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Negros e mulheres têm menos acesso a transplantes, diz Ipea

Folhapress
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Brasília - Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que os efeitos das desigualdades sociais brasileiras se estendem às cirurgias de transplantes de órgãos. A maioria dos transplantados são homens da cor branca.

De acordo com o estudo, de cada quatro receptores de coração, três são homens e 56% são de cor branca. No transplante de fígado, 63% dos receptores são homens e 37% mulheres. De cada dez pessoas que recebem o órgão, oito são brancas.

Segundo a análise do Ipea, homens e mulheres são igualmente atendidos nos transplantes de pâncreas, mas 93% dos atendidos são brancos.

A maioria absoluta de receptores de pulmão também são homens (65%) e pessoas brancas (77%). O mesmo fenômeno ocorre com o transplante de rim: 61% são homens; 69% têm pele clara.

"Verificamos que o conjunto de desigualdades brasileiras acaba chegando no último estágio de medicina", aponta o economista Alexandre Marinho, da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, um dos autores da pesquisa. Ele e outras duas pesquisadoras analisaram dados de 1995 a 2004, fornecidos pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), para chegar à conclusão.

O economista não estudou as causas do fenômeno, mas disse que a preparação para o transplante pode explicar as razões da desigualdade. Para fazer a cirurgia, o receptor deve estar apto: eventualmente mudar a alimentação, tomar medicamentos e fazer exames clínicos -procedimentos de atenção básica.

Segundo Marinho, quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) - cerca de 3/4 da população brasileira - sai em desvantagem, porque tem dificuldade para receber remédios, fazer consultas e exames clínicos. "A situação onera quem tem menos condições de buscar alternativas."

"O sistema é desigual na ponta (cirurgia de alta complexidade) porque é desigual na entrada", afirma o economista. Para ele, quando o SUS tem excelência no atendimento o acesso não é para todos. "Na hora que funciona, quem se apropria são as pessoas mais bem posicionadas socialmente."

Conforme Marinho, os planos de saúde são resistentes a autorizar procedimentos de alta complexidade, como as cirurgias de transplantes, por causa dos custos. "Os hospitais privados preferem atender por meio do SUS porque sabe que paga."

Segundo Marinho, o estudo sobre a desigualdade de transplantes ainda não é do conhecimento do Ministério da Saúde.

De acordo com os dados do Sistema Nacional de Transplantes, há 1.376 equipes médicas autorizadas a realizar transplantes em 25 Estados brasileiros (548 hospitais).

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