada antes. Sou super rigorosa, ela só sai de casa para ir à escola. Á noite, nunca saiu sozinha", justificou a mãe, num misto de vergonha e culpa pelo ocorrido.

Iniciação


Tudo leva a crer que, neste caso, não tenha sido a falta de cuidado dos pais o fator determinante para a embriaguez da menina. Ainda inexperiente, ela pode ter se rendido à curiosidade típica desta fase da vida ou se sentido pressionada pelo grupo a experimentar a bebida.

"A questão é que o cérebro de uma garota como ela ainda não está neuroadaptado. Ela pode ter bebido uma pequena quantidade que, para uma pessoa que se embriaga há 20 anos, não faria o mesmo efeito", observa o psiquiatra Sérgio Sato.

Mas, via de regra, os jovens que ingerem álcool não costumam ser comedidos, conforme destaca a terapeuta de saúde Anahy Acosta, que atende dezenas de casos de alcoolismo na adolescência no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD). "Eles bebem, e bebem muito. Não apenas cerveja, mas todo tipo de destilado, incluindo pinga. E é muito raro que não tenham experimentado ou façam uso, mesmo que ocasional, de outras drogas. Na verdade, o álcool é apenas a porta de entrada", salienta.

Segundo Anahy e Sato, é evidente o aumento dos casos de alcoolismo na adolescência em todas as classes sociais. E o mais alarmante é que eles estão começando a beber cada vez mais cedo. "Muitos jovens que chegam ao Caps AD já vinham sendo atendidos no Caps Infantil. A iniciação está cada vez mais antecipada, geralmente entre 8 e 12 anos", salienta a terapeuta.

De acordo com a psicóloga Elisabete Kurozawa, outro dado assustador é o crescimento do consumo entre garotas que, em alguns casos, bebem em maior quantidade e frequencia do que os meninos. "Em certa medida, elas buscam se igualar aos homens ou até mesmo superá-los. É uma situação preocupante", aponta.

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Especialistas: tolerância
social à bebida é um erro


Por ser uma droga lícita, o álcool é uma substância bastante tolerada socialmente, que está presente em todas as confraternizações e sempre associado aos momentos de prazer. Neste contexto, os adolescentes, com personalidade ainda em formação, se transformam em presas fáceis.

Para a terapeuta de saúde Anahy Acosta, o entendimento de que a embriaguez faz parte do processo de descoberta adolescente é um erro que precisa ser corrigido. "O jovem bebe, passa mal, vai para o pronto-socorro e tudo é visto com muita tranquilidade. Ele repete esta experiência várias vezes e nenhuma mudança acontece, porque ninguém considera uma atitude condenável", reclama.

As propagandas que associam a bebida com prazer, integração social e conquistas amorosas também auxiliam a corroborar esta ideia. O psiquiatra Sérgio Sato defende que a publicidade neste segmento deveria ser regulamentada assim como foi a do tabaco, anos atrás.

"Na década de 1950, o cinema glamourizava o cigarro e escondia os males que ele provocava. Hoje, os maços trazem avisos bastante claros sobre os riscos de o fumante ter um câncer. O que acontecia há 60 anos com o tabaco é o que ocorre hoje com a bebida. Ninguém fala dos danos", avalia.

Além dos prejuízos de longo prazo que podem representar a destruição de toda uma vida, o álcool na adolescência provoca distúrbios no sono, alteração na rotina alimentar, prejuízos no processo cognitivo com consequente redução do rendimento escolar, além de conflitos nas relações familiares.

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