Alimentar-se bem não é só requisito para ficar em forma. As péssimas escolhas na hora de encher o prato também estão tornando o bauruense mais vulnerável ao desenvolvimento de cânceres nos órgãos do sistema digestivo. Esta é a conclusão a que especialistas consultados pelo JC chegaram diante dos números divulgados pelo Ministério da Saúde.
Entre 2008 e 2010, o número de mortes decorrentes de tumores no intestino aumentou 120% em Bauru, de 5 para 11 pessoas. Já os óbitos por câncer no estômago cresceram 121,4% (de 14 para 31) e, no reto, 200% (de 5 para 15). Os casos letais originados no cólon tiveram ligeiro aumento, de 23 para 25 pessoas, uma variação de 8,6%.
Associado ao envelhecimento da população e ao diagnóstico tardio - que ainda é uma realidade brasileira -, o consumo cada vez mais frequente de alimentos industrializados, ricos em aditivos químicos, gorduras saturadas e pobre em fibras tem colaborado para o aumento dos índices de casos e também de óbitos por neoplasias no trato digestivo.
"Quanto mais exposta a pessoa for a este tipo de alimento, maiores as chances de ela ter alterações degenerativas que não se resumem ao câncer, mas também escleroses e Mal de Alzheimer", alerta a oncologista e hematologista Maura Rosane Valério Ikoma, do Instituto Amaral Carvalho em Bauru.
O oncologista Paulo Eduardo de Souza explica que o câncer aparece quando células sofrem uma mutação genética e deixam de obedecer aos estímulos de multiplicação emitidos pelo organismo. Quando há o consumo exagerado de conservantes, aromatizantes e corantes, o mesmo organismo consegue criar certa imunidade contra estes agentes externos, mas nem sempre a tarefa é completada da maneira como deveria. "Alguns organismos se tornam mais adaptados do que outros. E os menos imunes são muito vulneráveis ao desenvolvimento de câncer", observa.
Outro agravante, segundo ele, é que alimentos industrializados e pobres em fibras prejudicam o funcionamento adequado do intestino. Em contato prolongado com as fezes, esta região do corpo também fica exposta ao aparecimento de uma série de doenças, entre elas o próprio câncer.
Segundo Souza, embora não haja comprovação de que os bauruenses estejam consumindo mais bebidas alcoólicas e medicamentos, estes dois tipos de substância também colaboram para o desenvolvimento de células precursoras de tumores.
Gordura e bebida
Além da dieta, o sedentarismo também faz as pessoas mais suscetíveis a mutações genéticas, principalmente na terceira idade, ainda que o percentual de pacientes jovens venha aumentando a cada ano. "O ideal seria que as atividades físicas fossem associadas a uma dieta equilibrada, isenta de gorduras saturadas e com pouca carne e bebida alcoólica, que são agentes oxidantes e favorecem o surgimento de mutações", aponta Maura.
Diante do aumento da incidência de tumores no sistema digestivo, segundo ela, países desenvolvidos vêm adotando o consumo de produtos orgânicos como hábito do dia a dia, o que ainda não ocorre no Brasil. "Infelizmente, ainda consumimos produtos com muitos agrotóxicos. Não há uma conscientização sobre o assunto. Na verdade, as pessoas ingerem veneno sem se dar conta", lamenta.
A oncologista explica que as neoplasias de cólon e intestino possuem forte caráter hereditário. Por este motivo, a realização de exames preventivos para descendentes de pessoas que já tenham desenvolvido a doença é ainda mais indicado.
"Não são todos os pacientes que têm histórico familiar, mas a grande maioria deles tem. Filhos, sobrinhos, irmãos de pacientes que já tenham sofrido com estes tipos de câncer precisam fazer exame de colonoscopia periodicamente, de acordo com a recomendação médica", frisa.
Em Bauru, uma novidade é a possibilidade de realizar exames de DNA que indicam a propensão para desenvolver tipos específicos de câncer por meio dos chamados marcadores tumorais. O mapeamento, ainda não custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é realizado pelo Centro Oncológico Professora Nair Araújo Antunes, do qual o oncologista Carlos Eduardo Araújo Antunes é diretor e idealizador.
"Através do sangue, estes marcadores dão previsões seguras para detectar se um paciente que teve câncer poderá voltar a ter o mesmo tumor. Ou mesmo saber se uma pessoa saudável poderá desenvolver um tipo específico de tumor", diz o médico.
Prevenção
Falar em prevenção para o câncer não é algo simples. No caso de uma infecção qualquer, bastaria evitar o contato com o agente infeccioso para ficar livre da doença. Como combater, porém, uma célula que faz parte de nosso próprio organismo?
A prevenção primária do câncer consiste em medidas genéricas, como não fumar (reduz em 30% as chances de desenvolver uma neoplasia maligna) ou fazer exercícios e adotar uma dieta saudável (25% a menos de possibilidade de ter a doença).
Alguns tipos de cânceres até podem ser evitados por meio de exames. A colonoscopia, por exemplo, permite ao especialista detectar lesões pré-malignas no cólon e intestino antes que se transformem em tumor.
Na maioria das vezes, porém, o problema só é percebido quando o câncer já existe. Nesses casos, resta aos médicos tentar detectar o problema o mais rápido possível. "Quanto mais cedo temos o diagnóstico, melhores serão as condições para tratar a doença", avalia Maura Rosane Valério Ikoma, oncologista e hematologista do Instituto Amaral Carvalho em Bauru.
Idade e diagnóstico tardio agravam problema
Atualmente, 2.568 pessoas em Bauru estão sendo submetidas a tratamento de câncer - de todos os tipos -, numa proporção de um para cada 130 moradores da cidade. E o aumento da expectativa de vida é uma das principais explicações para este número tão alto de pacientes.
O oncologista Paulo Eduardo de Souza explica que o sistema imunológico começa a ficar deficiente com o avançar da idade e deixa de reconhecer e combater células precursoras do câncer, além do próprio câncer em fase inicial. "Tanto que, em alguns países desenvolvidos cuja população envelheceu, o câncer já se tornou a principal causa de morte", acrescenta.
Além da maior longevidade do brasileiro, o diagnóstico tardio ainda é um grande entrave no combate à doença. Além de aumentar a probabilidade de cirurgias mais invasivas e de óbito, também as neoplasias em estágio mais avançado são difíceis de combater e propiciam a ocorrência de recidivas.
No Brasil, o tipo de tumor mais comum ainda é o de pele, mas o que mais mata é o de mama, na mulher, e o de próstata, no homem. Proporcionalmente, entretanto, os pacientes que sofrem de câncer de pulmão ainda são os mais suscetíveis ao óbito, conforme explica o oncologista. "E, mais uma vez, é o diagnóstico tardio que leva à morte, porque os sintomas demoram a aparecer. O mesmo ocorre com tumores do aparelho digestivo - de reto, cólon e estômago", acrescenta.