A fatia de queijo derrete sobre a água quente. Ao pegá-la com a colher, a fatia estica ao mesmo tempo que afina. Esticada e fina, revela imperfeições e até perfurações. A parte mais grossa da fatia permanece contínua e resistente.
As placas da crosta terrestre se parecem com a casca rachada de um ovo cozido e são conhecidas como tectônicas. Quando os continentes se separaram pelo afastamento destas placas, como aconteceu com a América do Sul e África, em alguns lugares a crosta terrestre ficou esticada como a fatia de queijo ao ser tirada da água quente. No centro, a terra ferve a 5 mil graus em uma lama de ferro derretido. Neste puxa e estica, no nordeste a crosta terrestre ficou mais fina e irregular que em outras áreas do Brasil entre 136 a 65 milhões de anos atrás.
Os terremotos dificilmente acontecerão no Brasil; estamos no centro de uma grande placa tectônica sem vulcões, mas no nordeste são comuns os tremores de terra que raramente ultrapassam 4 pontos na escala Richter. O nordeste fica em cima de um bloco rochoso conhecido como província Borborema, cuja crosta é bem mais delgada do que a média global de 40 quilômetros. Enquanto no Himalaia a espessura chega a 70 quilômetros, no nordeste está entre 30 a 35 quilômetros, ou até menos em alguns pontos.
Para efeito comparativo, podemos dizer que a espessura da crosta terrestre em geral é inferior à distância entre São Paulo e Santos, um tanto quanto fina se considerarmos que estamos falando de um planeta. Ao cortar uma maçã pode se notar a fina espessura da casca; na terra temos a mesma proporção em volume. Sim, a crosta terrestre é muito fina e toda rachada, uma verdadeira película!
No Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos Tectônicos, os pesquisadores de várias instituições brasileiras, liderados por Reinhardt Fuck, cientista da Universidade de Brasília, promoveram pequenas explosões em perfurações artificialmente produzidas para através das ondas de propagação do choque calcularem a espessura da crosta terrestre no nordeste. Estas perfurações de 25 centímetros de diâmetro e 45 metros de profundidade, foram distribuídas pelo território nordestino distantes 50 quilômetros entre si, formando duas linhas.
A espessura mais fina da crosta terrestre no nordeste e a presença de várias falhas ou imperfeições geológicas detectadas pelos pesquisadores do INCT explicam porque os tremores são mais frequentes nesta região. O mapeamento destas falhas geológicas pode agora orientar a realização de grandes obras de engenharia como a construção de barragens, pontes e o povoamento de algumas áreas. Os estudos revelam que em alguns pontos a crosta está enfraquecida na província geológica Borborema.
Na região de Sobral, no Ceará, entre 2008-9, vários tremores foram registrados assustando a população que não dormiam mais no interior das suas casas. Os tremores de terra significam liberação de energia do centro da terra. Os tremores justificaram por que o mapeamento da espessura e falhas geológicas começaram pelo nordeste, mas segundo o INCT, toda a crosta brasileira será mapeada.
Na parte mais central da terra temos um componente sólido a 6.200 quilômetros envolvido em uma grande massa liquida e fervente a milhares de graus de calor tal qual na superfície do Sol. Em torno deste núcleo temos uma grossa camada conhecida como manto inferior à base de cristais de perovskitas revestido mais superficialmente pelo manto superior com cristais óxidos de olivina, piroxênio e granada. A parte mais externa e mais fina é a crosta terrestre, como a casca da maça ou do ovo cozinho rachado.
Quando a terra treme, temos medo, mas também dá para ter alegria, afinal significa que nosso planeta vive! Marte e a Lua são congelados e sem vida; nós temos este calor central, este pulsar que resulta em movimentos constantes. Graças às camadas centrais temos o escudo magnético que nos protege e dá equilíbrio aos oceanos. De vez em quando temos alguns contratempos, como terremotos, erupções e tsunamis, mas tudo tem um preço. Amores intensos são cheios de aventuras, curvas perigosas e decisões arriscadas: viva a terra!
A crosta mais fina no nordeste e o interior ardente da terra a 5 mil graus bem que poderia explicar também por que é tão agitado o São João nordestino, mas na verdade é quente assim pela alegria, vontade e persistência deste povo sofrido em ser feliz!
Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC