Política

Academias ao ar livre enfrentam estragos

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 7 min

Desde o final de 2009, a Prefeitura de Bauru vem expandindo pelo município a implantação de academias ao ar livre, mas a instalação dos equipamentos sem orientação ao usuário e sem manutenção põe em xeque a funcionalidade e bom uso do recurso público. O décimo equipamento foi entregue no dia 21 de junho passado, no bosque do Geisel. No entanto, os aparelhos de muitos desses espaços já se encontram em condições precárias em decorrência de um conjunto de fatores, como o mau uso, a ação de vândalos e a ausência de manutenção do poder público municipal.

O principal problema é a falta de peças em equipamentos quebrados nesses espaços, que deveriam servir como alternativa para que a população de baixa renda tenha acesso a atividade física em locais adequados. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, a Secretaria Municipal de Obras é responsável pela instalação e pela manutenção dos equipamentos.

O assunto chegou à sessão da Câmara Municipal na última segunda-feira, quando Roberval Sakai (PP) falou sobre o tema e questionou quem seriam os responsáveis por consertar os equipamentos danificados das academias ao ar livre do município. "Essa é a realidade da maioria delas. Eu peço ao prefeito para acompanhar isso mais de perto. Uma possibilidade para diminuir o problema seria que vigias noturnos estivessem nas academias", sugeriu. Porém, a proposta é de difícil execução, de custo elevado e, além disso, os equipamentos ficam expostos em áreas públicas.

Um dos casos mais críticos é o do equipamento instalado na Vila Nova Esperança, ao lado da Emei Vera Lúcia Cury Savi, inaugurado em agosto de 2010. São, ao todo, 16 aparelhos, mas pelo menos metade deles apresenta algum tipo de defeito. O chamado ?rotação dupla diagonal?, por exemplo, teve um de seus lados arrancados.

Segundo moradores do local, a ação de vândalos no período noturno não é o único problema para a conservação dos aparelhos da academia ao ar livre do bairro. A dona de casa Santina Novaes Correia, 50 anos, conta que a praça é muito utilizada por crianças durante o dia, especialmente no período de férias. "Elas não têm muita noção de como utilizar a academia. Acham tudo muito bonito e querem brincar, mas nem sempre tomam o cuidado necessário", contou.

Santina afirma que os principais prejudicados pelas más condições dos aparelhos são os usuários, que frequentam a academia, em sua maioria, entre o fim da tarde e o começo da noite. "É muito bom porque as pessoas não podem pagar academia e usam aqui, mas não adianta a prefeitura instalar tudo e depois largar", apontou. Para a dona de casa, a solução ideal seria a permanência de um profissional responsável pelo local para garantir a utilização adequada da academia ao ar livre.

Além da falta de peças nos equipamentos, existem outros problemas, como pintura desgastada, o nome dos aparelhos pintados não chão estão quase ilegíveis e, até mesmo, o crescimento de grama na base de alguns dispositivos. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, enquanto a Secretaria de Obras é responsável pela manutenção dos aparelhos, a Secretaria municipal do Meio Ambiente (Semma) tem o dever de zelar pela conservação das praças onde as academias estão instaladas.

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Prefeitura não planeja reparos


A falta de estrutura da Secretaria de Obras em relação à grande demanda de serviços no município já é de conhecimento público, tanto que a pasta vai contratar empresa privada para executar pequenos reparos nas unidades escolares. No entanto, o titular da pasta, Eliseu Areco, garante que a falta de pessoal não é o que explica a ausência de manutenção dos aparelhos das academias ao ar livre de Bauru. "Nós temos condições de assumir esses serviços de serralheria", afirmou.

O que falta, porém, para que os aparelhos permanecem em estado razoável de conservação é planejamento do poder público. Segundo Areco, não existem hoje cronogramas ou a sistematização dos reparos. "Não tem acompanhamento permanente, seja semanal ou mensal. As demandas chegam pelas reclamações da população, por vereadores ou até por constatações rotineiras da Obras ou da Semma", explicou.

O secretário confirmou que o trabalho de sistematização para manutenção das academias será desenvolvido em conjunto com Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel). "Isso vai ser feito, mas está começando. Não temos uma data ou um prazo para dizer que vamos concluir isso. Até porque estamos em ritmo muito acelerado de trabalho por causa dos preparativos para as comemorações do aniversário da cidade", apontou Areco.

Areco faz um apelo para que a população colabore com a conservação dos aparelhos das academias ao ar livre. "Não adianta ficarmos arrumando o tempo todo. Já houve casos de que consertamos equipamentos em um dia e, no outro, eles já estavam destruídos novamente", contou o secretário.

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Vandalismo revolta usuários de aparelhos


Mas a deficiência na funcionalidade das academias não pode ser atribuída apenas ao poder público. A população tem boa dose de responsabilidade pela deterioração.

Enquanto, para uns, as academias ao ar livre são oportunidades para a prática de exercício e convívio social, outros utilizam os equipamentos como alvo para atos de vandalismo, causando transtorno e indignação aos que realmente usufruem e precisam dessas estruturas.

O aposentado Benedito Teodoro Martins, de 75 anos, é morador do Mary Dota e frequenta, diariamente, a academia instalada na avenida Marcos de Paula Rafael. Ele conta que sofreu um derrame há sete anos e, após a instalação dos aparelhos no bairro, pode voltar a praticar exercícios. "Tenho um amigo que me ajuda toda a manhã. Depois que comecei a vir aqui, deixei até de tomar remédios", afirmou.

No entanto, Benedito demonstra tristeza ao falar sobre os equipamentos depredados. "Isso acontece a noite. O pessoal vem para cá e destrói as coisas. Falta consciência dessas pessoas para preservar uma coisa que é delas mesmas, de todos nós. A gente fica desapontado por ver tanta coisa quebrada", disse o aposentado.

Já a comerciante Lourdes Kanada, de 43 anos, conta que o sonho antigo da comunidade de ter um espaço voltado para o lazer se tornou um problema. "Muitos idosos aproveitam e usam bem a academia, mas a prefeitura deveria ter conversado com a população porque as crianças e os adolescentes não foram contemplados. Os pequenos usam os aparelhos como se fossem brinquedos e os jovens vêm andar de skate na praça e atrapalham quem quer se exercitar", observou.

No entanto, o maior problema, segundo a munícipe, acontece na madrugada, em razão do barulho feito por pessoas que ocupam o local. "A gente não sabe exatamente o que é feito na praça, mas incomoda muito quem mora do lado da praça. É muito complicado porque, com duas semanas de inauguração, já tinham aparelhos quebrados", lembrou Lourdes.

A aposentada Nidelce Leite, 54 anos, compartilha a responsabilidade pelo problema com o poder público. "Não adianta instalar e depois lagar. É como se um pai desse para seu filho um carro sem que ele soubesse dirigir", comparou.

Apesar dos problemas de mau uso e depredação dos equipamentos por parte da população, existem também bons exemplos a serem citados. Moradores do Mary Dota garantem que, nos primeiros atos de vandalismo na estrutura do bairro, particulares cuidaram da manutenção dos aparelhos. "Um senhor ligou a energia na casa do lado e soldou o que estava quebrado", contou Nidelce.

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Praça nova também já tem problemas de manutenção


A academia ao ar livre da Nova Esperança foi inaugurada há quase um ano. No entanto, equipamentos entregues recentemente pela administração já enfrentam o mesmo problema. É o caso da academia instalada na Vila Pacífico, em frente à Escola Estadual Stela Machado. A equipe do JC constatou que, pelo menos, cinco aparelhos estão danificados no local. Moradores que não quiserem se identificar acreditam que as peças faltantes são roubadas e vendidas em ferros velhos.

Apesar da dificuldade para manter as 10 academias ao ar livre já existentes, a prefeitura tem a previsão de instalar mais cinco equipamentos. Os locais apontados são Núcleo Octávio Rasi, Parque Santa Cecília, Pousada da Esperança, Jardim Guadalajara e Parque Granja Santa Cecília. No entanto, a administração não soube informar as datas para a entrega das novas academias ao ar livre.

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Moradores querem orientações para uso


Outro problema apontado por munícipes é a falta de orientação aos usuários das academias ao ar livre. Isso porque exercícios físicos são importantes para a saúde, mas devem ser acompanhados por especialistas que apontem a forma adequada para realizá-los.

"A gente sabe que seria muito complicado ter um profissional o tempo todo aqui no Mary Dota e nas outras academias. Mas a prefeitura poderia colocar orientações nem que fossem por escrito para ajudar os moradores. Na praça tem um mural, que não tem qualquer tipo de utilidade", sugeriu a professora Letícia Kanada, de 22 anos.

Além disso, existe a preocupação dos pais com as crianças que frenquentam as academias ao ar livre, principalmente durante o dia. Na Nova Esperança, por exemplo, não são poucos os relatos de crianças que já se machucaram pelo mau uso dos aparelhos ou em peças quebradas.

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