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Os dois caminhos

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Como seres humanos, há dois caminhos básicos que podemos escolher para o mesmo fim: o proativo ou positivo e o reativo ou negativo. Estas duas forças agem sobre nós em igual medida o tempo todo. A importância da força positiva é facilmente visível, mas a força negativa também é indispensável para nosso desenvolvimento espiritual. Por causa delas temos uma oportunidade de escolher a direção de nossas vidas e sem escolha a plenitude permanente seria impossível. Podemos nos transformar proativamente estimulando o desejo de compartilhar que é nossa ligação com o Criador; ou podemos nos afastar Dele, construindo nossas vidas ao redor do desejo de cada um receber somente para si. A capacidade de fazer esta escolha é o único livre-arbítrio genuíno que a pessoa tem.

A opção correta parece bem óbvia, só que o desejo de receber somente para si é nossa tendência primária e o compartilhar nem sempre provê igual torrente imediata de gratificação. Receber somente para si é como uma droga altamente viciadora ? ficamos apegados à euforia que isto proporciona. Esse desejo egoísta tem vários nomes de guerra: dinheiro, fama e poder são alguns dos mais conhecidos. Mas, como qualquer substância que vicia, os efeitos prazerosos do desejo de receber somente para si são transitórios e têm duração progressivamente mais curta. Quanto mais o usamos e quanto mais dependemos dele, menos satisfação sentimos. Não importa o quanto recebamos, a euforia se esvai e voltamos ao ponto de partida.

Sacrificar nosso conforto em prol da família e de amigos pode ser um ato positivo, mas não é necessariamente um ato transformador, porque em geral não vai contra nossa natureza. Quando você age contra a inércia de sua natureza diária, quando vai contra o reflexo de sua própria gratificação imediata, está indo em direção ao verdadeiro crescimento, exemplo claro disto pode ser lido na Bíblia em Lucas, 21. Compartilhar para transformar sua natureza é, por definição, desconfortável.

O compartilhar verdadeiro exige uma mudança básica na forma como vemos nossas vidas e nossos relacionamentos com as pessoas à nossa volta. De forma bastante natural, a maioria de nós aprendeu a avaliar nossas vidas como histórias em curso, em que nós mesmos somos o personagem principal, por isso com frequência interpretamos de maneira errada os atos dos outros, como sendo "contra mim" quando, na verdade, não têm nada a ver conosco. Levar as coisas para o lado pessoal ou desempenhar o papel de vítima é um comportamento reativo típico. Quando somos vítimas, achamos que o mundo não nos compreende e, ao mesmo tempo, achamos que ele nos deve algo; passamos a ter um senso grandioso do que nos é devido. Tristemente, isso acontece porque talvez nos sentimos incapazes de fazer algo por nós mesmos.

A vida é cheia de buracos no caminho, às vezes há vários deles esperando por nós durante uma mesma tarde. Mas, se ficarmos culpando os buracos no caminho, se ficarmos apontando para eles e gritando: "não foi culpa minha" seremos sempre controlados, nunca estaremos no controle, seremos sempre o efeito, nunca a causa. O mundo não é algo que, simplesmente, nos acontece, é algo que fazemos acontecer. Devemos reconhecer nossa responsabilidade e não ficar esperando ser atingido pelo resultado de um jogo aleatório jogado pelo universo. Neste sentido, vale o exemplo de Hellen Keller (1880 ? 1968), escritora, conferencista e ativista social, cega e surda desde a infância devido à escarlatina: "... tanto me foi dado... não tenho tempo para ficar pensando no que me foi negado".

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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