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Confundidos com casal gay, pai e filho são espancados

Folhapress
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São João da Boa Vista - Um homem de 42 anos e seu filho de 18 foram agredidos na madrugada da última sexta-feira na Exposição Agropecuária Industrial e Comercial (Eapic), na cidade de São João da Boa Vista (279 km de Bauru), na região de Campinas. A agressão aconteceu após as vítimas, que estavam abraçadas, serem questionadas se eram gays.

Segundo a Polícia Civil, pai e filho foram abordados por cerca de sete homens, que foram embora após as vítimas dizerem que não eram gays. O grupo, no entanto, retornou e iniciou a agressão contra os dois.

Durante o tumulto, um dos criminosos mordeu e decepou parte da orelha do pai. As duas vítimas foram encaminhadas para um hospital da região, onde receberam atendimento, e liberados em seguida. Os criminosos fugiram.

Um inquérito policial foi aberto para apurar o crime, mas nenhum suspeito tinha sido identificado até ontem.

O autônomo que teve parte de uma orelha decepada disse que tanto ele quanto seu filho estão assustados com a agressão da qual foram vítimas. Ele, morador da área rural de Vargem Grande do Sul, havia abraçado o filho que mora em São Bernardo e, após dois meses distante, havia ido para São João da Boa Vista para ver o pai e ir ao evento.

Em entrevista, o homem, que preferiu não se identificar, disse não conseguir nem pensar no que fazer agora, de tanta surpresa e indignação causadas pela atitude dos agressores, ainda não identificados pela polícia. A seguir, trechos da entrevista.


Pergunta - O senhor se lembra do que houve no momento em que o senhor e seu filho foram atacados?

Resposta - Meu filho veio de São Bernardo na quinta-feira para a gente ir para a festa. Eram mais ou menos 23 horas quando a gente foi para o show da dupla Jorge e Mateus na Eapic. Eu com a minha namorada, meu filho de 18 anos com a dele, uma menina. Quando acabou o show, por volta de 3h, elas foram até o banheiro e eu fiquei com o meu filho. Eu dei um abraço nele. Aí um grupo de seis ou sete caras chegou perto da gente e perguntou se a gente era gay. Eu respondi que não, que ele era meu filho, que a gente era pai e filho. Mas os meninos começaram a tirar sarro, zoar e dizer: ?Vocês estão mentindo, vocês são gays sim, pode dar um beijo aí que a lei libera?. E a gente dizendo que não era gay. Aí começou um empurra-empurra e a gente não queria confusão, sabe, então tentamos sair de perto. Aí, deu uns cinco minutos e eu senti uma pancada por trás, que pegou no meu queixo.

Pergunta - Foi nessa hora que, segundo quem estava no local, você perdeu a consciência e, quando voltou, estava ensanguentado e sem um pedaço da orelha. Como foi quando percebeu isso?

Resposta - Estava uma confusão. Eu e meu filho fomos agredidos. Eu nem dei conta que estava sem o pedaço da orelha quando recobrei os sentidos. Eu estava meio abobado, sabe? Só ouvia uma gritaria em volta de mim falando da orelha, da orelha. Sei que uma pessoa pegou o pedaço da minha orelha e colocou em um copo com gelo, para tentar salvar. Eu nem sabia o que estava acontecendo, nem queria saber de orelha, queria saber se meu filho estava bem, porque ele também foi agredido. Como a gente não tinha sido socorrido ainda, eu saí andando, meio sangrando e encontrei um amigo meu que me levou até o pronto-socorro de São João da Boa Vista. O médico limpou, me deu uma injeção para a dor e me encaminhou para um cirurgião plástico. Na sexta, já de dia, fui ao cirurgião em São João e ele me encaminhou para o HC, em São Paulo. Eu levei o pedaço da orelha, mas não deu para implantar. Volto lá amanhã (quarta-feira, 20) cedinho para ver o que vai ser feito. Cirurgia plástica eu já ouvi dos médicos que custa entre R$ 25 mil e R$ 35 mil, e eu não tenho condições de fazer isso particular. Vamos ver o que me falam.

Pergunta - Além da dor, quais as outras sensações o senhor teve ao saber que tinha tido um pedaço da orelha cortado por acharem que o senhor era homossexual?

Resposta - Eu estou assustado, meu filho e minha família também. Ele (filho) mora com a mãe em São Bernardo e não quer nem falar com ninguém sobre isso. A gente não estava fazendo nada de mais. Ele viajou quase 300 quilômetros para vir numa festa, a gente não sai de casa nunca na vida com essa maldade no coração, então não consegue nem imaginar o que leva essa gente a fazer isso. Nem acho que eles estavam alcoolizados, nada. Eles não devem gostar de homossexual, só isso, e fazem uma coisa dessas. Fico pensando: eu tinha abraçado meu filho para fazer carinho nele, matar saudade, fazia dois meses que a gente não se via. Mas agora nem saudade do filho a gente pode matar mais? Não em público, só em casa pelo jeito. E outra: eu não sou gay, meu filho não é gay, mas a gente não tem nada contra. E daí se a gente fosse? E quem é? Meu Deus, cada um faz o que acha melhor! Se a pessoa não tiver o direito de viver como ela acha que deve o que a gente faz?

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