Polícia

Desacato à polícia cresce 25% este ano

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Uma briga com a esposa, um acidente de trânsito ou mesmo abordagens policiais rotineiras. Questões aparentemente simples como essas estão preocupando a Polícia Militar (PM). O problema não está no fato em si, porém, em seu desdobramento para o policial. Segundo levantamento da própria PM, em Bauru, o número de desacatos este ano cresceu cerca de 25% em relação ao mesmo período de 2010. Para especialistas, a educação e o estresse são os principais fatores desse crescimento.

O crime de desacato está previsto no Código Penal no artigo 331 e a pena é de seis meses a dois anos de detenção ou multa. Consiste em ofender, humilhar ou agredir com palavras, gritos, gestos ou escritos o funcionário público.

De acordo com os dados da PM, de janeiro até anteontem, foram registradas 69 ocorrências de casos de desacatos na cidade. Nesses mesmos sete meses no ano passado, foram 52 ocorrências.

"O principal problema está nas abordagens. A pessoa não entende que estamos fazendo aquilo como prevenção para um crime e acabam nos desacatando. E não existe classe social. Na periferia, eles acham que estão sendo considerados bandidos e, na classe alta, acham que não devem ser abordados", relata o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM/I).

Depois da abordagem, os crimes de desacato ocorrem com maior frequência em intervenções simples, como brigas familiares ou desentendimentos no trânsito.

"Vemos que as pessoas estão mais agressivas com tudo. A agressividade está maior nas escolas, na família, ou seja, em tudo. E isso culmina no tratamento que a polícia recebe", relata o comandante.

Entretanto, a própria imagem que alguns policiais passam também incide no problema. Segundo Nelson Garcia, "a polícia paga por alguns profissionais que agem de forma irregular. Quando a população vê um policial que abusa da autoridade e passa dos limites, começa a nos ver como inimigos. Por isso, estamos buscando sempre punir esses policiais que agem fora do padrão".


Alto risco


E o aumento no número de desacatos já está mudando até o procedimento dos próprios policiais. Agora, apaziguar uma briga ou realizar uma abordagem se tornou uma ação de alto risco.

"Os policiais já adotam todo um procedimento de segurança para essas ocorrências. Hoje, com esse aumento no número de desacatos, precisa redobrar as cautelas necessárias", aponta o coordenador operacional do 4º BPM-I em Bauru, major Flávio Jun Kitazume.

Outro problema frequente de desacato é em relação aos motoristas embriagados. "Entretanto, nesses casos, os policiais são treinados para agirem de maneira mais cuidadosa. Muitas vezes, o autuado não está em suas condições normais. Por isso, é preciso relevar algumas coisas", conclui Kitazume.

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Mau humor de segunda-feira


Saber que o fim de semana acabou e agora o que resta é a semana inteira de trabalho e pressões pela frente certamente deixa muitos de mau humor e colabora para ampliar o estresse. E os dados mostram que isso pode ter relação com o número de desacatos. No primeiro dia útil da semana, é quando são registradas a maior quantidade de ocorrências: quase 22%. E, segundo a PM, a maior parte delas ocorre pela manhã.

Já o inverso é verdadeiro. Saber que o fim de semana está começando parece deixar as pessoas mais calmas. Com apenas 7%, o sábado é o dia com o menor número de casos de desacatos a policiais.

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Geração ?sem limites? e estresse


O docente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sandro Caramaschi, com mestrado e doutorado na área de comportamento, afirma que a chegada da geração "sem limites" à fase adulta é a grande responsável pelo aumento no número de desacatos.

"Essa geração cresceu. Após ter acabado um período de repressão nos anos 60, elas foram educadas sem limites. Agora, tornaram-se esses adultos que não gostam de receber ordens", explica o professor.

E isso se reflete em todas as instituições, uma vez que o respeito e a admiração passa a diminuir. "Os profissionais que sempre foram valorizados perderam isso. O policial, o professor e outros deixaram de ser admirados. Eles passaram a ser vistos como simples funcionários públicos. E, por isso, são tratados assim".

O docente acredita que, além da sensação de impunidade e do abuso de autoridade de alguns policiais, o estresse contemporâneo também contribui para decisões radicais e imediatas, que culminam nos desacatos. Ele ainda informa que pessoas muito "explosivas" precisam procurar ajuda profissional.

"A perspectiva é que esse quadro piore ainda mais e aumente o número de desacatos. O que precisa é que as noções de civilidade e respeito aumentem. A pessoa tem que ter limites em casa para respeitar lá fora", completa Sandro Caramaschi.

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