Polícia

Tráfico gira quase R$ 200 mi em 1 ano

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Em 18 meses, um faturamento aproximado de R$ 275 milhões - o que significa quase R$ 200 milhões somente no período de um ano. A arrecadação de R$ 15,5 milhões por mês, invejável para a maioria das grandes empresas de Bauru, é o valor estimado que o mercado ilegal de entorpecentes movimentou entre o ano passado e este ano (até junho) na região. No período de 18 meses, o montante que deixou de ser injetado na economia formal equivale a um quarto de todo o faturamento do setor supermercadista de Bauru e a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) da cidade em 2010.

Assustadora, a cifra se baseia na expectativa "otimista" de que, para cada um quilo de droga apreendido, outros nove chegam até seu destino final - os usuários. Mas há quem acredite que a proporção interceptada seja ainda menor. Do início de 2010 até agora, foram retidas 3,085 toneladas de maconha, cocaína e crack em 54 cidades da região abrangidas pelas delegacias seccionais da Polícia Civil de Bauru, Botucatu, Jaú e Marília, além do município de Lins. Ao todo, sem considerar as apreensões efetivadas pela Polícia Federal, a droga é avaliada em R$ 27,5 milhões.

Se fosse aplicada no comércio, a quantia movimentada nos 18 meses do levantamento feito a pedido do JC seria suficiente para a aquisição de 9 mil carros populares ou 1,8 mil apartamentos de dois dormitórios localizados em bairros de classe média da cidade. Também custearia 91 mil passagens de ida e volta para a Europa ou a compra de mais de três toneladas de ouro.

"Mas o prejuízo para a economia não se resume ao valor faturado pelo tráfico. O ônus financeiro sobre o sistema de saúde que precisa cuidar dos usuários, sobre a segurança pública que precisa combater o comércio ilegal e o que se perde por conta dos dependentes que deixam de trabalhar também precisa ser considerado", enumera o economista Mauro Gallo.

Na seccional de Bauru, compreendida por 18 municípios, foram apreendidos 853 quilos de drogas, sendo 438,75 quilos somente na cidade. A maior parte deste montante corresponde a maconha, entorpecente que custa, em média, R$ 2,00 o grama. Já a cocaína é comercializada pelo valor mínimo de R$ 10,00 e o grama do crack, com que se produzem cerca de três pedras, custa em torno de R$ 30,00.

Ainda que possa corresponder a um valor muito superior, o faturamento estimado pelo JC com base em informações colhidas junto à Polícia Civil demonstra que o narcotráfico se transformou em negócio bastante lucrativo e bem organizado, com regras e poder hierárquico próprios. Como uma verdadeira empresa, os traficantes possuem logística de transporte muito bem elaboradas e estratégias cada vez mais sofisticadas para burlar a fiscalização (leia mais abaixo).

Autoridades consultadas reconhecem que a tarefa de combater a expansão desse crime tem sido árdua, embora não deem a guerra como perdida. Para o delegado seccional da Polícia Civil de Bauru, Benedito Antônio Valencise, descriminalizar o uso da maconha ou outras drogas seria equivocado. "Não dá para simplesmente jogar a toalha. Entendo que é necessário tornar as leis mais severas e oferecer tratamento adequado aos usuários. Além disso, é preciso intensificar a fiscalização nas fronteiras, porque o entorpecente que entra no Brasil vem de outros países", frisa.

Rota


O tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM/I), comenta que os maiores volumes de droga são apreendidos pela Polícia Rodoviária, já que Bauru e região funcionam como rota para o tráfico. "É claro que uma quantidade fica em Bauru, que é sede regional do Estado. Geralmente, a droga sai da rodovia e é guardada em paióis fora da zona urbana. De lá, é distribuída para os traficantes menores, que repassam para as bocas de fumo. Neste estágio, o volume já é mínimo, de 2 a 3 quilos", salienta, acrescentando que a PM continua a deter traficantes e interceptar droga, mesmo que em pequenas quantidades, na periferia da cidade.

Além da Capital, os principais destinos das substâncias ilícitas que passam por Bauru são outros grandes centros como Campinas e Sorocaba, além da baixada santista, onde se concentra a maior quantidade de usuários. Os carregamentos, em geral, partem da Bolívia e entram no Brasil pelo Mato Grosso, passando por toda a extensão da rodovia Marechal Rondon e seguindo em direção às rodovias Castelo Branco, Raposo Tavares e Anhanguera.

Mas são utilizadas também outras rotas, incluindo estradas secundárias de difícil acesso e pouco trânsito chamadas de cabriteiras. "Outra entrada é por Florínea, para a droga que vem do Paraná. Do que vai para São Paulo, parte segue para o Exterior. Há ainda uma parte de maconha que vem de Goiás, onde existem muitas plantações", detalha Garcia.

Segundo ele, por conta da fiscalização, o maior volume de drogas é interceptado nas rodovias, mas outras formas de transporte, como ferrovias e hidrovias, também são utilizadas. "Nas rodovias, a droga é carregada principalmente em caminhões de carvão, soja e madeira."

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Foco na prevenção


Além de atuar no combate direto ao narcotráfico, a Polícia Militar (PM) também foca seus esforços na prevenção. Além de realizar ações sociais em comunidades sabidamente controladas por traficantes, a corporação iniciou, há menos de um mês, visitas sistemáticas em escolas de ensino fundamental e médio para prestar orientação aos alunos.

"Pretendemos realizar palestras em 600 salas de aula. É uma forma de alertar e educar as crianças para evitar que se envolvam com drogas. Mas também atuamos fortemente na repressão, ainda que a gente saiba que o traficante preso hoje seja rapidamente substituído por outro", reconhece.

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Cocaína de Bauru vem da Capital


A rota do tráfico que passa por Bauru segue no sentido Oeste-Leste (do Mato Grosso para São Paulo), mas curiosamente a cocaína consumida pelos usuários da cidade vem da Capital. Conforme explica uma fonte da polícia, a logística desta estratégia ainda não foi completamente desvendada, mas sabe-se que grande parte das apreensões no município identificaram São Paulo como ponto de abastecimento.

"Recentemente, apreendemos 12 quilos em Bauru, o que não é pouco para um traficante só. Mas imaginamos que esta quantidade seja apenas uma parcela do que foi distribuído para outras cidades do Interior do Estado, de um volume muito grande que tenha partido de São Paulo", aponta o titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Bauru, Silberto Sevilha Martins.

Apreensões como esta vêm resultando na redução dos índices criminais nos últimos anos, como o de furtos, geralmente praticados por usuários de drogas. "Isto é reflexo da repressão mais acentuada das polícias Civil e Militar. Se estes indicadores estão caindo, as políticas de combate ao narcotráfico estão em um nível satisfatório", frisa.

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Crime possui ?empresas organizadas?


Por movimentar uma enorme quantidade de dinheiro, o mercado da droga foi se profissionalizando e não seria exagero dizer que, hoje, é constituído por empresas muito organizadas. Especialistas consultados pelo JC revelam que alguns traficantes estabelecem até mesmo turnos de trabalho para seus "funcionários", com horários de entrada e saída. Para burlar a fiscalização, estes "empresários do crime" chegam a denunciar parte de seu carregamento à polícia, como forma de despistar a fiscalização e garantir a passagem, na sequência, de outros caminhões que carregam a maior parte da droga.

"É o chamado boi de piranha. Eles denunciam um caminhão que está na rodovia. O policial vai lá e encontra o entorpecente. Até registrar toda a apreensão, outros caminhões que vêm logo atrás passam impunemente. Essa é uma prática comum", comenta uma fonte da polícia, que preferiu não se identificar.

Outra estratégia é a utilização de batedores, que trafegam alguns quilômetros à frente do veículo que transporta a droga. Eles são utilizados para informar o comboio ao longo de toda a viagem sobre eventuais blitzes. "Em muitos casos, estes batedores seguem em carros e param na base (da Polícia Rodoviária) para pedir alguma informação. Nesse tempo, ele mantém o policial ocupado e tira a atenção dos caminhões que estão vindo atrás", revela a fonte.

Também por uma questão de logística e redução do risco de serem pegos em flagrante, os traficantes também dispõem de laboratórios situados em sedes regionais do Estado. Desta forma, compram na Bolívia apenas a pasta-base de cocaína, que servirá como matéria-prima para o preparo, nestes pontos estratégicos, da cocaína que será efetivamente comercializada.

"Essa tática faz com que a droga já pronta precise ser transportada apenas dentro da região e não por longas distâncias. Isso facilita a distribuição", analisa o tenente-coronel Nelson Garcia Filho.

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