Machado de Assis escreveu (1859) uma crônica sobre a imprensa. Chamava-se "A Reforma pelo Jornal". Começa assim: "Houve uma coisa que fez tremer as aristocracias, mais do que os movimentos populares; foi o jornal". A crônica de Machado, à época um jornalista com escassos 20 anos, festejava a ampliação dos domínios do verbo. Passados 152 anos, a palavra abriu picadas que não cabiam nem mesmo na imaginação do escritor. E, ao cruzar novas fronteiras, levou consigo a reportagem, a informação. O texto noticioso rompeu a relação de dependência que mantinha com o papel. Não bastassem o rádio e a televisão, a notícia move-se hoje por nuvens de elétrons, na internet. Confrontada com tantos meios de propagação, a imprensa virou, ela própria, notícia. Os veículos de comunicação vivem uma quadra nebulosa, sacudidos por uma atmosfera que mistura contestação e hiperconcorrência. Habituada de nutrir-se de crises alheias, a imprensa experimenta sua própria crise. Se o autor de Dom Casmurro pudesse reescrever a crônica, talvez modificasse o título. Em vez de A Reforma pelo Jornal, anotaria: "A Reforma do Jornal". Ou, melhor ainda: "A Reforma da Mídia". Há cerca de trinta anos, muitos periódicos projetaram nessa necessidade de reformar-se para não desaparecer, o direito de ser promotor e juiz das pessoas e dos fatos ? o direito de devassar vidas privadas, desencavar histórias antigas, escarnecer, julgar. Um balanço desse tipo de opção revela que a mídia tem tido muito poucos sucessos inequívocos quando comparados à quantidade de infelicidade humana que causou. As organizações jornalísticas transformaram-se em empresas submetidas às exigências do mercado, da eficiência e do lucro. Para atingir essas performances tornou-se necessário dar ao povo o que ele quer, e não o que ele precisa. Lembra o modelo encarnado por Randoph Hearst, o magnata da imprensa americana, celebrizado por Orson Wells em "Cidadão Kane". No início do século passado Hearst mandou um repórter para Cuba, com a missão de cobrir a guerra dos Estados Unidos contra a Espanha, pela disputa do território caribenho. O jornalista chegou em Havana e não viu guerra nenhuma. As instituições funcionavam normalmente e o povo seguia sua rotina. O repórter pediu para voltar. Hearst ordenou que ele permanecesse em Havana porque iria providenciar a guerra. E o conflito foi deflagrado graças às provocações dos jornais e rádios do empresário. A Guerra do Iraque saiu depois que a jornalista Judith Miller, do The New York Times, escreveu uma série de artigos evidenciando a existência de armas de extermínio em massa no arsenal de Sadam Hussein. Milhares de mortos e trilhões de dólares gastos e nenhuma dessas armas foi descoberta na zona de conflito. Dono de um império de comunicações com sede na Inglaterra, Rupert Murdoch talvez seja o último Kane da imprensa mundial. O seu jornal News of the World fazia grampos ilegais de telefones de membros da família real, atores, políticos, jogadores de futebol, apresentadores de TV e outras celebridades. O caso ganhou contornos de escândalo na semana passada, com a denúncia de um detetive que trabalhava para o jornal e teria grampeado o telefone celular de Milly Dower, uma menina de 13 anos que desapareceu em 2002. A manipulação das mensagens, ainda em 2002, fez a polícia e a família da adolescente acreditar que ela ainda estava viva, já que sua caixa postal continuava em atividade. O corpo foi encontrado depois. Os editores alimentaram a esperança dos familiares e dos leitores com suas histórias tão exclusivas quanto falsas. A direção teve que admitir as escutas após forte pressão das vítimas. O jornal, velho de 168 anos, um sucesso editorial com 2,6 milhões de exemplares teve que ser fechado e seus executivos demitidos.
Na ânsia de sobreviver, o jornal acabou morrendo. Pior: coloca em perigoso relevo esse tipo de comportamento destinado a satisfazer o mercado, de misturar informação com entretenimento, de invadir a privacidade das pessoas. No Brasil, onde a Lei de Imprensa foi extinta pela Corte Suprema e discute-se a não necessidade de mecanismos regulatórios, fica a dúvida sobre a capacidade de autorregulação da mídia. A sociedade começa a descobrir que não deve fazer concessões ao periodismo que se vende em forma de produto. Muitos jornais tradicionais morreram ou estão condenados face ao germe de um novo sistema de comunicação que já não precisa da intermediação da indústria.
Mesmo os mais otimistas acham que os periódicos seguem sendo necessários, mas todos concordam que o jornalismo que atualmente se exerce, para cumprir sua função precisa mudar profundamente.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC