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Autor de assassinatos do Japa Lalá comete suicídio em presídio

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 9 min

Responsável por um dos casos de violência que mais chocaram Bauru nos últimos anos, o agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves, 37 anos, morreu no início da tarde de ontem no município de Tatuapé (SP). A principal hipótese é a de que ele tenha cometido suicídio exatamente um ano e 11 dias depois de assassinar os comerciantes Maurício Yamanoi, 41 anos, dono do bar Japa Lalá, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, pai do proprietário do bar do Português.

Segundo informações de parentes e do advogado da família, Luiz Celso de Barros, Zambonaro foi encontrado inconsciente, mas ainda vivo, dentro da cela onde permanecia preso desde junho do ano passado, na Penitenciária 2 de Tremembé. Ele chegou a ser levado ao Pronto-Socorro da cidade vizinha Tatuapé, mas sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.

A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) não confirmou à reportagem ou mesmo aos parentes as circunstâncias de sua morte. As hipóteses são a de que possa ter morrido por enforcamento ou overdose de medicamentos. Por ser agente penitenciário, Zambonaro aguardava julgamento em uma prisão especial. Por motivo de segurança, ele não dividia cela com nenhum outro detento e deveria contar, em tese, com um esquema de monitoramento bastante rigoroso. Não se sabe se havia esse acompanhamento.

Mesmo assim, Zambonaro já teria tentado se matar outras vezes no presídio. Há um ano, no dia em que cometeu o duplo homicídio, no bairro Higienópolis, ele também chegou a disparar o gatilho do revólver usado no crime contra a própria cabeça, mas a arma não funcionou. Momentos depois da tragédia, ainda tentou se enforcar na garagem de sua casa, no Parque União, também sem sucesso.

Acometido por transtornos psiquiátricos durante toda a adolescência e vida adulta, o agente teria apresentado comportamento alterado nas últimas semanas, conforme relataram familiares que o visitaram recentemente em Tremembé. "A namorada dele esteve lá no último fim de semana e ele estava bem arredio, lento no raciocínio e falando muito pouco. A mãe o visitou no último Dia das Mães (8 de maio) e percebeu a mesma coisa", comenta o primo Flávio Zambonato.

De acordo com informações que o parente recebeu da diretoria da penitenciária, na manhã de ontem Zambonaro teria sofrido uma crise e, bastante agitado, sendo atendido por um psicólogo. No período da tarde, ele receberia a visita de um médico para que fosse devidamente medicado, mas o suicídio foi confirmado por volta das 14h30, antes da chegada do profissional.


Um ano


Conforme Barros, advogado da família, é possível que Zambonaro não estivesse ingerindo todos os medicamentos que deveria tomar para se manter estável, o que poderia ter levado à crise que culminou em sua morte. "O presídio não é uma instituição psiquiátrica. Eles dão o remédio na mão do preso e ele toma se quiser. Pode ser que ele tenha deixado de tomar a medicação e se enforcado durante a crise ou mesmo guardado vários comprimidos para tomar todos de uma só vez", observa.

O fato de o suicídio ter ocorrido poucos dias após os assassinatos completarem um ano, segundo o advogado, também pode ter pesado para a decisão de Zambonaro. "Após este período, ele pode ter retomado toda a situação que viveu naquele dia. E esse retrospecto pode ter mexido com o psicológico dele", pontua Barros, que visitou o cliente pela última vez há cerca de 20 dias.

O primo Flávio lembra que o parente conhecia a família de José Mendes e era frequentador assíduo do bar do Português. Associada ao isolamento do mundo externo, a culpa que o agente carregava pelos homicídios pode ter provocado um sofrimento que ele não pôde suportar.

"Ele era depressivo e bipolar. A gente não sabe o que pode ter acontecido com ele nas últimas semanas, se tomou menos ou mais medicamento do que deveria e que reação psicológica todo esse peso pode ter provocado", analisa.

Segundo Flávio, a mãe do agente, Dalva Zambonaro, recebeu a notícia da morte do filho por volta das 17h de ontem. Como era de se esperar, a informação a deixou bastante abalada. Até o início da noite, conforme constatou a reportagem, ela recebia a visita de vizinhos, parentes e amigos que se revezavam na tentativa de consolá-la.

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Sepultamento


O corpo de Alexandre Zambonaro Gonçalves, que permanecia no Instituto Médico Legal (IML) de Tatuapé até a manhã de hoje, deve chegar a Bauru ainda no final desta tarde. Como os familiares aguardam a chegada do irmão caçula do agente penitenciário, Renato Zambonaro, que mora nos Estados Unidos, a previsão é de o sepultamento ocorra somente amanhã de manhã.

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?Sinto pena e alívio?, diz filha de José Mendes que foi assassinado


Ao receber a notícia de que Alexandre Zambonaro Gonçalves havia cometido suicídio na prisão, Ana Mara Mendes, filha do comerciante José Mendes, morto pelo agente penitenciário, revelou sentir um misto de alívio por sua família e pena pela tristeza vivida pela mãe do assassino. "Eu também sou mãe e imagino que deva ser muito dolorido saber que seu filho causou mal a tanta gente. Mas, ao mesmo tempo, me sinto aliviada, porque sinceramente não saberia dizer o que um de nós (parentes de José Mendes) seria capaz de fazer se um dia encontrasse esse rapaz solto na rua. A revolta ainda é muito grande porque o vazio deixado pela ausência do meu pai jamais vai ser preenchido", descreve Ana Mara, que trabalha com o irmão Fernando no bar do Português. Os outros dois filhos de Mendes, Vânia e Gisele, até hoje tomam conta do açougue instalado na rua Luiz Aleixo, que foi deixado pelo pai.

Segundo Ana, a família não tinha plena confiança em uma condenação severa para Zambonaro e acreditava que, por ele ser réu primário e agente penitenciário, em poucos anos poderia receber o benefício do regime semiaberto. "Mesmo se ele fosse condenado a 30 anos, em 10 anos ele poderia voltar para a rua. Sei que a família dele também é vítima, mas não posso negar que sinto paz por saber que nunca meu caminho cruzará com o dele aqui na Terra", comenta.

Para ela, entretanto, este será a única mudança para a rotina da família, ainda abalada com a perda do parente. "A dor não diminui. Neste um ano, a gente já viveu muita coisa, mas o sentimento é tão triste quanto o que tivemos no dia da morte do meu pai. Penso nele todos os dias, as lembranças da alegria e do entusiasmo que ele tinha são muitas. A saudade é enorme", lamenta.

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O caso


No dia 18 de junho de 2010, o agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves assassinou a tiros os comerciantes Maurício Yamanoi, 41 anos, dono do bar Japa Lalá, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, pai do proprietário do bar do Português. A cena do crime foi a quadra 7 da rua Constituição, no bairro Higienópolis, dentro do estabelecimento de Yamanoi, com quem o assassino supostamente havia se desentendido dias antes. Esta hipótese, entretanto, até hoje não foi confirmada.

Depois de atirar duas vezes contra Mendes e três contra Yamanoi, ainda em frente ao bar Zambonaro teria tentado disparar a arma, um revólver calibre 38, contra a própria cabeça. Mas, como a arma não funcionou, ele seguiu com sua moto para casa, no Parque União, onde teria ingerido grande quantidade de medicamentos e tentado se enforcar com uma corda atada à estrutura de madeira do telhado da garagem.

Socorrido pelo Corpo de Bombeiros, Zambonaro conseguiu se recuperar e recebeu alta dois dias depois, quando foi preso e transferido para a Penitenciária 2 do município de Tremembé, no Vale do Paraíba, onde permaneceu até sua morte. No mesmo presídio, considerado especial e onde agentes penitenciários do Estado costumam cumprir pena ou aguardar julgamento, já estiveram presos autores de crimes que ganharam repercussão nacional, como o casal Nardoni (condenados por matar Isabella Nardoni), os irmãos Cravinhos (que assassinaram os pais de Suzane von Richtofen), Lindemberg Alves (acusado de matar a ex-namorada Eloá Cristina Pimentel) e o médico Roger Abdelmassih (médico acusado de estuprar pacientes de sua clínica de reprodução humana).

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Fim do processo


Com a morte de Alexandre Zambonaro Gonçalves, o processo que corria contra ele na Justiça se torna automaticamente extinto. Da mesma forma, as respostas que poderiam explicar os motivos que o levaram a cometer o duplo homicídio também não poderão ser mais dadas, já que vítimas e autor da cena trágica registrada no dia 18 de junho de 2010 não estão mais vivos.

"Pelo que sabemos, nem o advogado dele sabe o que realmente o levou a cometer os crimes. Além do Alexandre, os únicos que poderiam dizer o que aconteceu são os dois comerciantes, que também estão mortos. Acredito que jamais saberemos o que houve ao certo", observa o primo do agente penitenciário, Flávio Zambonato.

Com a extinção do processo judicial, a testemunha de acusação e outra de defesa que ainda precisavam ser ouvidas não serão mais chamadas. O próprio réu também já deveria ter sido ouvido mas jamais retornou a Bauru. Nas duas ocasiões em que foi intimado a prestar depoimento no Fórum da cidade, não compareceu às audiências.

Se Zambonaro estivesse vivo, ele ainda teria de ser ouvido, assim como as duas testemunhas, para então o juiz aceitar ou recusar a acusação de duplo homicídio duplamente qualificado pela qual o réu respondia inquérito. Depois de esgotadas todas as possibilidades de eventuais recursos, o caso seria levado a júri popular.

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Sogro de Yamanoi lamenta morte
do agente acusado de assassinato


Sogro do comerciante Maurício Yamanoi, dono do bar Japa Lalá morto por Alexandre Zambonaro Gonçalves há um ano, Antônio Roberto Dimâmpera lamentou a morte do assassino. Para ele, após ter cometido o crime e ser preso, Zambonaro recebeu a oportunidade de se arrepender, cumprir sua dívida com a Justiça e retornar ao convívio social.

"É uma notícia triste. Acredito que (o duplo homicídio) tenha sido um ato impensado, tomado por impulso. Por isso, eu até perdoo o que ele fez", pondera Dimâmpera, mesmo avaliando que o assassinato de Yamanoi tenha colaborado para a morte de sua filha e ex-esposa da vítima, Érika Dourado Dimampera, acometida por um repentino acidente vascular cerebral (AVC) no final de março deste ano.

"Eu não sou psicólogo, mas sei o que minha filha passou. Ela estava sobrecarregada. Desde que aconteceu aquela tragédia, ela passou a acumular vários problemas e responsabilidades, além de ter de cuidar dos quatro filhos sozinha. E ela nunca teve problemas de saúde. Era uma mulher forte", pontua ele, que hoje diz ser "um homem pela metade".

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