É muito difícil para quem sofre de algum problema emocional, principalmente a depressão, tentar encontrar a solução em outras pessoas. A tendência, observam especialistas e até mesmo quem sofreu nas mãos dessa doença, é o isolamento, com a vítima desses transtornos evitando ao máximo até mesmo atividades antes prazerosas, como celebrações entre amigos.
Mas é justamente estar entre os seus, no caso os companheiros de irmandade, que as portas para uma nova vida, longe de pensamentos negativos e tendências ainda mais pesadas, estão.
Há 24 anos em Bauru, a comunidade Neuróticos Anônimos (N/A) - a barra na sigla os diferencia de outro grupo, os Narcóticos Anônimos, caracterizada pela abreviação "NA" - a irmandade terapêutica existe no Brasil desde o final dos anos 1960.
Assim como os Alcoólicos Anônimos (AA), um dos seus princípios fundamentais, como os próprios nomes das instituições regem, é ter a identidade de seus membros preservada publicamente.
O anonimato, segundo uma integrante que, na reportagem, pediu para ser chamada de Cristina, não é motivado por vergonha do problema, mas sim pela forte carga de preconceito e incompreensão da sociedade em torno das chamadas "doenças da alma", muitas vezes encaradas, erroneamente, como loucura ou exagero.
Hoje, com 42 anos e levando uma vida tranquila, mas ciente de que precisa controlar o problema emocional, da mesma forma que um diabético necessita de atenção constante à taxa de açúcar na corrente sanguínea, Cristina conta a angústia decorrente de conflito interno sofrido entre os 18 e 27 anos.
Cristina admite ter sido vítima de uma depressão profunda, que ela chama de sentimento intenso de solidão e, até mesmo, "final de vida". "Não sabia o que tinha. Apenas sentia uma tristeza enorme. Cheguei aos 27 e vi que não tinha conseguido nada do idealizado. Eu era o sinônimo da palavra frustração", recorda ela, que, entre as válvulas de escape eleitas para o problema, chegou a comprar compulsivamente. "Eu sabia que não poderia pagar, mas comprava muita coisa de uma só vez. Assinava compromissos que tinha consciência de que não honraria", confessa.
Ao se deparar com um dito fracasso, incompreensão e mais que introspecção, na verdade a falta de vontade para sequer ver alguma outra pessoa - até mesmo dentro de casa - a única coisa que Cristina pretendia fazer era continuar na cama e, se possível, que o dia nunca mais amanhecesse.
"Passava o dia inteiro de pijama, não atendia o telefone. Nas raras vezes que saía, mantinha os vidros do carro sempre fechados, com medo de ser abordada, assaltada", narra.
Ela somente saiu desta situação após ter conhecido o chamado "fundo do poço" emocional, percebido, segundo a integrante da irmandade, ao conhecer o N/A.
O primeiro contato com a comunidade, explica, serviu para que ela abrisse os olhos e percebesse que não estava sozinha. Enfim, havia encontrado a compreensão.
Essa cumplicidade, explica Cristina, se evidencia pelo procedimento conhecido como Terapia de Espelho, onde cada membro tem um espaço delimitado em 12 minutos para expor suas experiências.
"Você se sente acolhida, pois a doença é a mesma, os sintomas são os mesmos", completa. "Senti que não era diferente. As pessoas entendiam meu sofrimento", acentua.
O Neuróticos Anônimos, apesar de toda a força da busca pela superação e compreensão em grupo, não receita medicamentos.
Apesar disso, observa Cristina, não é recomendado que pacientes interrompam eventuais tratamentos farmacoterapêuticos ou de análise. Os procedimentos devem ser paralelos, pondera ela.
Outro fator lembrado pela integrante da irmandade é que o termo neuróticos, longe de qualquer denominação pejorativa, é atribuído a qualquer pessoa que tenha um problema de carga emocional (faça o teste na página anterior), que a impeça de conduzir normalmente a sua vida.
? Serviço
Mais informações na sede do grupo "Viver de Verdade", localizada na rua Bandeirantes, 12-43. As reuniões ocorrem às quartas-feiras, das 20h às 22h, e às quintas, das 14h30 às 16h30. A irmandade também disponibiliza material de apoio na Internet, no site: www.neuroticosanonimos.org.br.
?De... pressão?
A sensação de desamparo, a alta competitividade e, consequentemente, o sentimento de frustração, podem desencadear comportamento depressivo, como lembra o psicoterapeuta Arnaldo Vicente, presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia Cognitiva e coordenador do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) de Bauru.
No entanto, a depressão também pode aparecer em quem justamente passa pelo oposto ao sentimento de derrota ou frustração. O excesso de trabalho fez com que Maria (nome fictício), ex-funcionária de uma importante multinacional do setor energético, terminasse com uma carta de demissão em mãos e tristeza na alma.
Mesmo após três promoções pelos excelentes serviços prestados, coincidentemente ou não, diz ela. Logo após diagnosticada, a depressão veio acompanhada pela porta da rua. "As corporações ainda não estão preparadas para lidar com essa situação. Eu acumulava tarefas e me afastei por estresse mesmo. Fiquei afastada, mas voltei ao trabalho por medo de perder o emprego", justifica Maria, que, após a demissão, teve o processo depressivo acentuado. "Parei de frequentar festas e churrascos de domingo que eu adorava. Estava sempre cansada. Por mais que você durma, quando está depressiva, nunca as baterias estão carregadas", descreve.
Ela conta que, desde 2008, sua vida voltou a trilhar o rumo anterior à triste fase da depressão quando encontrou o N/A. "Eu passava em frente à sede, que ficava na avenida Duque de Caxias, e vi a placa. Resolvi experimentar. Houve uma grande identificação em um primeiro momento. O acolhimento do grupo foi muito bacana. Perdi o medo de me relacionar com as pessoas", comemora ela, que faz um alerta para quem sofre, mas, mesmo assim, faz pouco caso da extensão do problema. "É uma doença e pode se tornar fatal se não for tratada", adverte.
Assim como o AA, o N/A também segue o dogma dos 12 passos e das 12 tradições, entre eles, respectivamente, a aceitação da impotência perante às emoções e que o bem-estar comum deve estar em primeiro lugar, bem como a garantia do anonimato dos integrantes. Esquecer os prejuízos também é um lema do grupo.