Brasília - O ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, pediu demissão ontem. A presidente Dilma Rousseff nomeou interinamente o secretário-executivo Paulo Passos para o comando da pasta. Nascimento não resistiu a cinco dias de acusações de envolvimento de seu partido, o PR, e parte da cúpula do ministério em casos de superfaturamento e pagamento de propina.
Com isso, o governo Dilma Rousseff tem a segunda baixa ministerial em menos de um mês. Em 7 de junho, foi a vez do então todo-poderoso Antonio Palocci (Casa Civil), que não explicou a multiplicação de seu patrimônio.
Desde o governo Itamar Franco (1992-94) não caíam dois ministros em tão pouco tempo de mandato - pouco mais de seis meses - em decorrência de escândalos.
Assim como Palocci, Nascimento, 59 anos, fazia parte da cota de ministros indicados pelo antecessor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva.
No fim da tarde de ontem, ele divulgou nota anunciando sua saída. Vai reassumir uma vaga no Senado pelo Amazonas, desalojando um amigo de Lula, o suplente João Pedro (PT). Ele volta também à presidência do PR, que pretende manter o comando da pasta, onde está instalado desde o início do governo Lula.
Na nota, Nascimento diz que autorizou a quebra de seu sigilo fiscal e bancário e pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) que investigue as denúncias. O suposto esquema de propinas foi revelado pela revista "Veja" desta semana.
Segundo a reportagem, políticos do PR, funcionários do ministério e de órgãos vinculados à pasta montaram um esquema de superfaturamento de obras e cobrança de propina a empreiteiras e consultorias.
Antes das denúncias, Dilma já mostrava descontentamento com o ministro alegando que havia um descontrole no aumento abusivo do valor de contratos por meio dos chamados aditivos.
Dois dos principais órgãos, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a Valec (estatal de obras ferroviárias), foram alvo das denúncias. Nascimento, então, foi obrigado por Dilma a afastar a cúpula de seu ministério. Caíram o chefe de gabinete, Mauro Barbosa, o assessor do ministério Luís Tito Bonvini, o diretor-geral do Dnit, Luís Antônio Pagot, e o diretor-presidente da Valec, José Francisco das Neves.
O ministro passou a ser criticado até por integrantes de seu partido que afirmaram que a demissão de subordinados tiraria seu poder para continuar no cargo.
Ao longo da semana, reportagens apontaram detalhes desses contratos - a "Folha de S.Paulo" mostrou, por exemplo, que houve reajustes em pelos 11 contratos considerados irregulares pelo Tribunal de Contas da União.
Ontem, o jornal "O Globo" afirmou que uma empresa ligada ao filho de Nascimento, Gustavo Pereira, recebeu verbas do ministério.
O caso é investigado pelo Ministério Público Federal, e há suspeitas sobre seu aumento patrimonial.
A situação de Nascimento, que já era ruim, tornou-se insustentável. Pouco antes da nota de demissão, ele ligou para senadores aliados que estavam em reunião no Planalto com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais). Avisou que estava deixando o cargo para "defender sua honra".
Na reunião, Ideli pedia ao partido para antecipar para hoje as explicações do ministro no Senado, programadas para a próxima semana.
Os senadores deixaram a sala com a promessa de que o governo deixaria a escolha do substituto para "um segundo momento" e que ouviria o partido no processo. "Fazer coisa atabalhoada só dá chance para que na próxima semana um novo escândalo aconteça", disse o senador Magno Malta (ES).