Bairros

?Conselho não é polícia de criança?

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Recentemente, 28 pais foram notificados por deixarem seus filhos, menores de 18 anos, pelas ruas, muitas vezes fazendo malabares e pedindo esmola nos semáforos de Bauru. Tirar essas crianças deste convívio tem ficado cada vez mais difícil, já que as conselheiras tutelares são vistas como policiais e recebidas com agressividade pelos menores (leia mais abaixo). Para discutir este e outros assuntos e deflagrar ações, foi lançada na tarde de ontem, no Café com Política do JC, a campanha Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil.

A campanha remete ao Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, que acontece no dia 12 de junho. De acordo com a secretária do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, a data não deve ser comemorada, e sim servir de alerta para a situação do trabalho infantil não apenas em Bauru, mas no mundo todo.

"A secretaria vem unindo esforços junto à Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil (Cometi) e dos patrocinadores para que, cada vez mais, a juventude tenha o respaldo necessário para não precisar estar nas condições de trabalho".

A titular da Sebes já conseguiu proporcionar atividades diversas a 2,3 mil crianças que estão vinculadas a projetos. Estes acontecem em horário contraposto ao escolar e ajudam as crianças a evitar as ruas, onde estão sujeitas à aliciação ao tráfico, além do tráfico de seres humanos.

A primeira orientação de Darlene é a conscientização da população. As pessoas não devem dar dinheiro a menores, sejam os que só pedem, sejam os que fazem malabares. Balas e outros objetos vendidos por eles nos semáforos também não devem ser adquiridos.

"Nós entendemos que Bauru é uma cidade solidária e que as pessoas não fazem por mal. Mas isso faz com que as crianças caracterizem aquele ponto do semáforo como produtivo. O que não queremos é que estes 28 pais notificados passem a mil. Para isso é necessário também transformar, e isso só será feito pela educação", frisou a secretária do Bem-Estar Social.

À moda antiga

O trabalho de erradicação, que é regido em Bauru pela Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil (Cometi), precisa de apoio de várias frentes. Entre elas estão o Ministério do Trabalho, secretarias municipais de Educação, Esporte, Cultura, Secretaria Estadual de Educação, entre outras pastas.

Mas o vínculo familiar é o ponto crucial para que essa árdua tarefa desempenhada pelo município comece a surtir efeito. Por isso, Darlene ressalta que antigos hábitos, como levar e buscar os filhos na escola, devem ser retomados. "Nós entendemos que muitos pais não têm tempo. Mas essa responsabilidade pode ser dividida com um vizinho, por exemplo".

A Campanha Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil é uma realização da Prefeitura Municipal, Sebes e Cometi com patrocínio da Fundação Telefônica, Sindicato dos Químicos, Força Sindical, CGTB, Sindecteb, CMDCA, CUT e apoio da Universidade Sagrado Coração (USC), TV Preve e Jornal da Cidade.

____________________

Pit stop divulga campanha hoje

A partir das 9h de hoje, diversos participantes da campanha sairão da Praça Rui Barbosa e farão paradas no restaurante Nações Grill, no Supermercado Paulistão, na avenida Nações Unidas e no Calçadão da Batista de Carvalho para entregar 3 mil sacolinhas e 3 mil marcadores de livros à população bauruense.

O dia também é de "varredura" pelas ruas a fim de encontrar crianças em situação de trabalho. Atualmente, cerca de 80 crianças, que tiveram problemas em convívio familiar e os pais não aceitaram ajuda da Sebes estão dispersas em seis abrigos da cidade. A idade delas varia entre 0 e 17 anos.

____________________

Reações agressivas são constantes

O trabalho diário de diversas assistentes sociais e conselheiras tutelares de Bauru é visto pelas crianças como semelhante ao de um policial militar. Oferecer ajuda é difícil por conta da agressividade, já que muitas estão no mundo das drogas. O Jornal da Cidade já relatou casos em que um adolescente apreendido quebrou o vidro de uma viatura da Polícia Militar e ainda chutou a boca de uma conselheira.

"Nós ficamos muito tristes com isso. Eu gostaria de frisar que o conselho não é polícia de criança porque essa concepção atrapalha muito o nosso trabalho. Para ser conselheiro tem que ser vocacionado, porque nós estamos lidando com seres humanos", disse a conselheira tutelar Valdeleine Richelma Félix.

Diariamente, equipes de assistentes sociais percorrem as ruas de Bauru para retirar essas crianças das ruas. Desde 2006, a Sebes já identificou 634 crianças em situação de trabalho infantil, sendo que 269 dessas esporadicamente pediam esmola ou exerciam outro tipo de "trabalho", como por exemplo, vender balas nos semáforos. Do total, 302 foram tiradas da rua.

A assistente social Luciana Aparecida Fazio Dias conta que as crianças e adolescentes mais resistentes e reincidentes participam de um projeto diferenciado. "Eles vão às sextas-feiras no Parque Vitória Régia participarem de outro projeto onde praticam esportes comem lanche. Alguns até procuram a Sebes posteriormente", disse com um sorriso.

Participam da campanha também algumas escolas estaduais onde o projeto já vinha sendo desenvolvido. Nas próximas três semanas, estagiárias do curso de psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC) estarão auxiliando na iniciativa. Além disso, nesta semana os alunos receberão 2 mil marcadores de livros alusivos à erradicação ao trabalho infantil.

Comentários

Comentários