Maceió - Quinze anos se passaram e a morte do ex-tesoureiro do ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello (PTB/AL), o empresário Paulo César Farias continua impune e cercada de mistérios. PC - como era conhecido o empresário alagoano - foi encontrado morto ao lado da namorada Suzana Marcolino, dia 23 de junho de 1996, véspera do São João.
Na época, PC estava em liberdade condicional e figurava com réu em inúmeros processos por crimes financeiros, sonegação de impostos, falsidade ideológica e enriquecimento ilícito. Tinha audiências marcadas e poderia fazer revelações comprometedoras sobre a participação de outras pessoas nas atividades ilícitas que comandava. Por isso, sua morte foi investigada também como queima de arquivo.
No entanto, a primeira versão para o caso - apresentada pelo delegado Cícero Torres e pelo legista Badan Palhares, com o aval de um grupo de legistas locais - foi de crime passional. Para os defensores dessa tese, Suzana teria matado PC e depois se suicidado. Essa versão foi contestada pelo médico George Sanguinetti e depois derrubada por uma equipe de peritos convocados para atuar no caso, fornecendo às autoridades policiais um contra laudo.
A investigação feita em 1998 pela equipe dos peritos Daniel Munhoz, da USP e Genival Veloso de França, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), derrubou a tese de crime passional e concluiu pela tese de duplo homicídio. Com isso, uma nova investigação teve início, tendo a frente os delegados Antônio Carlos Azevedo Lessa e Alcides Andrade, que contaram também com a colaboração do perito Ailton Vila Nova.
Foi com base na segunda perícia que os delegados Antônio Carlos Lessa e Alcides Andrade indiciaram os seguranças Reinaldo Correia de Lima Filho, Adeildo Costa dos Santos, José Geraldo da Silva e Josemar Faustino dos Santos como autores matérias e apontaram o então deputado federal Augusto Farias como o autor intelectual do duplo homicídio. O ex-deputado nega qualquer envolvimento na morte do irmão e continua dizendo que acredita na versão de crime passional.
Como Augusto Farias, à época, gozava do foro privilegiado, não pode ser pronunciado, pelo juiz que recebeu o inquérito policial. Por isso, apenas os seguranças foram pronunciados e serão levados a júri popular. O julgamento deles deve ocorrer ainda este ano, de acordo com informações prestadas à imprensa pelo juiz Alberto Jorge Correia de Lima, da 8ª Vara Criminal de Maceió. O magistrado aguarda apenas a chegada dos autos, que estavam em Brasília, tramitando no Supremo Tribunal Federal (STF), para marcar o julgamento.
Correia disse que com a decisão do ministro Joaquim Barbosa, de negar o último recurso possível para evitar que os quatro seguranças fossem a júri popular, o julgamento pode ser marcado a qualquer momento. Os seguranças continuam trabalhando como policiais militares e o advogado deles, José Fragoso Cavalcanti, diz que vai provar a inocência dos quatro.
Acusados de duplo assassinato, os quatro militares que trabalhavam para PC no dia do crime continuam calados. Eles evitam falar sobre o caso. Apenas o advogado do grupo fala por eles, mesmo assim não revela quem paga seus honorários. Fragoso diz que fez de tudo para evitar que os quatro seguranças fossem levados a júri popular, para "livrá-los desse constrangimento".
As tentativas da defesa em evitar o julgamento fizeram com que o caso tramitasse nas cortes superiores por mais de nove anos, em grau de recurso. Finalmente, no último dia 26 de abril, o ministro Joaquim Barbosa decidiu dar um basta na tramitação do caso e negou o último recurso possível.