Articulistas

Onde ficam as empresas no Pronatec?

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Mais uma vez o Brasil se vê despreparado para enfrentar uma fase de crescimento continuado. E o problema é o mesmo, falta de mão de obra capacitada. O Brasil não tem sido capaz de engatar um ritmo de crescimento sustentável porque sua força de trabalho não tem condições de acompanhá-lo. A população nacional e mundial continuam crescendo e com elas cresce e se diversifica a demanda de alimentos, de vestuário, de moradia, de transporte, de utilidades domésticas, de produtos eletroeletrônicos de comunicação e diversão, de máquinas e equipamentos de produção industrial e agrícola, de serviços, enfim, de tudo o que precisamos. Esse é um dos lados da moeda, o das oportunidades. O outro é o lado das dificuldades, o de ser capaz de produzir em condições de competir com os outros países que também querem aproveitar as oportunidades. Isso exige a capacidade de produzir, com continuidade, na quantidade, com qualidade e preço que permitam vencer os concorrentes.

Na tentativa de superar essa dificuldade, o governo encaminhou ao Congresso um projeto instituindo o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego - Pronatec, a ser executado pela União, com a finalidade de ampliar a oferta de educação profissional e tecnológica, por meio de programas, projetos e ações de assistência técnica e financeira. Ao anunciar o programa no dia 28 de abril a presidente Dilma disse que o Brasil se encontra diante de um momento muito importante "de um vigoroso e duradouro processo de desenvolvimento" e que o grande desafio a ser enfrentado é a qualificação de mão de obra porque "o sistema de capacitação profissional brasileiro já não corresponde às necessidades do país e às dimensões de nossa economia." Com o programa proposto o objetivo é gerar, até 2014, "8 milhões de novas oportunidades de formação profissional para jovens trabalhadores e para jovens do ensino médio."

Para atender a esse ambicioso objetivo o programa procurará envolver todo o sistema de ensino técnico. No nível federal é prevista a ampliação da rede de escolas técnicas. Estados e municípios são convidados a se integrarem ao programa. O Estado de São Paulo já divulgou o seu projeto de oferecimento de cursos técnicos paralelos e integrados nos currículos de suas escolas técnicas. O Senai e seus parceiros do sistema S, Senac, Senar e Senat, receberão recursos para ampliação de vagas e cursos. Com bolsas, estudantes do ensino médio público e trabalhadores serão estimulados a fazerem cursos de formação profissional. Será um esforço concentrado desde a formação básica, de qualificação, até a de nível superior, tecnológica.

Não há como não apoiar essa iniciativa, mas, levando em conta que o sistema de capacitação profissional tem pouca elasticidade, que as funções ocupacionais se distribuem em centenas de modalidades e que muitos conhecimentos, habilidades e atitudes só são adquiridos em situação real de trabalho, achamos que, apesar do apelo da presidente para o envolvimento de toda a sociedade, está faltando algo mais incisivo em relação às empresas. Todos sabemos das deficiências do nosso sistema de ensino e se a responsabilidade ficar só com ele, as empresas continuarão rejeitando candidatos que seus processos de seleção julguem com capacitação insuficiente. Esse programa terá mais sucesso se as empresas assumirem a responsabilidade do treinamento em serviço, necessário para a integração do novato e para as mudanças de função. O treinamento metódico em serviço, que não deve ser confundido com estágio de estudantes, começou nos Estados Unidos durante a 2ª Guerra Mundial, para suprir os postos de trabalho esvaziados pelo recrutamento militar e aumentados pelo esforço de guerra, com a criação do TWI - Training Within Industry (treinamento dentro da indústria ou treinamento em serviço). É uma metodologia de quatro pontos que permite à própria empresa treinar o seu pessoal. Depois da guerra esse programa foi levado para a recuperação do Japão. Ali, além de servir para a restauração da economia japonesa acabou se fundindo com a filosofia kaizen e originando o sistema Toyota de produção enxuta, de sucesso indiscutível. O treinamento na própria empresa permitiria ao Pronatec realizar o sonho da presidente Dilma.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras

Comentários

Comentários