Turismo

CHAPADA DIAMANTINA

Renata Reps
| Tempo de leitura: 6 min

Nos 152 mil hectares do Parque Nacional da Chapada e em seus arredores, delimitados pelas cidades de Lençóis - principal ponto de partida para as atrações -, Andaraí, Palmeiras, Mucugê e Itaeté, não faltam boas surpresas. Caso do Poço Encantado, que ficou 40 meses fechado pelo Ibama para adaptações ambientais. Reaberto em março, faz o visitante gastar um bom tempo parado e em silêncio antes de entender onde terminam as rochas e começa a água, de um azul de doer os olhos. Para ver o fenômeno, a melhor época é de abril a setembro, quando a gruta recebe mais raios de sol.

Ter preparo físico ajuda - mas não é preciso ser um atleta. Que o diga a servidora social Marta Balotin, de 58 anos. Apaixonada por ecoturismo, ela conheceu os montes, cachoeiras e grutas da chapada baiana em maio, e ainda pretende visitar o Jalapão (TO) e a Chapada dos Veadeiros (GO) este ano. "Viajo sozinha ou com alguma amiga, compro todos os passeios com antecedência e, quando chego, só preciso preparar a mochila e dormir cedo para manter o pique", diz.

A motivação para vencer a preguiça vem do meio do mato, mais precisamente, do coração da Bahia. Plantas raras, quedas d?água cinematográficas e espeleotemas milenares. Tudo o que você precisa para chegar até eles é um tênis impermeável. E, claro, muita disposição.

Antídoto contra estresse


A impressionante beleza faz do Poço Encantado uma visita obrigatória para quem vai à Chapada. Desfrutar do silêncio dentro de um ambiente onde parece que o tempo parou é um antídoto contra o estresse. Descoberto em 1940 por um garimpeiro, o local ficou anos abandonado e foi reencontrado por Miguel Jesus de Mota em 1975. Interditado em 2007, acaba de reabrir as portas após 40 meses - o Ibama fechou a área até que um plano de manejo regulamentasse a visitação. "Eu queria facilitar o acesso (a descida da entrada da caverna até o poço é bem íngreme) e fui ingênuo de achar que não seria problema construir uma escada de paralelepípedo lá dentro", explica Miguel. A escada ficou - retirá-la causaria um impacto ainda maior.

Até a década de 90, o poço serviu como uma piscina de banho. Hoje, é proibida a entrada na água cristalina, cuja aparência azul é causada pelo efeito de magnésio, calcário e carbonato de cálcio combinados à luz do dia. Os resquícios de cremes e bronzeadores estavam afetando a composição da água, que não se renova. Para fazer o passeio - com gorro para evitar queda de cabelo na água e capacete de proteção - o visitante desembolsa R$ 20.

Esculturas milenares


Há 206 cavernas e grutas catalogadas na região da Chapada Diamantina, mas apenas cinco estão abertas a visitação. Uma delas é a Gruta Lapa Doce, no município de Iraquara. A formação geológica tem mais de 21 quilômetros de extensão catalogados, mas apenas 900 metros podem ser percorridos. Na entrada, grandes gameleiras verde-água recebem os visitantes, que precisam ser liderados por guias (R$ 10 por pessoa se o grupo tiver pelo menos três integrantes) devidamente equipados com lanternas. Os espeleotemas por vezes imitam formas vivas, como o seio de uma mulher ou o corpo de um leão. Esculturas construídas pela natureza durante milhares de anos: um centímetro das estalactites (que surgem do teto) e estalagmites (que começam no chão) leva até 40 anos para se formar. Por isso, a movimentação dentro da gruta deve ser feita com cuidado. Além das pedras, observe os cristais de calcita, que brilham forte quando encontram o feixe de luz artificial.

Pouso seguro


Diz a lenda que um velho escravo namorava escondido a filha de um grande garimpeiro na região da Serra do Sincorá, a principal da Chapada Diamantina. Quando o senhor descobriu, foi à caça do servo, que, em fuga, escalou um grande morro e pulou de lá de guarda-chuva, o que lhe garantiu um pouso seguro. O nome do escravo seria Pai Inácio - e o monte homônimo é o principal símbolo da Chapada. Todo turista precisa conhecer o topo, alcançado após uma subida moderada. A vegetação de campo rupestre, com grandes buracos nas rochas em zigue-zague, parece o chão de outro planeta. Por lá, plantas como bromélias, orquídeas e xique-xiques enfeitam a paisagem. E a vista é de tirar o fôlego - ou o que resta dele. Aberto das 9 às 17 horas, cada condutor leva um grupo de no máximo dez pessoas.

Persistência premiada


Para chegar até a Cachoeira da Fumaça é preciso persistência. São 400 metros de subida dura e, depois, seis quilômetros no meio da mata antes de atingir o mirante. Neste passeio, não há banho de cachoeira ou rio. Pelo contrário: a temperatura em cima do morro, na encosta da Serra Larga, exige um casaco. O percurso na trilha que, até 2002 servia para a passagem de gado, é acompanhado de neblina, leve garoa e muitas poças de lama. As adversidades dão um certo desânimo, mas é inacreditável como tudo desaparece ao avistar a Cachoeira da Fumaça, com 380 metros de altura. Para enxergá-la é preciso deitar de bruços na pedra. E, assim, você entende a razão do nome da famosa cascata: a água evapora antes de chegar ao chão.

Comece a aventura pelo Ribeirão do Meio

Caverna e água azulada


A partir do Poço Encantado, siga por 20 quilômetros até a estrada para Itaeté. São mais 17 quilômetros até o Rio Paraguaçu, onde uma canoa leva os turistas de uma margem à outra (R$ 2). Após atravessar as plantações de mamona, você encontra a entrada para o Poço Azul - descer, só depois de tomar uma ducha e pagar R$ 10. Doze pessoas por vez entram na caverna, guiadas por um salva-vidas. Além de apreciar a água azulada, dá para nadar no riacho, que chega a 20 metros de profundidade. "A cada dia existem mais limitações, tanto para reduzir o impacto ambiental quanto por questões de segurança", diz Ismael Braga Junior, salva-vidas e filho do dono do Poço Azul. Assim como o Poço Encantado, trata-se de uma fazenda particular com permissão para explorar o turismo.

Site: www.poçoazul.com.br.

Saiba mais


Como chegar:

SP- Salvador-SP: desde R$ 333 na TAM (tam.com.br); (voetrip.com.br) ou R$ 108 de ônibus na Real Expresso (www.realexpresso.com.br).

O que levar

Roupa de trilha

Calça de moletom, casaco e tênis impermeáveis para o frio, shorts e bonés para o sol. Prefira as meias de acrílico, que molham menos, às de algodão. As mulheres podem dar folga aos saltos e à maquiagem.

Máquina fotográfica

Para fazer registros incríveis sem tirar nada da natureza.

O que trazer

Cachaças

Há duas típicas da região, a Abaíra e a Serra das Almas.

Ambas custam em torno de R$ 15 e são bem saborosas.

Acessórios de pedras

Como a área foi reduto de exploração de diamante, não há muita riqueza em artesanato.

Os colares e bugigangas feitos de pedras semipreciosas, entretanto, são uma boa recordação.

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