Mais uma vez, Bauru foi cenário de um acidente ambiental envolvendo um vagão da empresa América Latina Logística S/A (ALL), responsável pela malha ferroviária na região. Na manhã de ontem, segundo estimativas da Defesa Civil da cidade, aproximadamente 40 mil litros de gasolina vazaram, atingindo o solo e a galeria pluvial. A ALL, que irá responder por novo inquérito (leia mais abaixo), não confirma oficialmente a quantidade derramada.
O vazamento ocorreu por volta das 9h30, quando um vagão com capacidade para 60 mil litros de combustível era manobrado no pátio ferroviário de Triagem Paulista, na quadra 1 da avenida Manoel Duque, no Jardim Guadalajara. Segundo a empresa, o vagão veio de Paulínia e seria descarregado em Bauru.
"Nos momentos críticos, chegou a vazar entre 25 e 30 litros por minuto. Estimamos que, até ser contido, tenha vazado uns 40 mil litros. O cheiro podia ser sentido de muito longe", ressalta o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito.
Algumas horas depois, o vazamento foi controlado. Todavia, o transbordo do vagão, segundo a Defesa Civil, somente foi finalizado por volta das 15h30.
Por meio da assessoria de comunicação, a ALL informou que abrirá sindicância para apurar as causas do acidente. Entretanto, também pela assessoria, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) afirmou que a causa seria o rompimento de uma chapa localizada debaixo do respectivo vagão. Técnicos da companhia ambiental acompanharam o caso.
Para conter o vazamento foi preciso acionar o Corpo de Bombeiros e caminhões da prefeitura. O coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, explica que esse trabalho foi o que evitou uma grande tragédia. "Além dos bombeiros, que estavam em quatro veículos, foram dois caminhões-pipas do DAE (Departamento de Água e Esgoto) e um da Semma (Secretaria Municipal do Meio Ambiente)".
De acordo com ele, a Petrobras e a Esso também enviaram equipamentos para auxiliar no controle do vazamento. "Eles forneceram uma espuma especial para minimizar o risco de pegar fogo. Se não fossem todos esses órgãos, poderia haver uma tragédia muito grande, pois passam carros pelo local e a explosão poderia chegar no Jardim Guadalajara, culminando até com a evacuação do local".
Prejuízo ambiental
Entretanto, mesmo sem ter entrado em combustão e não ter deixado feridos, o vazamento certamente causou prejuízo ambiental. De acordo com a assessoria de comunicação da Cetesb, será feito um laudo para detalhar o tamanho do impacto, porém, preliminarmente já é possível afirmar que o solo foi atingido.
O combustível também afetou galerias pluviais na região, todavia, ainda segundo a companhia ambiental, não chegou ao Rio Bauru.
Em nota, a ALL afirmou que irá realizar a limpeza do local atingido e a drenagem do solo. A Cetesb acredita que ainda hoje a parte contaminada seja removida a um espaço especializado.
Em relação a possíveis punições, a companhia ambiental afirma que o caso será investigado e, após verificar o tamanho do dano ambiental, não descarta a aplicação de multas à ALL, responsável pelo transporte.
Reincidência
Acidentes com vagões da ALL vêm sendo constantes na região. Em todos, a precariedade da malha ferroviária é apontada como principal responsável. Em abril, outro acidente foi registrado no mesmo local que o de ontem. Na ocasião, dois vagões carregados com 60 mil litros de gasolina descarrilaram no pátio ferroviário de Triagem Paulista e pelo menos 600 litros do combustível vazaram de um dos vagões. Na mesma semana, outros dois acidentes semelhantes foram registrados, um em Bauru e outro em Rubião Júnior, em Botucatu.
Entretanto, o caso mais grave este ano foi registrado no dia 8 de janeiro no Horto Aimorés, próximo ao Distrito Industrial 2 de Bauru. Após descarrilamento de duas locomotivas e um vagão, o combustível que era transportado caiu em um córrego e, a cerca de um quilômetro do local do acidente, culminou em forte explosão.
Cinco veículos que passavam pelo local foram atingidos e quatro pessoas ficaram feridas, alguns em estado grave. O condutor da locomotiva teve ferimentos leves.
Em todos os acidentes registrados, a empresa emite a mesma nota padronizada dizendo que investe anualmente cerca de R$ 650 milhões destinados ao aumento da produtividade e da segurança nas operações ferroviárias sob sua concessão.
Inquérito será aberto para apurar crime ambiental
O novo acidente ocorrido ontem com o vagão da empresa América Latina Logística S/A (ALL) será investigado pela Polícia Civil, por meio da Delegacia de Crimes Ambientais. "Assim que o caso chegar aqui, iremos abrir um novo inquérito. Queremos ver a responsabilidade criminal da empresa no prejuízo ambiental. Será mais uma ocorrência a ser apurada", explica o delegado Dinair José da Silva.
Outro inquérito de um acidente ocorrido em 8 de janeiro deste ano está sendo apurado. Na ocasião, após o descarrilamento de um vagão e o vazamento do material, quatro pessoas ficaram feridas em uma grande explosão.
"Este outro inquérito está em fase final. Solicitamos alguns laudos para a Cetesb e eles pediram para a ALL, porém, esses documentos ainda não chegaram. Só falta isso e ouvir mais duas vítimas. Acredito que, dentro de 30 dias, iremos concluir esse inquérito. Uma das conclusões possíveis é que a ALL pode ser responsabilizada tanto pelos danos ao meio ambiente quanto pelos materiais e ferimentos às vítimas", completa o delegado Dinair José da Silva.
Por conta desse acidente, a ALL foi multada pela Cetesb em R$ 130 mil, porém, a empresa ainda recorre da decisão.