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Decifrar o indecifrável

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Os homens foram condicionados pelas leis da termodinâmica a capturar a energia disponível no seu meio ambiente (frutos, caça, água, madeira, etc...), para poder dispersá-la na produção de bens e serviços que atendem às suas necessidades vitais.

É um processo físico que vem desde o Neolítico. A despeito dos enormes avanços civilizatórios e das extraordinárias teorias que explicam o desenvolvimento econômico, cada Nação continua hoje a ter de capturar a ener-gia dispersa em seu território (ou importá-la do "vizinho") para consumi-la na produção da sua própria sobrevivência e movimentar a pa-rafernália de "capital" (trabalho congelado do passado) para atender às necessidades da população crescente. O grande avanço reside no fato que a mudança da dimensão demográfica foi sugerindo a busca de mecanismos descentralizados de coordenação (os mercados) capazes de por em contato as "necessidades" da demanda com a "capacidade" produtiva de atendê-la. O mesmo processo de seleção "quase natural" foi sugerindo que um Estado suficientemente forte, mas constitucionalmente limitado, ajustava-se melhor para dar "garantia" e controlar o funcionamento mais eficiente dos "mercados". A experiência mostrou que essa evolução paralela teve um subproduto fundamental: permitiu combinar a eficiência produtiva com a liberdade individual. Ela está longe, entretanto, de ser uma sociedade inclusiva, onde todo cidadão tem a mesma igualdade de oportunidade para realizar o seu potencial.

Trata-se de um processo histórico que está longe de ter esgotado a sua capacidade para a construção de uma sociedade razoavelmente "justa". A história não acabou, a não ser no sentido de que hoje parece inútil prosseguir buscando "curtos-circuitos" produzidos por idéias de cérebros peregrinos. Estamos apenas num ponto do desconhecido caminho escondido nas entranhas do futuro tecnológico induzido por ele mesmo e que, por definição, é indecifrável. O exemplo mais típico é a internet que está produzindo mudanças profundas na eficiência produtiva e no comportamento dos homens. Não decifram, ainda, o indecifrável, mas já permitem mais e melhor flexibilidade às relações entre o trabalho e o capital que o emprega e seguramente vão alterar a organização da sociedade.

Claramente - ainda que haja riscos produzidos pela miopia popular que às vezes tenta substituir a "lenta justiça" pela "rápida vingança" - a nova esperança reside nas redes sociais que estão recebendo estímulos crescentes no governo Dilma pela ação revolucionária do ministro Paulo Bernardo e a cada momento reafirmam a sua importância. 

O Brasil está em situação melhor do que a maioria dos países, mas é ilusão supor que estejamos protegidos das nossas próprias intempéries  e das crises importadas. Temos de consolidar as políticas fiscal e monetária inteligentes e conservadoras como a que estamos fazendo. Além disso, é preciso insistir no papel ativo do Estado-Indutor na criação de um mercado altamente competitivo internamente e cuidadosamente protegido externamente.

Essas são tarefas do Poder Executivo, que só poderá realizá-las com o suporte da sociedade. Deve procurar ampliá-lo melhorando sua comunicação com os brasileiros e profissionalizando o serviço público.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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