Premissa básica: sou otimista e acredito na espécie humana, com a ressalva feita por um amigo:... apesar dos pesares! Nelson Rodrigues, em sua obra, dissecou precisamente com bisturi e sem anestesia o nível da hipocrisia e cinismo nas relações humanas. Mais antigamente, Freud já havia dito: o que move o mundo é sexo ou dinheiro. Millor Fernandes acrescentou um terceiro motor para o mundo dos humanos: o tilintar das palmas, em outras palavras, a vaidade.
Em conferência para muitas pessoas, citei este pensamento e, como sempre, muitas pessoas ficaram inquietas e até revoltadas: ... como, eu não sou assim! ... não foi isso que meus pais ensinaram! ... isto é ser muito radical! Ser radical significa estar ligado à raiz das coisas, às suas origens, o que parece mais elogio do que ofensa! Uma moça mais corajosa pediu para falar: - Não concordo, pois faço coisas não motivada nem pelo sexo e nem pelo dinheiro. Calmamente pedi a ela um exemplo e se eu poderia fazer considerações sobre a possível resposta, com o que ela anuiu imediatamente.
A moça logo explicou que por dois anos em todos os finais de semana dirigia-se a uma atividade filantrópica em sua igreja, na qual ela procurava ajudar o próximo; fazia isto sem qualquer intenção de sexo e dinheiro, contrariando o pensamento de Freud. Perguntei se saia muito à noite, se viajava bastante e se tinha uma vida social intensa e ela respondeu que não, pois trabalhava muito e tinha que estudar e se dedicava bastante à família. Indaguei se naquela atividade filantrópica se divertia e ela disse que sim, pois havia muitas outras pessoas, misturando-se os novos e velhos colegas e amigos.
Diante desta resposta, perguntei à moça se tinha namorado, noivo ou marido e a resposta foi sim. Logo lhe perguntei como e onde se conheceram? E respondeu: durante a atividade filantrópica! Por que não participam mais desta atividade? A resposta foi: não temos mais tempo e o pouco que temos ficamos juntos. Todos, inclusive ela, quase que imediatamente perceberam que confirmou o pensamento freudiano: ... após conhecer seu amado na atividade que freqüentava para contatar outras pessoas, passou a priorizar a sua relação humana com companheiro encontrado! Nesta história havia o componente de ir a um lugar onde poderia encontrar um parceiro de vida; uma vez encontrado passou ser sua prioridade compartilhar os momentos com ele. Nada ilícito, imoral ou ilegal, mas explicável à luz de que tudo, ou, sendo otimista, quase tudo gira em torno de sexo, dinheiro e vaidade.
A posição implacável da crítica sobre a nova música de Chico Buarque, intitulada Querido Diário, na qual ele afirma ... Amar uma mulher/ Sem orifício/ Hoje afinal conheci o amor ... pode ser compreendida! Questiona-se como compor uma coisa desta e esquecem de que trata-se de um simbólico amor platônico, ou então Chico se refere a um amor no sentido mais profundo, sem sexo e o interesse instintivo do prazer carnal, apenas o amor no sentido mais puro. E sem dinheiro.
Será que é tão difícil entender a possiblidade de amor sem sexo e dinheiro, claro que excluindo o amor de mãe, embora indiretamente também tenha uma relação anterior e carnal com o pai? Será que um homem não pode amar uma mulher sem qualquer conotação sexual? Na internet, apenas sobre esta música de Chico Buarque temos 24.700 citações, quase todas condenando este verso, ora por questões poéticas na rima, ora pelo mal gosto da figura utilizada. Na verdade, a crítica profissional e as pessoas comuns, enfim, quase todos acham inconcebível imaginar algo que não seja por sexo, dinheiro ou vaidade! Chico conseguiu, mais uma vez, induzir reflexões, mesmo que entre os cínicos e hipócritas.
O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP e colunista da página de Ciências do JC