Tribuna do Leitor

O TAL PRECONCEITO


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Tornou-se comum ver na mídia inserções e debates em que a palavra preconceito se mostra de uso freqüente. Ser preconceituoso no Brasil hoje em dia, conforme o caso, é sinônimo de ser autêntico, de ter coragem de dizer a verdade, de sair da fila da mediocridade que tenta nos enfiar goela adentro a ideia de que comportamentos reprováveis são normais. Aliás, uma expressão recorrente nas conversas é aquela em que alguém pede desculpas por ser sincero. Quer dizer, sinceridade, mesmo a que não ofende, passou a ser algo de que se deva desculpar. Tornou-se co-mum também confundir a freqüência com que algo acontece com normalidade. As expressões "você é preconceituoso " e "isso é preconceito" se tornaram um escudo invisível usado pelos, digamos, diferentes, que têm direito à liberdade de expressão, contra aqueles que não concordam com o que eles fazem.

Você não gosta de jovens com a cara cheia de piercings e o corpo repleto de gravuras ? é melhor ficar quieto, ou será tachado de preconceituoso. Ou seja, a liberdade de expressão só vale para o não usual. Você acha pouco adequado que uma moça durma na casa do namorado que conhece há seis semanas? Você é preconceituoso.

Você se sente em perigo quando seu vizinho recebe um egresso da prisão numa das suas famosas saidinhas? Isso é preconceito contra os reeducandos. Afinal, eles nunca cometem crime nessas ocasiões, não é mesmo? Você acha que quem lhe deu calote dez vezes vai ficar inadimplente na próxima compra? Rapaz, como você é preconceituoso! Você, empresário, que reluta em dar uma oportunidade de primeiro emprego a um rapaz de apenas trinta anos, só porque ele aparece na entrevista cheio de tatuagens, com a cueca aparecendo fora da calça, fumando bem embaixo do pedido "favor não fumar" e falando um montão de gírias sem nexo com os assuntos na pauta da entrevista? Cara, você é preconceituoso e precisa se plugar na modernidade.

Agora vem à tona o supra-sumo do preconceito: o preconceito lingüístico com a criança que fala e escreve errado, quando na verdade o preconceito é do educador em achar que a criança, por ser pobre, é incapaz de aprender o certo. Então, para que ela não se sinta humilhada, vamos tornar o errado certo. Daqui a pouco também deixaremos de ser preconceituosos com o usuário de drogas e defenderemos a le-galização de todos os tipos de entorpecentes. Deixaremos também de lado o preconceito contra os pedófilos e defenderemos o livre arbítrio para o sexo a crianças com doze anos ou menos.

Sidnei Rodrigues

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