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Finanças e produção

Antonio Delfim Netto
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Pela primeira vez, em muitos anos, as despesas de custeio do governo federal e transferências crescem a taxas menores do que a taxa de crescimento do PIB. Algumas pessoas gostariam que a presidente Dilma Rousseff impusesse um ritmo mais forte nos ajustes que está produzindo no gasto público, algo mais dramático, que até poderia obter algum resultado na queda da taxa de inflação, mas que causaria um desastre, com certeza, no ritmo do crescimento da economia.

Seu governo, corretamente, está conduzindo uma política econômica cuidadosa, que procura o equilíbrio entre os dois objetivos principais, que são sustentar o ritmo de crescimento, mas um crescimento com estabilidade, mantendo nos eixos o controle da inflação. É uma administração renovada, que investe na continuidade dos programas de inclusão social que ajudou a criar no período de governo anterior e os vem expandindo com o reforço do excelente "Luz para Todos" e da eliminação da pobreza, que são as meninas dos olhos da presidente.

Trata-se de dar corpo à ideia da ascenção das famílias mais pobres do extrato social, na realidade a criação de uma nova classe média, como vem acontecendo vigorosamente desde o começo deste novo século entre nós. São objetivos nobres que vão sendo atingidos na medida em que melhora visivelmente a distribuição da renda, refletindo uma importante inflexão na política brasileira.

A equipe econômica de Dilma tem mostrado uma visão bem realista das oportunidades que se apresentam ao Brasil, desde que conseguimos superar a fase mais aguda da crise financeira de 2008 e 2009, cujas criminosas consequências ainda abalam tradicionais nações da comunidade européia e retardam a recuperação da ainda poderosa economia americana.

Nós devemos continuar usando as possibilidades do nosso mercado interno, beneficiados pela extensão de nosso território que nos permite expandir ao mesmo tempo a produção mineral e a agropecuária com aumento da oferta garantido pelos extraordinários ganhos de produtividade. Nesses campos, os resultados econômicos são realmente bons, mas é preciso entender que o desenvolvimento não pode se prender  particularmente a um tipo de modelo agrominerador, extremamente eficiente, mas de demanda induzida e dependente do crescimento externo.

Por sua vez, apesar dos formidáveis avanços na produtividade do setor agropecuário, no sucesso das inovações tecnológicas e dos volumes produzidos, não devemos ter ilusões: no médio prazo, a oferta mundial de alimentos e minerais, criada pelos próprios países que hoje exercem a maior pressão de demanda, crescerá sob forte estímulo dos aumentos de preços.

O que nos cabe é cuidar das condições de nossa estrutura industrial e do setor dos serviços, preparando-as para enfrentar a competição cada vez mais acirrada dos parceiros mundiais no comércio exterior e em nosso próprio mercado interno. E prepará-las essencialmente para que elas estejam aptas a proporcionar empregos aos 145 milhões de brasileiros com idades entre 15 e 65 anos que estarão no mercado de trabalho em 2030.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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