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Dentes e ossos

Marcondes Serotini Filho
| Tempo de leitura: 4 min

"Porque somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente, apenas estão apoiados na superfície, e com um pequeno empurrão seriam deslocados. Não, é impossível, porque estão firmemente unidos à terra. Mas atenção, também isto é pura aparência". Franz Kafka Quantas e quantas vezes um paciente nos pergunta por que é que quando a gente perde um dente, não nasce outro? Daí eu explico que com os tubarões é assim. Perde um, nasce outro, quantas vezes for necessário. Não sei por que o prestígio dentário destes elasmobrânquios do mar é tão grande assim com o Criador, que acabou com a profissão de Dentista de tubarões "no ninho". Porém, explico ao desanimado paciente que o tatu não possui dentes: é um edentado histórico, assim como o tenista Del Potro, argentino street boy, que é banguela dos dentes de trás, segundo a lenda do mundo do tênis. Pior para o senhor tatu e para Del Potro, apesar de o porteño já ter reposto os elementos dentários faltantes com implantes, após vencer um Grand Slam.

Quando ficamos sabendo do que é feito um dente, é de arrepiar como um destempero da natureza consegue dissolver esta "pedra" altamente resistente, matriz do esmalte dentário. O mineral é chamado de hidroxiapatita e é um dos mais duros do reino mineral. Mesmo assim, a placa dentária consegue captar o açúcar da nossa dieta e, após horas sem escovação e fio dental, produz um ácido que faz aquele diamante branco se tornar enegrecido.

Sim, a cárie, doença insidiosa e dolorida, rasga a textura brilhante do esmalte sem dor alguma, para penetrar mais fundo no dente e alcançar a dentina, um mineral mais mole e dotado de sensibilidade, por possuir tentáculos cujas raízes se miscuem com a polpa dentária, também chamada de nervo. Aí sim, está feita a miséria: chegando no nervo, mesmo que indiretamente através da dentina, o cafezinho vai fazer doer, assim como a cerveja e o sorvete gelados, mostrando que uma cavidade já está formada.

Ato seguinte, a continuar a negligência do paciente, hiperemia com dores lancinantes e abscesso, com formação de exsudato e pus. Tudo isso porque a natureza ludibria o incauto ser, que jamais imagina que aquela porcelana linda e brilhante possa ser furada por microorganismos e seus produtos ácidos, transformando-a numa reles canjica.

Do mesmo modo, dente e osso se confundem, por terem a mesma coloração e por serem duros, apesar de o dente ser bem mais. Porém, um dente não encontra-se preso na boca através da gengiva, como todos estão carecas de saber. Quem segura o dente com esta força toda é o osso alveolar e cortical, que nos faz ter poderes até idiotas para abrir uma garrafa de refrigerante, comer um torresmo e também se dependurar num trapézio, como já vimos no circo.

Quem há de dizer que a falta de higienização correta, aliada a uma suposta predisposição genética pode fazer com que um dente simplesmente amoleça e caia sob o jato de um simples assoprão. Pois é o que acontece àqueles que não cuidam de suas gengivas. No sulco gengival, entre o dente e a gengiva, pode acontecer um acúmulo de sujeira, que fará surgir o tártaro. Este irá produzir toxinas que irão "corroer" o osso de suporte, fazendo o dente em perfeitas condições perder sua base e soçobrar diante de todos nós, vítima da periodontite. É a famosa piorréia, que nossos avós cansaram de conhecer.

Hoje, removi um canino superior de um homem com mais de70 anos. O dente era muito grande, mas de nada adiantou o seu porte, porque saiu como um dente de leite. Foi incrível extrair um dente cavalar sem fazer um Newton de força sequer.

É um engodo achar que dentes e ossos na boca são indestrutíveis. O melhor de tudo isso é que é fácil evitar a cárie e a periodontite: basta higienizar. O pior de tudo isso é que está difícil ensinar o truque, não para as crianças, que são massas de modelar virgens e prontas para aprender. Difícil está, em pleno século XXI, convencer os pais a não ofertarem tantos doces a seus descendentes. Muito difícil...

O autor, Marcondes Serotini Filho, é especialista em Ortodontia e em Saúde Pública, cronista colaborador do Jornal da Cidade

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