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DNA de peixes transforma barbatana em pata


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É como se toda barbatana tivesse vocação para ser pata e vice-versa. A ideia aparentemente disparatada vem do trabalho de um trio de brasileiros da Universidade de Chicago, junto com colegas americanos.

Eles mostraram que o mesmo pedaço de DNA que ajuda a "montar" as nadadeiras dos peixes também atua na linha de produção das patas da frente de camundongos.

A constatação veio quando o DNA de peixes foi inserido em embriões de roedores. E a recíproca também é verdadeira: o DNA de camundongos (e de frangos), ao ser adicionado ao genoma de peixes, participou da formação de barbatanas.

O estudo, publicado na revista científica "PNAS??, indica que modificações genéticas relativamente sutis bastaram para que as nadadeiras dos peixes virassem os membros dos vertebrados terrestres.

Fica claro que "a evolução tende a modificar estruturas já existentes, a incrementar um alicerce que já existia", disse o paraense Igor Schneider, que faz pós-doutorado em Chicago e é o primeiro autor da pesquisa. Trocando em miúdos: a evolução é o tipo de arquiteto que adora um puxadinho.

Até agora, no caso das regiões equivalentes às mãos e aos dedos dos seres humanos, a ideia predominante dizia que a evolução tinha sido um pouco menos preguiçosa. Os estudos genéticos mostravam que um elemento crucial para a formação dos apêndices locomotores dos vertebrados (tanto nadadeiras quanto patas) era um trecho de DNA batizado com a sigla CsB pelos cientistas.

Não se trata de um gene, mas de uma região reguladora do DNA. Isso significa que, em vez de conter a receita para a produção de uma proteína, como ocorre com os genes, a CsB é um interruptor de genes, ou seja, certas moléculas interagem com ele para ligar ou desligar genes.

No caso, estamos falando de um conjunto de genes importante para a formação da estrutura básica do corpo, inclusive elementos como mãos e pés de seres humanos. "Uma pesquisa anterior já tinha feito o que nós fizemos, ou seja, inserir o CsB de peixes em camundongos", conta Schneider. Não deu certo.

Arraia e paulistinha

"O peixe que eles usaram é o baiacu, o único cujo genoma estava disponível na época. O problema é que ele é um caso especial, porque perdeu nadadeiras pélvicas, tem poucas vértebras e, ainda por cima, a região do CsB duplicada em seu DNA", diz ele.

Ou seja, o bicho é um caso à parte, pouco representativo perto de outros peixes. Por isso, Schneider e seus colegas usaram o DNA de outras duas espécies, um tipo de arraia e o paulistinha (comum em aquários mundo afora por causa de suas simpáticas listras). Funcionou.

Nem todos os embriões de camundongos testados "se entenderam" com o DNA de peixe, graças à distância evolutiva entre as espécies, mas em vários indivíduos o interruptor de genes foi ligado durante a formação das patas.

A diferença, explica Schneider, é que essa ativação não vai até a pontinha dos dedos embrionários dos bichos. Esse pode ter sido o fator crucial para o surgimento das patas: alterar ligeiramente esse padrão de ativação para que ele chegasse até a ponta.

A pesquisa também é assinada pelos brasileiros Marcelo Nóbrega e Ivy Aneas e pelo paleontólogo Neil Shubin, especialista na evolução dos primeiros anfíbios.

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