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O BNDES e nós

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

É no mínimo estranha a interferência do BNDES numa transação privada, que deveria ser conduzida exclusivamente pelos sócios, como esta que envolve as empresas que comandam as redes mercadistas Casino, Pão de Açúcar e Carrefour. Não vi nenhuma razão que beneficie o Brasil com essa participação. O que está aparente é que o dinheiro do banco será usado para pagar os acionistas do Carrefour francês que está querendo sair do negócio. Nunca se imaginou que esta poderia ser a sua função. O BNDES é uma instituição muito importante para os brasileiros. Concentra um volume substancial de recursos públicos (e que, portanto, são subtraídos de todos os contribuintes) e recursos privados (que, no fundo, são dívidas contingentes do Estado brasileiro) destinados a financiar o desenvolvimento de nossa economia e a estimular o fortalecimento do mercado de capitais.

Sua criação, com a sigla BNDE, data de 1952, como instituição destinada ao financiamento dos programas da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, com aportes iniciais de recursos do Banco Mundial e do Eximbank. Posteriormente incorporou o Finsocial e com ele o S da nova sigla e criou uma subsidiária BNDESPAR, uma sociedade anônima destinada a agilizar a missão do banco em participações acionárias para, basicamente, fortalecer o mercado de capitais; dinamizar empresas privadas nacionais; facilitar a criação, transferência e incorporação de novas tecnologias e estimular o fortalecimento gerencial de empresas nacionais.

 O BNDES tem um corpo técnico de reconhecida competência. Até duas décadas atrás escolhiam ? ou procuravam escolher ? projetos nacionais pioneiros com boa taxa de retorno no longo prazo e alta probabilidade de sucesso. Em anos recentes, porém, ele tem sido induzido por obra e arte do Poder Executivo de plantão a apoiar ambiciosos programas cujos resultados têm sido duvidosos.

Estimularam a criação de oligopsônios combinados com oligopólios (poucos compradores em mercados com milhares de fornecedores e milhões de consumidores), o que lhes dá enorme poder econômico e a possibilidade de controlar as margens de seus fornecedores e impor preços mais altos aos consumidores. Mais do que isso, o banco tem sido chamado para salvar bancos privados que se meteram no financiamento entusiasmado de alguns setores sem a preocupação de aumentar-lhes a eficiência.

Envolve-se agora, de forma pouco razoável, numa intriga comercial entre dois sócios que nada tem a ver com o interesse nacional. Sem maiores cuidados deu apoio antecipado a uma operação que seria "boa para todos", exceto para os consumidores e fornecedores brasileiros que mais uma vez seriam contrastados como um aumento do poder econômico. No final, o recurso do BNDES (ou seja, o nosso dinheiro) irá reforçar um "campeão francês" em pura decadência comprando ações na França dos controladores do Carrefour que querem vendê-las e não têm para quem...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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