O Brasil acaba de reconhecer legalmente o casamento homossexual e ainda possui tantas marcas de desigualdade de gêneros. Deparei-me com uma delas ao comparecer ao Poupatempo com a simples finalidade de atualizar meu RG, que ainda era o de adolescente. Entreguei toda a documentação e, para minha surpresa, o atendente rasurou o meu RG antigo (antes mesmo que eu tivesse o novo em mãos). Perguntei o porquê: "é um procedimento padrão", ouvi. Com espanto, argumentei: "mas meu marido renovou o dele há uma semana e não houve rasura. Qual a explicação?" O atendente chamou a supervisora que, meio constrangida, deu a explicação: "Porque você é mulher. Nosso Código Civil mudou - atualmente, tanto o homem quanto a mulher podem ou não alterar o sobrenome ao casar. Mas nossas regras ainda são antigas".
Não importa o fato de querer ou não preservar um RG de adolescência (irrisório, diante de problemas da vida), mas fiquei chocada com o simbolismo em questão. Não alterei meu sobrenome. Respeito a escolha de cada um(a), mas não compreendo gestos de mão única se os sentimentos se vivem a dois. Amar não é mudar de identidade. Acho lindo o sobrenome de meu marido, Schiavone, mas sou simplesmente Érika de Moraes, aquela que ele escolheu amar e vice-versa. Somos casados no civil e religioso, sob o testemunho das sábias palavras de Padre Beto: "O amor não é a fusão de duas metades, mas é a aproximação de dois inteiros." (Relato do casamento em meu blog: http://liquimix.blogspot.com/2011/02/e-nos-casamos.html).
Relevo muitas coisas: pessoas duvidarem de que sou casada devido ao sobrenome pequeno (e daí?), outras me julgarem por eu ser casada e não ter batedeira em casa. Podem rir, é cômico mesmo: qual a relação entre amor e batedeira? Mas não vou deixar de relatar, no intuito de despertar a atenção da sociedade, o que ouvi: "Porque você é mulher". E ouvi mais: "Se seu marido comparecesse aqui com a certidão de nascimento, esta seria aceita. No seu caso, apenas a de casamento." Ora, como isso seria possível, se o cartório reteve a certidão de nascimento de ambos ao substituí-la pela de casamento? Qual a lógica da diferença no aceite da documentação, se, hoje, meu marido e eu carregamos o mesmo número de registro civil?
Meu tema efetivo não é papel, mas a dignidade dos gêneros. Minha tese de doutorado abordou os discursos sobre a mulher. Em vários congressos nos quais apresentei trabalhos, ouvi: "Mas a sociedade mudou". Mudou mesmo. A mulher conquistou o direito de votar (o que é historicamente muito recente) e temos uma Presidente eleita. Mas os ranços se revelam nos pequenos gestos simbólicos e esses ainda têm muito a evoluir.
No meio profissional, sou cercada por mulheres fortes e líderes. E ainda mães. E ainda belas. Mesmo assim, na sociedade, percebo o quanto uma atitude sensível é desprestigiada diante de uma racional, como se o modelo de perfeição devesse ser relacionado ao padrão supostamente masculino. Por muitos momentos, tive o ímpeto de defender a licença-paternidade de pelo menos um mês, para que o homem também pudesse usufruir desse momento em família, como ocorre em alguns países. Mas encontrei um contra-argumento prudente em Susan Pinker (O Paradoxo Sexual, Editora Best Seller): no exemplo acadêmico, mulheres em licença amamentam e cuidam dos filhos, enquanto homens aproveitam esse tempo para publicar artigos e livros, o que só aumenta a desigualdade.
Nossa sociedade não está preparada para a igualdade. Sugiro atenção às regras sociais arbitrariamente constituídas. Se você, mulher, é aprovada em concurso público, pode lhe ser solicitado um exame de papanicolau para admissão; pergunte se ao homem será exigido o exame de próstata. Quantas rasuras ainda serão necessárias para que as identidades de homens e mulheres sejam reconhecidas em suas especificidades, mas equivalentes em termos de direitos e deveres?
A autora, Érika de Moraes, é jornalista e doutora em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/Unicamp), tendo defendido a tese "A representação discursiva da identidade feminina em quadros humorísticos". Tese disponível para download: http://migreme.net/1c1v