Articulistas

Do ladrão ao barão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em janeiro de 2006 estourou o escândalo do mensalão. Sabe-se hoje que R$ 75 milhões foram desviados dos cofres públicos para alimentar o propinoduto de uma figura estranha, de cabeça pelada, chamada Marcos Valério, o encarregado da distribuição das mesadas aos partidos, aos políticos da base governamental, e a quem mais o governo indicasse. Passados cinco anos, o STF promete julgamento dos envolvidos para o ano que vem. Vamos esperar que se dissipe o forte cheiro de orégano que, desde então, impregna os ares da República. Enquanto isso, novo escândalo. Saímos do enriquecimento sem causa do ministro-chefe Antonio Palocci e entramos no notório Ministério dos Transportes, envolvendo figuras conhecidas já à época do mensalão.

Hannah Arendt falou da banalização do mal pelos nazistas. Nós banalizamos o assalto ao dinheiro do contribuinte. Ao cinismo dos assaltantes, seguiu-se o fatalismo dos assaltados. O povo, anestesiado pelo noticiário perdeu a vontade de se indignar. Um das perguntas que têm sido insistentemente feitas é se haveria mais corrupção hoje do que em outros períodos da nossa história e, em caso de resposta positiva, por que razão. A resposta de Lula, repetida por Dilma tem sido que não há mais corrupção, haveria é mais investigação. Em vez de mal, teríamos um bem. As repetidas operações da Polícia Federal e ações do Ministério Público desvendando novas roubalheiras mostrariam que o sistema está sendo eficaz na punição dos culpados. É uma resposta interessada em absolver o governo e as instituições. Pode ser consoladora para quem a oferece, mas não é satisfatória. É verdade que mais investigação revela mais crime, mas o que está acontecendo não tem paralelo na história republicana em seus momentos de liberdade de imprensa e funcionamento regular das instituições, como nos anos 1950 e 1960, até 1964.

Getúlio Vargas foi virulentamente acusado pela imprensa de acobertar um mar de lama no Catete (palácio presidencial da época). As denúncias não atingiam todos os poderes da República. Não havia metástase. E, por causa das acusações, um presidente saiu da vida, mas entrou para a história. Os militares em 1964 assumiram o poder em nome do combate ao comunismo e à corrupção. Mas as investigações dos IPMs (Inquéritos Policiais Militares) descobriram poucas provas de corrupção. Cripto-comunistas (como se dizia na época), estes sim foram encontrados até debaixo da cama, dada a elasticidade conferida à palavra subversão .

Hoje, pelo contrário, uma imprensa livre revela semanalmente evidências de comportamento inadequado, antiético ou criminoso de representantes dos três Poderes. Há aumento de quantidade e alteração da qualidade da corrupção. Há mais gente, mais exemplos e maiores valores envolvidos. O próprio governo calculou em R$ 40 bilhões o rombo anual dos cofres públicos em nível federal, estadual e municipal. Pelo lado qualitativo, há mais sistema na roubalheira, a corrupção hoje funciona em redes, é mais organizada, mais profissional. Deu metástase. Quase todos os escândalos têm a ver com esses fatores: nepotismo, fraude em licitações, compra de apoio parlamentar, tráfico de influência, caixinha eleitoral. São estes os frutos da impunidade, o que contradiz os propósitos da ação da Polícia Federal e do Ministério Público. Tais ações têm muito de espetáculo, mas não redundam em condenações. Um ou outro condenado o foi em primeira instância. Ainda tem pela frente róseas perspectivas de recursos, apelos, protelações, anulações, que fazem com que no Brasil ninguém com recursos para pagar bons advogados vá para a cadeia. Que temor têm da Justiça aqueles que cometem seus crimes dento dos próprios palácios dos três Poderes? Diferente de Getúlio, os políticos hoje saem da história para entrar na vida.

Raimundo Faoro chamou de Estado Patrimonial esse território onde o público e o privado se imbricam de forma promíscua. A desculpa é que a prática vem desde D. João 6º. O primeiro jornalista brasileiro, Hipólito da Costa usou para ilustrar a situação do tesoureiro-mor do reino o refrão espanhol: "Quem cabras não tem e cabritos vende, de algum lugar vem". No auge das denúncias circulava uma quadrinha que dizia: "Quem furta pouco é ladrão/ quem furta muito é barão/ quem mais furta e mais esconde/ passa de barão a visconde". O alvo era o Visconde de São Lourenço, Francisco Targini, encarregado das finanças reais.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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