Tribuna do Leitor

CHEIRO DE SAUDADE


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O trem de passageiros, ao avançar a escuridão, deixava um vago resplendor nas trevas da noite. Sua desativação, como transporte alternativo do interior do Estado mais populoso da Federação, se fez sentir extraordinariamente.

Chega o mês de junho: a primeira festa de Santo Antônio em nossa querida terra natal (Agudos) sem volta do "noturno". No pátio da festa havia o que se pode chamar de denso clima nostálgico; balões multicores desprovidos de tochas, subiam ao céu, indecisos, e afogavam-se nas brumas; foguetes riscavam o ar, procurando ninguém sabia o que, desenhando caminhos ninguém sabia para quem; busca-pés corriam pelo chão atrás, talvez, de perdidos sonhos.

Lábios escarlates desfolhavam sorrisos; olhares tinham brilho de astros e umidade de prantos. Dos arcanos da mente, os pensares cativos se escapavam; dos corações, incautas as paixões fugiam - e andavam às soltas pela noite silente: subvertendo as sombras.

Fazia frio quando a festa chegava ao fim; e como eu estava triste o frio parecia mais frio. E ao apagar-se a fogueira, ressurgiram-se das cinzas, do passado, a nostálgica locomotiva de tração a vapor, com sua tradicional fumaça branca: envolvendo a noite num excitante cheiro de saudade.


Wanderley Brosco - chefe geral de estação da CPTM, aposentado

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