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Defesa legítima

Antonio Delfim Netto
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Em diferentes ocasiões, análises constantes de documentos do Fundo Monetário Internacional foram invocadas por economistas para condenar medidas de controle dos movimentos de capitais. O mesmo aconteceu com a leitura das "diretrizes" do chamado Consenso de Washington a partir da década dos oitenta do século passado, que afinal eram interpretadas ao gosto de cada um.   

Agora, na esteira dos desdobramentos da crise financeira, após dois anos de hesitação e perplexidade, o FMI admitiu explicitamente que, em circunstâncias específicas, "controlar o movimento de capitais pode ser uma das ferramentas da política econômica dos países que estão sofrendo com a supervalorização de suas moedas". Não devem esses países assistir passivamente à erosão de sua base industrial exposta à competição desleal de países mais espertos.     A realidade é que ninguém dispõe de uma "teoria científica" para recomendar ou não a liberdade de capitais. Além do mais, nenhuma pesquisa empírica feita com métodos estatísticos robustos pode resolvê-la. Trata-se, na mais benigna das hipóteses, de uma recomendação "normativa" que pode ou não ser útil, mas que, evidentemente, é contaminada por interesses. É uma questão cuja resposta depende das circunstâncias internas e externas de cada país. Dizer que "deixar o câmbio flutuar naturalmente é a melhor solução para o problema da sobrevalorização do Real", como escrevem em seus modelos alguns dos nossos economistas, não tem maior valor "científico". É apenas uma opinião, como todas as outras (inclusive a minha), ditadas por diferentes visões do mundo. Afinal, deveria ser óbvio, que a "liberdade de movimento de capitais" não está escrita nas "leis naturais" imutáveis da organização do Universo.

Mesmo os mais recentes modelos econométricos têm muito pouca coisa a dizer sobre como funciona, de verdade, a economia real. A macroeconomia expressa mais a vontade de como o sistema deveria funcionar do que como ele funciona. O aparato econométrico que às vezes aparentemente a sustenta (a "calibração") é terrivelmente deficiente para levar a qualquer conclusão segura. Aliás não deveria haver surpresa: a ciência só avança quando falha!

A ideia, portanto, que as políticas macroprudenciais que o governo vem adotando são uma volta ao passado, indica simplesmente a perplexidade com a tragédia a que levou a aparente sofisticação financeira. O momento não é de afirmações incontestáveis, apoiadas numa ciência que não existe, mas de avaliação cuidadosa da relação custo/benefício, no curto e no longo prazo, das medidas que estamos tomando em legítima defesa...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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