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Entrevista da Semana: Simone Bighetti

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Uma vida pela família e o basquete


Mesmo quem não a conhece percebe facilmente que Simone Bighetti é apaixonada por basquete. Amor evidenciado pelo pingente em formato de bola e cesta de basquete pendurado no pescoço.

Tudo começou nas quadras do Instituto de Educação Ernesto Monte. Pouco tempo depois, o então técnico Antonio Carlos Barbosa descobriu o talento da armadora que, do Luso, foi para a Seleção Brasileira de Basquetebol Feminino, em 1970, aos 15 anos, pela primeira vez.

"Fui de uma geração de renovação. Joguei com a Simone cantora, com a Cleonice e com feras, como Marlene, Norminha, Jacy, Maria Helena. O último campeonato que eu disputei foi um mundial na Coreia, onde joguei com a Paula, Hortência... Joguei com as duas gerações", recorda-se.

Aos 25 anos de idade e já com a 10 da Seleção, Simone optou por deixar o time para se dedicar à vida acadêmica com o objetivo de custear os estudos dos filhos nos Estados Unidos. De volta a Bauru, ela fez faculdade de serviço social, educação física, pós-graduação em educação física, mestrado na área da pedagogia e psicologia do esporte, além de estar na reta final de uma pós-graduação em administração e marketing esportivo. "Consegui manter meus dois filhos estudando nos Estados Unidos".

Fora das quadras, ela trabalhou como assistente social, secretária de esportes, treinadora de baquete masculino na categoria menores no Luso e coordenou um projeto social na Federação da Unimed. "Agora quero seguir carreira acadêmica", diz.

Filhos e amigos também fazem parte da entrevista que a ex-jogadora Simone Bighetti concedeu ao Jornal da Cidade. Leia os principais trechos.

Jornal da Cidade ? Como teve início a sua carreira no basquete?

Simone Bighetti ? O primeiro esporte que pratiquei foi o vôlei, no Instituto de Educação Ernesto Monte, com a dona Norma, uma professora de educação física que teve uma visão muito objetiva quando percebeu que eu tinha vocação para os esportes. Depois, ela me encaminhou para a natação e, em seguida, para o basquete. Do Ernesto Monte, fui chamada pelo técnico Barbosa para jogar no Luso e permaneci no basquete por 26 anos, 10 deles na Seleção Brasileira.


JC ? Grandes momentos com a Seleção?

Simone ? Eu tive uma participação discreta na Seleção, mas disputei dois campeonatos sul-americanos, alguns torneios internacionais e fui para um mundial na Coreia, em 1979. Em minha primeira passagem pela Seleção eu tinha apenas 15 anos de idade, em 1970. O treinador era o Renato Brito Cunha e o time era composto por feras como Marlene, Norminha, Jacy, Maria Helena... Fui de uma geração de renovação. Joguei com a Simone cantora, com a Cleonice... Depois, o último campeonato que eu disputei foi um mundial na Coreia, onde joguei com a Paula, Hortência... Joguei com as duas gerações.


JC ? Quais são as grandes e boas lembranças da época?

Simone ? Sempre fui uma atleta muito disciplinada e inteligente dentro das quadras. Eu era armadora. Nós tivemos, no Brasil, uma preparação com a seleção japonesa que veio fazer uma série de amistosos antes do mundial e, nessa temporada, a Hortência torceu o pé e eu tive mais oportunidade de jogo. Eu armava e a Paula jogava de lateral com a Suzete na outra lateral. Tive uma participação muito boa e momentos de realização pessoal porque eu pude jogar o melhor do meu basquete dentro do Ibirapuera e dentro dos ginásios de esporte do Interior, onde foram realizados os jogos com o Japão.


JC ? Trouxe amizades das quadras?

Simone ? Sim, tenho muitas amizades. A Paula fica na minha casa quando vem a Bauru e a Hortência sempre responde meus e-mails e também nos falamos por telefone. Também tenho uma amizade muito especial com as meninas da cidade, como a Jacy, Simoninha, Silvana, Lucinha, Suzete...Cada uma tomou o seu rumo, mas vivemos uma vida de realizações e frustrações juntas. O basquete feminino de Bauru teve um privilégio muito grande de ter a Jacy Guedes como jogadora e como professora das iniciantes, além do Antônio Carlos Barbosa, um educador acima de tudo. Ele não foi somente um treinador de basquete.


JC ? Saiu da Seleção aos 25 anos de idade por opção?

Simone ? Isso. Quando nós fomos para o mundial na Coreia, passamos pelo Japão e Estados Unidos para um período de preparação. Eu não conhecia os Estados Unidos, isso em 1979, e me encantei com aquele país. Na ocasião, eu já tinha um filho de dois anos e já estava mais madura. Era a única no time com a responsabilidade de criar um filho. Foi quando decidi que eu não prosseguiria depois do mundial. Meu objetivo era estudar os meus filhos nos Estados Unidos, porque fiquei muito impressionada com as universidades deles. Mudei meu foco aos 25 anos.


JC ? Qual foi a próxima etapa?

Simone ? Cheguei em Bauru, pedi afastamento da Seleção e não fui para o Pan-americano de Porto Rico. Comecei a estudar com o objetivo de formar meu filho nos Estados Unidos quando ele crescesse.


JC ? Direcionou os seus estudos para qual área?

Simone ? Fiz faculdade de serviço social, faculdade de educação física, uma pós-graduação em educação física e este ano terminei um mestrado na área da pedagogia e psicologia do esporte. Em outubro, termino uma outra pós-graduação, dessa vez em administração e marketing esportivo.


JC ? Conseguiu atingir seus objetivos?

Simone ? Sim. Meus dois filhos estudaram nos Estados Unidos. O menino foi em 1995 e nunca mais voltou para morar. Ele é bombeiro e paramédico na cidade de Dallas. Fez faculdade de comércio exterior, trabalhou um pouco no ramo, mas sempre quis ser bombeiro, desde os 10 anos de idade. A profissão é muito valorizada nos Estados Unidos. Antes de ser bombeiro oficial, ele foi voluntário e participou de alguns programas de reestruturação de Nova Orleans, devastada pelo furacão Katrina.


JC ? Você não quis morar com seu filho?

Simone ? Não, eu gosto muito de Bauru e sou muito bairrista. Gosto muito quando eles vêm para cá, mas eu também vou para lá. Minha filha mora em Commerce e faz mestrado na aérea de inglês e espanhol em neurolinguística.


JC ? Além dos estudos, qual foi o rumo profissional que seguiu?

Simone ? Bom, eu já era funcionária pública municipal, como assistente social, e terminei minha carreira pública como secretária de esportes. Também trabalhei no Luso por 15 anos como treinadora de basquete masculino da categoria menores. Tenho muito orgulho em dizer que o Raul, que está na Seleção Brasileira, hoje, foi um atleta que começou comigo aos 7 anos de idade. Também trabalhei por seis anos na Federação da Unimed coordenando um projeto social de basquete feminino para 2 mil crianças em 13 cidades. Neste período, desenvolvi um campeonato chamado Jamboree, que significa grande encontro. O campeonato era feito para 400 crianças. A gente misturava os pequenos em equipes mistas.


JC ? Qual era o intuito desse projeto social?

Simone - Misturando uma criança de cada cidade e em cada equipe, conseguimos diminuir a rivalidade entre as crianças e amenizar a competitividade entre as equipes das cidades. A preocupação em fazer amizades deixou a competição mais calma e tranquila. O objetivo principal era esse e não simplesmente ganhar. Durou três anos. Depois do mestrado, passei a ter uma nova visão sobre a competição esportiva para crianças e esse projeto teve um valor especial porque amenizou os medos e os traumas que as crianças enfrentam nessa etapa da vida quando competem. O projeto foi fruto de muito estudo sobre os problemas a cerca da competição esportiva infantil. Alguns estudiosos são favoráveis e outros são contra, mas acredito ter encontrado um meio termo fazendo esporte sem fomentar a rivalidade e a inimizade entre as crianças.


JC ? Novos projetos?

Simone ? Estou terminando uma pós-graduação na área de administração e marketing esportivo e me preparando para iniciar uma carreira acadêmica, porque quero passar minha experiência dentro de quadras junto da bagagem teórica que estou adquirindo. Estou aguardando oportunidades e tenho tido muitas propostas em São Paulo, mas não gostaria de ir para lá. Se até o fim de 2011 eu não conseguir alguma boa proposta na cidade ou região, os planos são de ir para os Estados Unidos em busca de um curso na área da pedagogia do esporte, além de aprimorar meu inglês.


JC ? Quem é Simone Bighetti?

Simone ? Sou uma pessoa muito decidida e que tem muito foco no que faz, sempre com comprometimento profissional. Sempre aceitei desafios. Perdi minha mãe em um acidente de carro quando eu tinha 17 anos e, por isso, costumo dizer que a vida não teve protocolo comigo. Procurei criar meus filhos de forma que eles pudessem viver a vida com a minha ausência, porque isso pode acontecer amanhã, por exemplo. Sou uma mãe muito presente que passa a mão, mas dá uns tapas, também. Em um determinado momento da minha vida, uma pessoa me disse que eu era muito protetora e que estava estragando meus filhos, a partir daquele momento mudei de atitude. Tenho uma amiga muito presente em minha vida, que criou meus filhos e que não posso deixar de mencionar, que é a Matilde Silveira. Ela foi roupeira do nosso time de basquete e cuidava de meus filhos enquanto eu estava na Seleção Brasileira.


JC- Ainda tem contato com o basquete?

Simone - Eu faço as estatísticas dos jogos de basquete masculino desde o primeiro campeonato, há 14 anos. Não deixo de fazer porque é uma maneira de estar nos jogos e perto do basquete. Essa semana eu li uma notícia que conta a história de uma moça de Dois Córregos que fará o seu casamento em um ginásio de esportes para 6 mil pessoas. Isso me deixou muito triste porque Bauru precisa muito de um ginásio de esportes para 6 mil pessoas e não temos. Sempre faço essa reivindicação. Bauru também merece um teatro melhor do que esse que temos.

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