A depressão, conhecida também como o "mal do século", vem fazendo cada vez mais vítimas em idades e situações diversas. Essa patologia psicológica pode ser considerada, em muitos casos, a mola propulsora para o aumento do número de suicídios nos últimos anos. Em Bauru, os óbitos ocorridos desta forma cresceram 72% nos últimos dois anos, de acordo com informações do Ministério da Saúde. Em 2008 foram 18 casos, passando para 19 no ano seguinte e, em 2010, saltou para 31 suicídios.
Nos dois últimos dias, duas famílias bauruenses tiveram casos de suicídio: do ex-agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves, 37 anos - responsável pelas mortes de Maurício Yamanoi, 41 anos, conhecido como Japa Lalá, e de José de Nazaré Mendes, 72 anos, pai do proprietário do bar do Português -, e de sua namorada, Wanessa Camargo Stetic, de 34 anos. Ambos sofriam transtornos psicológicos.
Mas afinal, por que tantas pessoas sofrem de depressão? O que ela causa? Qual é o tratamento correto? Existe cura? Essas perguntas foram feitas pela equipe de reportagem do Jornal da Cidade à psicóloga Jaqueline Facchim, 29 anos, especialista em psicologia cognitivo comportamental.
A verdade é que a depressão, uma patologia psicológica como o transtorno bipolar e a esquizofrenia, não escolhe sexo, nem idade, e pode ser transmitida geneticamente entre familiares. As pessoas ainda têm receio de tratar a patologia com terapia aliada, em alguns casos específicos, a remédios receitados por um psiquiatra.
"Os remédios atuam na química cerebral, entre os neurotransmissores e os neuroreceptores. Ou seja, eles vão equilibrar essa química, que vai dar uma moderada nos sintomas. Mas ele não vai tratar a real causa da doença. Porque a depressão existe e porque ela sente tudo isso. Então as pessoas vão mascarando a doença".
"Despencar"
Se o tratamento, nestes casos mais graves, não for equilibrado e o paciente somente ingerir medicamentos, uma hora o sonho acaba. De repente, ao parar essa ingestão constante do remédio, o paciente "despenca" no mundo real. Com ele despenca também a depressão, desta vez mais profunda e avassaladora, com a falta do medicamento.
A maioria dos casos de suicídio é provocada por uma depressão maior, quando o paciente está em um estágio mais avançado da doença. "Outras patologias também podem influenciar, como um transtorno bipolar, de personalidade, mas esses são mais brandos. O paciente apenas tem alternações de humor e personalidade. O depressivo tem aquela sensação de abandono, de que a vida não vale mais a pena", diz a psicóloga.
Carga genética
Além de questões multifatoriais a depressão também sofre influência de uma carga genética. A pessoa que tem um familiar, seja pai, mãe, irmãos, com depressão, tem mais chances de desenvolver a doença do que uma outra sem históricos da patologia na família. "Essas dependerão de outros fatores para desenvolver a doença ou não como, por exemplo, qualidade de vida. O ambiente onde ela vive, as relações interpessoais que ela possui."
Perfil
Segundo especialistas, não existe um perfil que se pode definir como uma pessoa depressiva. Uma pessoa alegre também pode ter uma vida normal e de repente começa a se isolar. Esse isolamento repentino pode ser sinal de depressão. "Quando a pessoa já tem uma personalidade introvertida, sempre foi fechada, é mais difícil notar. Mas o suicídio ainda acontece em casos de depressão maior, quando a vida, para essa pessoa, não está mais valendo a pena. É uma forma de alívio. Nenhuma das dores que ela possa imaginar que venha a ter no momento da morte é mais dolorida do que a que está sentindo no momento", observa a psicóloga Jaqueline Facchim.
Atendimento gratuito
Ainda não há tratamento psicológico gratuito em hospitais em Bauru. A população de baixa renda, que muitas vezes precisa do tratamento e não tem condições de pagar por ele pode procurar os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) através da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) de Bauru.
Ainda existe outro serviço que o interessado em receber ajuda pode utilizar gastando somente o pulso telefônico. O Centro de Valorização à Vida (CVV) de Bauru fornece auxílio e orientação através do telefone (14) 3222-4111, sem que o interessado precise identificar-se.
Cura
A depressão não escolhe idade, credo ou raça. Ela pode ser causada até por uma diminuição de neurotransmissores, não só por problemas psicológicos, mas tem cura. A terapia de um psicólogo, aliada, se necessário, ao uso de medicamentos, pode trazer o paciente novamente à vida normal com o passar do tempo.
Dicotomia ?ter? e ?ser? também pesa
É fácil notar que o mundo mudou e hoje ter algo, muitas vezes vale mais do que você ser alguém. Essa dicotomia "ter" e "ser", que acaba por entrar em choque no psicológico de muitas pessoas. As vítimas desse dilema podem se tornar pacientes suscetíveis a desenvolver a depressão.
"Isso influencia bastante. Não só as pessoas que pensam assim: eu tenho, então, é assim que as pessoas vão se aproximar. Isso causa uma ilusão na própria pessoa que quando se depara com a realidade e pensa: por que tenho tantas pessoas ao meu redor? Será que é pelo o que eu sou ou pelo que possuo? A autoestima dessa pessoa diminui e ela mesma acaba por questionar-se: quem sou eu?", diz a psicóloga Jaqueline Facchim.