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Previsões e realidade

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Tivemos a oportunidade, aqui mesmo, de comentar a precariedade das projeções no longo prazo da evolução do PIB dos BRICs, medidos em dólar de valor constante. Relembramos o fracasso de todas as "previsões" de longo prazo feitas nos anos sessenta do século passado e enfatizamos a precariedade das "previsões" sobre o comportamento nos próximos 20 anos das economias abrigadas no acrônimo BRICs (Brasil-Rússia-India-China, para quem não lembra). Com as "previsões" correntes, os BRICs não caberão no Mundo projetado para 2020.

Se o "Resto do Mundo" crescer 3% ao ano, para que os BRICs possam crescer na média 7,5% seria preciso que ele crescesse a apenas 0,4% ao ano. De fato, como a população do Resto do Mundo cresce 1% ao ano, o seu PIB per-capita deveria reduzir-se de 0,6% ao ano!

O entusiasmo com os BRICs já foi maior, mas com frequência ainda vemos afirmações que mostram a esperança de que eles poderão bastar-se a si mesmos, independentemente do que ocorre com a economia mundial. Os BRICs são uma ideia interessante, mas é claro que eles não constituem um grupo com interesses homogêneos.

De fato, suspeitamos que a Rússia é um elemento estranho ao ninho. A China, com seus 5.000 anos de civilização e o pragmatismo filosófico que "não importa a cor do gato desde que ele pegue os ratos", agarrou-se com coragem e inteligência às possibilidades abertas para a importação pelos EUA de produtos fabricados na China com capital de empresas americanas. Não deixou de aproveitar nenhuma oportunidade: foi integrada "estrategicamente" como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Construiu sua bomba atômica sem olhar seu custo humano. Só entrou para a OMC em 2002 (prestando-lhe um favor) depois de ter feito tudo o que era possível em matéria de "artes" exportadoras. Em 30 anos, para inveja de todos nós, transformou-se na segunda economia mundial e no seu maior exportador.

Para a China, os BRICs são apenas convenientes supridores de suas crescentes necessidades de matérias-primas e alimentos, que ela pretende pagar com a exportação de manufaturas. Sua política externa esconde mal o "moderno imperialismo" na busca de suprimento seguro de matérias primas, como vemos na África e agora no Brasil. O Brasil precisa pensar em si e não pendurar-se em ilusões.  De todos os BRICs, somos o país que tem maior probabilidade de ver realizadas as "projeções". Tem: 1) um estoque genético riquíssimo que estimula a adaptação e a tolerância; 2) um importante mercado interno; 3) matriz energética adequada; 4) uma promissora disponibilidade futura de petróleo; 5) terra, água e tecnologia para expandir sua agricultura; 6) uma única língua e, não tem: 7) problemas de fronteira e 8) problemas étnicos e religiosos sensíveis. Mais do que tudo isso, somos uma democracia constitucional consolidada com um supremo Tribunal Federal independente que "garante" nossas liberdades individuais. Nossa ambição de crescimento é modesta (4.5% ao ano), o que nos acomodará bem na economia mundial.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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