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Os templos do consumo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O tupiniquim quando viaja fica impressionado com a grandiosidade dos shopping centers dos países desenvolvidos, verdadeiros templos do consumo. Em Las Vegas, o Caesar?s Palace é um exemplo de shopping que inclui uma "piazza" italiana, com fonte de águas jorrantes e esculturas belíssimas. As cantinas servem massas nas mesas ao "ar livre", na verdade sob uma cobertura criada para dar essa impressão. O "céu" muda de cor a cada poucos minutos para dar às pessoas a ilusão de estarem de fato comendo na rua. Fico a pensar que este modelo tão moderno foi inspirado no Grande Bazar de Istambul, construído no século 15 e que, ao que consta, possui 4.000 lojas. Não cheguei a contar, mas percebi que é enorme e tem até café expresso nos moldes dos shopping centers ocidentais, ao lado das tradicionais casas de chá de maçã onde os nativos fumam no narguilé, espécie de cachimbo com a fumaça resfriada ao passar por um vaso de água.

Gilberto Freyre sugeriu certa vez que diferentes tipos de construção revelam algo importante sobre a cultura dentro da qual foram criadas. "O século 19 criou o grande hotel assim como o século 6º criou a catedral gótica", diz ele. O equivalente de hoje seria o shopping. Uma resposta aos problemas urbanos de falta de segurança nas ruas, uma forma arquitetônica que molda o nosso cotidiano e um símbolo da sociedade de consumo. Aqui mesmo em Bauru temos, pelo menos, três projetos de centros de compras em andamento, fora o que já existe. Lembro-me quando abriu o primeiro shopping em São Paulo, o Iguatemi, em 1966. Nos Estados Unidos já havia 13 mil. Notei em Fresno, cidade da Califórnia pouco maior que Bauru, que não se vê ninguém nas ruas mesmo tendo belos parques e ser conhecida pelos seus muitos dias anuais de sol. Quando se entra num shopping percebe-se que existe uma população consumista e disposta para o lazer. São enormes complexos de lojas, cafés, restaurantes, spas com piscinas térmicas, cinemas, restaurantes, hotel, agências bancárias e tudo o mais que uma cidade precisa, protegidas tanto das intempéries quanto da violência. Esses centros comerciais são chamados de "mall", o que é um termo revelador, já que mall antigamente indicava uma avenida ladeada por árvores na qual os pedestres podiam passear. Em Londres existe o Pall Mall, que virou até marca de cigarro de luxo no século passado. As "passagens" francesas do século 19 foram objeto de um ensaio famoso de Walter Benjamin. O filósofo da Escola de Frankfurth sugeriu que a experiência de caminhar nesses espaços cobertos encorajava as pessoas a ver a cidade inteira com o "olhar do flâneur" (aquele que perambula por prazer). Vemos aqui mesmo, em Bauru, a expansão do número de automóveis e o declínio das calçadas cheias de rampas para acesso dos veículos à garagem das residências. Olhando em retrospectiva vemos os shopping como símbolos da sociedade de consumo, nos quais fazer compras ? ou, pelo menos, olhar as vitrines sem comprar nada -, converteu-se em forma de lazer importante. Não apenas eles sugerem os valores de uma cultura (como comparava Gilberto Freyre aos grandes hotéis e catedrais), mas também a vida social, incentivando o surgimento de novas rotinas cotidianas e novas formas de sociabilidade. Vejo a preocupação dos lojistas do Bauru Shopping com a possibilidade de "invasão" do espaço consagrado ao consumo por hordas de sem-dinheiro, jovens vindos da periferia que descem em bandos na porta do complexo de compras e cinemas. Garotas e garotos periféricos também querem participar ? e com todo direito ? desse novo tipo de vida, marcar encontros, paquerar ou simplesmente ver pessoas. No local de onde vêm é só o ermo e a desolação. Imagine se um dia decidirem ir à forra por se descobrirem mal aquinhoados na distribuição desse bolo do consumo. Serão expulsos pelos seguranças como os "vendilhões" do templo sagrado da nova sociabilidade, quando, na verdade, quem vende são os que lá estão. No Brasil de hoje a ascensão das "classes subalternas" com as políticas macroeconômicas de transferência de rendas, mais empregos e ganhos no poder de compra dos salários indicam que a "revolução" ficou para trás, uma vez submetido o povo aos prazeres do consumo. Nada que me desanime.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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