Conhecida por ser uma "terra de oportunidades", a Capital do Estado também é notável por sua baixa qualidade de ar. Mas, para surpresa e preocupação de quem escolheu o Interior para viver, o ar respirado em Bauru se manteve em níveis ainda mais prejudiciais à saúde durante todo o dia de ontem. Segundo dados da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), o mesmo ocorreu anteontem, quando o índice de partículas poluentes suspensas na atmosfera foi maior do que o de vários pontos de São Paulo.
No início da tarde de ontem, a estação instalada em Bauru apontava condição atmosférica considerada regular, com 88 microgramas de partículas inaláveis por metro cúbico de ar (ug/m³), índice bastante superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde, que é de 50 mg/m³. Em nenhuma das 12 estações de aferição de São Paulo os números foram tão ruins.
Em Parelheiros, por exemplo, foram detectadas 45 ug/m³, volume considerado bom, assim como na Moóca, onde o registro foi de 49 ug/m³. Já no bairro de Santana e no Parque do Ibirapuera, a qualidade do ar era classificada como regular, com 71 ug/m³ e 55 ug/m³, respectivamente. A Cetesb, entretanto, não afere em Bauru a quantidade de monóxido de carbono, um dos poluentes que mais afetam regiões metropolitanas com grande concentração de veículos e indústrias.
Os índices consideram apenas os chamados materiais particulados (MPs), que são grãos minúsculos de poeira e de outros poluentes que podem se alojar nas vias aéreas e pulmões, provocando danos à saúde. "Mas não dá para dizer que a situação é crítica em Bauru. Estamos num estágio considerado regular, que inspira alguns cuidados, mas não é tão preocupante", aponta o engenheiro químico Carlos Alberto Ferreira Rino, do Instituto Brasileiro de Estudos Ambientais e de Saneamento (Ibeas) de Bauru, lembrando que a escala de qualidade do ar conta ainda com os níveis inadequado, mau e péssimo.
A única cidade monitorada pela Cetesb com ar inadequado é Cubatão, que concentra um grande número de indústrias. Mas, com a mudança de parâmetros que deverá ser adotada pela Cetesb dentro dos próximos anos (leia mais ao lado), Bauru também passará a ser enquadrada como cidade com atmosfera inapropriada, caso não consiga reduzir a concentração de poluentes registrada atualmente.
Queimadas
Segundo especialistas, os principais responsáveis pela qualidade de ar inferior à de São Paulo são as queimadas frequentes na região e o fato de as frentes frias nem sempre alcançarem o Interior do estado. Com a chegada do inverno, as chuvas se tornam mais esparsas, o que agrava ainda mais o problema.
"No período de estiagem, aumentam as ocorrências de queimadas em terrenos baldios dentro da cidade. A queima de cana-de-açúcar em vários municípios da região, como Lençóis Paulista, Agudos e Jaú, também atinge Bauru nesse sentido", observa. Segundo ele, é improvável que a poluição produzida em São Paulo esteja sendo carregada por nuvens até o Interior. "A distância é muito grande, não acredito que isso seja possível", frisa.
De fato, o meteorologista do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), José Carlos Figueiredo, confirma que a baixa umidade relativa do ar contribui para o agravamento da poluição atmosférica, principalmente quando os ventos estão fracos. "Os ventos, a chuva e a umidade têm a função de ?lavar? o ar. E, nesta época do ano, são as frentes frias que tem este papel. O problema é que, na maioria das vezes, elas não têm força para chegar até a nossa região", esclarece ele, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet).
E foi justamente uma frente fria oriunda do Oceano Atlântico que, segundo Figueiredo, tornou a qualidade do ar em São Paulo melhor que a de costume. "Desde a manhã de hoje (ontem), os ventos e a umidade aumentaram em toda a região litorânea e Leste do estado, enquanto Bauru permanece sob influência da massa de ar seco. Ficamos de fora desta ?limpeza? providenciada pela natureza", comenta.
Ontem, a umidade relativa do ar em Bauru era de 52%, nível considerado satisfatório. Mas, no início do mês, a estação meteorológica do IPMet chegou a registrar índice de 27,6%, que representa estado de atenção
Padrões ultrapassados
Em maio deste ano, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) alterou seus parâmetros para medição da qualidade do ar por determinação do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema). Até então, a concentração aceitável de poeira para os paulistanos era de 150 microgramas de partículas inaláveis por metro cúbico de ar (ug/m³). Pela Organização Mundial de Saúde (OMS), este índice deveria ser de 50 ug/m³.
De acordo com o relatório aprovado pelo Consema, as mudanças serão progressivas e ocorrerão em três etapas. Inicialmente, foi implantada a meta 1, que é de um nível aceitável de até 120 ug/m³. Após 3 anos, entrará em vigor a meta 2, de 100 ug/m³, quando então será definido o prazo para o início da vigência da meta 3, a última delas, de 75 ug/m³. De acordo com a Cetesb, atualmente nenhuma cidade, estado ou país adota o padrão de referência da OMS, de 50 ug/m³.