Cultura

Sophia e Benjamin


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Nuvens de Sophia pairam no ar iluminadas pelo intruso sol matinal. São transparentes, quase invisíveis, esses pelos azulados que ousam voar e formar desenhos no espaço compacto do quarto que costumo hospedar meus amigos em São Paulo. Sophia está comigo há quase 3 anos, desde que era uma gatinha curiosa e brincalhona. O tempo passou e minha gata persa continua com a mesma alegria de criança, potencializada, principalmente depois da chegada de Benjamin.

Se ela tem a cor de um céu nublado, Benjamin veio ser o sol de Sophia. O gatinho iluminou os nossos dias e noites com seu tom amarelo quase vermelho. Pelos de uma miniatura do rei Leão. Filho da felicidade, bem nascido, Benjamin.

Para essa simpática dupla de felinos, minha biblioteca é savana; meu computador, a terra abençoada da selva africana; meus livros cavernas entre arbustos, refúgio seguro para a tradicional soneca da tarde. Olham fixos para o dono como que lançando um desafio: Quem é você? O que sabe de nós? Se quiser uma dica, faça de nossos olhos caminho para o mistério do mundo, do autoconhecimento. Mergulhe em nós!

Gatos são os companheiros mais adequados para um escritor. A história nos ensina isso. De Baudelaire a Julio Cortazar; Edgar Allan Poe e seu famoso gato preto; Michael Foucault, Elisabeth Bishop, Jack Kerouac, Hemingway, Truman Capote, Lygia Fagundes Telles, Jorge Luis Borges, T.S, Elliot... Marcel Proust e tantos outros ficcionistas consagrados buscaram inspiração na companhia blasé, discreta e inteligente dos gatos.

"Cães pensam que são homens, gatos pensam que são Deus", já dizia a polêmica escritora francesa Sidonie Gabrielle Colette. Pensamento que foi compartilhado por Pablo Neruda: "Só o gato aparece completo e orgulhoso".

Nossa Cecília Meirelles também demonstrou seu carinho pelos felinos: "Brota nos seus olhos erguidos o arco-íris, resumo do dia". Assim como o poeta Haroldo de Campos: "Os gatos tem ligação direta com Deus".

O poeta e artista plástico Ferreira Goulart também vive entre gatos. E até já compartilhou com um bichano a criação de um de seus quadros. Afirma que prefere os felinos porque "eles são mais sutis".

Já o nosso maior escritor Machado de Assis vai além: "O gato que nunca leu Kant é talvez um animal metafísico".

Portal para a ficção ou para a realidade? Chave para os mistérios da alma humana? Atalho para Deus? Mapa para o esplendor estético da Arte e da Literatura? Por que grande parte dos pensadores do mundo preferia e ainda prefere estar entre miados e ronrons? Bela profundeza felina... Infinito olhar de Sophia... Olhos de Benjamin. Janelas para o meu coração. Aprendi a morar neles.

Lucius de Mello é escritor, jornalista, colaborador de Ju Machado escritório de arte e pesquisador do LEER - Laboratório de Estudos sobre Etnicidade e Racismo da USP.

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