Bairros

Geada castiga 80% das pastagens e gera ?preço gangorra? nas carnes

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

A geada registrada no início da última semana castigou 80% das pastagens de Bauru e região e, como consequência, o preço da carne deverá subir nos próximos meses. Mas, até lá, o consumidor deverá pagar menos para levar o produto para casa.

Este efeito gangorra é resultado direto da falta de capim para alimentar o rebanho. Sob a perspectiva de emagrecerem rapidamente, os bois que deveriam permanecer na engorda até meados de agosto deverão ser comercializados a partir de agora. Como consequência da maior oferta de carne no mercado, o consumidor deverá ser beneficiado com preços mais baixos.

Porém, dentro de dois ou três meses, a situação inversa deve se impor. "Com certeza o preço voltará a subir, porque faltará boi para abate. Praticamente, só vai restar o gado confinado (alimentado com ração), que na nossa região não passa de 10% do total", diz o presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde.

De acordo com ele, a pastagem "queimada" pela geada, à medida em que for secando, se tornará mais propícia à ocorrência de incêndios, o que preocupa ainda mais os pecuaristas e reforça a pressa em vender o quanto antes a criação. "O produtor poderia comprar ração para alimentar esse gado até agosto, mas é um investimento inviável porque a ração, feita a base de soja e milho, entre outros grãos, está muito cara", detalha.

Atualmente, a arroba do boi gordo é comercializada a R$ 95,00. Segundo Lima Verde, não é possível prever a que valor poderá chegar entre outubro e novembro próximos. "Seria um exercício de adivinhação. Mas certamente teremos uma leve redução de preços agora e, depois, uma grande elevação", resume.

Consultadas pela reportagem, empresas frigoríficas informaram que ainda não estão pagando mais caro pelo boi gordo, mas avaliam que os reflexos negativos já devem ser sentidos dentro dos próximos 15 dias.

O mesmo deve ocorrer com a indústria de laticínios, que deve sofrer com a escassez de leite no período, já que as vacas, sem alimento, reduzem a produção em 80% em poucos dias. "Mas, como a indústria conta com fornecedores de diversas regiões, pode ser que o preço para o consumidor final não seja alterado mais do que o normal para esta época de seca", acrescenta o titular da Secretaria Municipal da Agricultura e Abastecimento (Sagra), José Carlos Zito Garcia.

Plantações

A geada que atingiu as pastagens na madrugada do dia 27 para o dia 28 de junho também prejudicou lavouras e plantações de hortaliças na região. O frio de 4,2 graus - a temperatura mais baixa nos últimos 11 anos em Bauru - "queimou" principalmente folhosos como alface, rúcula, espinafre e couve e afetou, em menor escala, pés de café, laranja, cana-de-açúcar, mandioca e maracujá.

"Na lavoura, as perdas não foram tão grandes. Só algumas plantações que estavam em áreas muito baixas foram atingidas", comenta o engenheiro agrônomo Luís César Demarchi, do Escritório de Desenvolvimento Rural (EDR) de Bauru. Da mesma forma, as pastagens foram as mais prejudicadas porque, na região, estão localizadas nos terrenos mais baixos, onde a geada atua com maior intensidade.

Concentrados principalmente nos municípios de Iacanga, Arealva, Bauru e Lucianópolis, os cultivos de hortifruti, mais sensíveis às intempéries climáticas, foram os mais castigados. "De todos eles, a que mais sofre é a alface", observa Demarchi. Em duas semanas, o preço do produto dobrou de preço em feiras e supermercados.

Segundo estimativa do engenheiro e do secretário da Sagra, o prejuízo para os produtores oscilou entre 40% e 50%, em média. "Por isso a importância de eles implantarem estufas em seus cultivos. Quem possui estufa não teve prejuízo nenhum. E não se trata de um investimento muito alto", assinala Zito.

Não perdeu a plantação quem tinha a produção coberta ou quem se precaveu de outras formas, como a agricultora Ilda Ivacoshi Himeno. Ainda que tenha perdido parte da alface, cebolinha, couve e brócolis que estavam em pleno desenvolvimento, os danos não foram maiores porque ela estava atenta à previsão meteorológica no dia que antecedeu a geada e adotou uma medida estratégica.

"Não reguei as plantas no dia anterior e salvei parte da produção. Como não ficou água parada, não houve formação de gelo nas folhas durante a madrugada", ensina.

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Hortaliças já custam o dobro do preço

Por conta da geada registrada na madrugada do último dia 28 de junho, algumas hortaliças já estão sendo comercializadas pelo dobro do preço praticado há duas semanas em feiras e supermercados. Uma delas é a alface, cujo maço custava R$ 0,80 e, agora, é vendido a R$ 1,60, em média.

De maneira geral, os folhosos foram os que sofreram o maior reajuste. A couve, por exemplo, subiu de R$ 1,70 para R$ 2,30 em alguns estabelecimentos. O mesmo ocorre com a rúcula, que custava R$ 2,29 e agora sai por até R$ 2,79.

"Com as perdas por causa do frio, os produtores estão sem mercadoria para ofertar e acabam elevando os preços. Por isso, além de pagar mais caro, o consumidor irá sentir a escassez de alguns produtos nas gôndolas", adianta Marcos Renato Lourenção, gerente de compras de um supermercado da cidade.

De fato, os prejuízos obrigaram os hostifrutigranjeiros a encarecer seus produtos. Alguns deles chegaram a perder até 70% de sua produção, como é o caso do agricultor Shigheru Sato. Por causa da insuficiência de mercadoria para abastecer o mercado, ele reajustou o preço do que restou em até 30%. Nas próximas duas semanas, a previsão é que haja uma nova majoração de 40%.

"Acredito que os preços só voltem a normalizar dentro de uns 45 dias, quando teremos uma nova colheita se o tempo ajudar. Tenho 48 variedades de folhagens e todas queimaram, porque a geada foi muito forte. Não tem como não subir os preços", considera.

Mas, segundo Lourenção, os consumidores não deverão sentir este forte impacto em todos os itens do setor de hortifruti. Em média, a elevação de preços nos supermercados deve girar em torno de 20%, principalmente em estabelecimentos que possuem fornecedores de regiões não atingidas pela geada.

"Um problema que sempre ocorre em época de inverno e que é acentuado quando há geada é a perda de qualidade de alguns produtos. Um exemplo é o tomate, que é bastante sensível. Por mais que haja oferta, a qualidade não é a mesma", frisa. Mesmo estando "mais feio" que o habitual, o tomate subiu de R$ 1,99 para R$ 2,99 na última semana.

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