Las Vegas - Aqui tudo é verdadeiramente falso. Inclusive a cidade localizada no meio do nada, no deserto do Estado de Nevada. Em Las Vegas existem caça-níqueis até nas igrejas. O apelido de "Cidade do Pecado" é bem apropriado. As tentações são grandes. Grande parte dos outdoors e propagandas é di-recionada para serviços de acompanhantes, prostitutas ou clubes de cavalheiros. Na principal avenida da cidade ? conhecida por The Strip -, e em plena luz do dia, homens distribuem folhetos com fotos de garotas em poses provocantes. É preciso tomar cuidado para não exagerar na comemoração e acordar de ressaca e casado, um dos clichês pelos quais Las Vegas é conhecida. Ao longo da Strip, e em muitos hotéis, o que não faltam são capelas que oferecem cerimônias-relâmpago para os mais apressados. A mais famosa delas, a Little White Wedding Chapel , é o destino de muitos casais. Vi um deles nada sóbrio. Há gente que acaba se casando e nem sabe ao certo como tudo ocorreu. Loucuras como essa são responsáveis pelo código de conduta mais repetido em todos os cantos da cidade: "O que acontece em Vegas, fica em Vegas". Em Medo e Delírio em Las Vegas, o criador do jornalismo gonzo Hunter S. Thompson escrevia que a cidade devorava os seus náufragos, tal qual um tubarão.
Saí da escada rolante e entrei no cassino do Caesars Palace. Multidões enormes cercavam as mesas de dados. Quem são essas pessoas? E esses rostos! De onde saíram? Parecem caricaturas dos vendedores da Feira do Rolo. Mas são reais. Eles gritam sem parar ao redor da mesa de jogos às quatro e meia da manhã numa cidade no meio do deserto. Ainda acreditam no Sonho Americano ? que crise, que nada! -, nutrem a esperança de ver um grande ganhador surgindo de repente naquele cassino que cheira plástico, no último minuto antes do amanhecer. Há quem sonhe em quebrar a banca e voltar para casa podre de rico. Saio para respirar o ar seco que dificulta a locomoção na rua, onde a temperatura pode ultrapassar os 40°. Os hotéis oferecem de tudo para que o cliente não precise botar o pé na rua e seja escalpelado lá mesmo. No Aria Resort&Cassino, com 61 andares, é possível ter uma visão do CityCenter,uma cidade dentro da cidade. O complexo tem 6 mil quartos, 16 restaurantes e 12 mil empregados. O Cirque Du Soleil exibe o espetáculo "Viva Elvis", no seu teatro, com ingressos de 125 dólares, em média.
Acaba de ser inaugurado o Cosmopolitan, voltado para viajantes classe A, uma extensão do Aria MGM com três mil apartamentos. O cassino tem 30 mil metros quadrados com 1.500 máquinas caça-níqueis. A decoração dos hoteis e ambientações seguem os nomes que têm: Mandarim Oriental, Belaggio, Monte Carlo (o Sahara fechou as portas), Caesars Palace. Como os EUA não têm história antiga, eles reproduzem tudo o que existe de emblemático no mundo. Veneza foi copiada integralmente. Tudo é falso embora eles digam que "nós lhes damos a reprodução, a fim de que lhes venha a vontade do original". Mas, para que a reprodução seja desejada, é necessário que o original seja idolatrado, e essa é a função do Kitsch. Diante da Pietà, de Miguel Ângelo, uma boa cópia em mármore, uma voz o avisará que o pavimento sobre o qual ela se apóia é feito de pedras provenientes do Santo Sepulcro de Jerusalém (e portanto mais verdadeira que a Pietà do Vaticano). Por dez dólares você tira uma foto e no envelope colorido vem uma cópia assinada pela administração da Igreja do Santo Sepulcro, atestando a autenticidade das pedras. Há outras vantagens culturais em Las Vegas. A Vênus de Milo, por exemplo, já vem completa, com os braços, apoiada numa coluna jônica, tendo ao fundo uma parede com pinturas de vasos em figuras vermelhas. A legenda explica que a Vênus de Milo foi trazida à vida como era na época em que pousou para o desconhecido escultor na Grécia, aproximadamente duzentos anos antes de Cristo. A indústria do Falso Absoluto ousou ir além da cópia, para ser ainda melhor. Rárárá! Volto exausto para o meu quarto no Excalibur. Sou uma não-viagem. Burlei a minha própria epopéia.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC