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Tecnologia: o futuro tem letra feia

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

O "m" mais se parece com um risco horizontal meio tremido. O "e" tem cara de "s" e também de "c". E a próxima letra, é um "l", um "b", um "t" ou um "f"?

Quantas vezes, ao ler um texto escrito à mão, você já se deparou com dilemas como esses e teve que pedir ajuda para outras pessoas para decifrar o que está escrito? Agora pense: quantas vezes isso aconteceu nos últimos tempos?

Certamente, ao refletir sobre isso, muitas pessoas perceberão que letras ilegíveis se fazem cada vez mais presentes em nosso cotidiano, sejam elas em um bilhete escrito com pressa, em uma carta de amor caprichada ou em anotações escolares ou de trabalho.

É claro que os chamados garranchos não datam de hoje, contudo, a popularidade deles tem explicação: o advento tecnológico e a pressa fizeram com que a boa e velha caligrafia fossem substituídas pelas práticas teclas de computador.

Gabriel Pimentel Molina, 23 anos, percebeu a mudança na própria letra depois que deixou de lado a caneta e o papel. Ele fez curso técnico de eletricista e uma das disciplinas era caligrafia.

"As pessoas sempre elogiaram minha letra. Contudo, por exigência do meu emprego, passei a utilizar mais o computador que o lápis, o papel e a caneta e já percebo uma grande diferença na minha letra. Ainda não é um garrancho, mas tenho de me policiar para que não se torne", conta Gabriel.

Já o caso de Paulo César Aparecido Silva, 28 anos, é um pouco mais grave. Ele afirma que se não sabe mais escrever em letra de mão e que, muitas vezes, mal entende o que escreve em letra de forma.

"Minha letra nunca foi muito bonita. Na 5ª série deixei de lado a letra cursiva e passei a escrever tudo em letra de forma. Depois, cursei informática e me formei em processamento de dados. Com isso, o computador passou a fazer parte de minha rotina e a qualidade de minha letra piorou muito", conta ele. "Muitas vezes, eu mesmo não entendo minha letra", acrescenta.

Os casos de Gabriel e de Paulo César são clássicos resultantes da falta de treino, que é tida pelos profissionais de psicomotricidade como a maior causa dos garranchos. Lígia Ebner Melchiori, especialista em psicomotricidade e professora do curso de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, explica que a coordenação motora fina pode ser prejudicada pela falta de prática.

"Não podemos dizer que o computador estraga ou prejudica a boa caligrafia porque ela se estabelece ainda na infância. Contudo, para ter uma letra boa é preciso treino e esforço. Se a pessoa só escreve por meio de teclas de um computador, certamente, sua letra perderá a qualidade", afirma Lígia.


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Letra bonita era pré-requisito

Há algumas décadas, ter uma caligrafia legível era pré-requisito fundamental para se garantir um emprego. Melhor ainda se, além de legível, o candidato fosse capaz de desenhar letras arredondadas e bonitas.

Se a tarefa já não parece fácil atualmente, imagine que, durante muitos anos, os instrumentos utilizados para isso eram a pena, um tinteiro e o velho mata-borrão. O calígrafo Jorge Iossef Nadim, 78 anos, foi alfabetizado nessa época e fez dos ensinamentos da infância uma profissão.

"Ter letra bonita sempre foi uma questão de honra. Para mim, é sinônimo de capricho e cuidado, até porque não era e ainda não é nada fácil escrever com pena ou caneta tinteiro", justifica.

Quando questionado como era possível escrever com uma bela letra e de forma rápida, Jorge explica que utilizava-se da taquigrafia, um recurso que possibilita trocar palavras inteiras por símbolos.

Além disso, explica que existe uma maneira correta de segurar na caneta. "Acho que é possível conciliar os dois: beleza e agilidade. Basta ter um pouco de capricho", defende.

E capricho é o que não falta a Jorge. Tanto que, depois da aposentadoria, ele se dedicou à beleza das letras e assumiu a profissão de calígrafo. Hoje, além de escrever pergaminhos de honra e convites de casamento, dá aulas de caligrafia.

"Cobro R$ 1,20 por cada convite, independentemente do tipo de letra. Não é caro, mas em determinados serviços já cheguei a faturar bastante", afirma.


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Bye, bye, caderno de caligrafia

Enquanto cresce a venda de computadores, iPads e seus derivados tecnológicos, despenca a venda de cadernos de caligrafia nas papelarias de Bauru. Realidade que, provavelmente, é global.

De acordo com Caio Dinard, vendedor de uma papelaria localizada no Altos da Cidade, a maior procura por cadernos de caligrafia ocorre durante a volta às aulas, época em que as escolas solicitam aos alunos matriculados até o 5º ano, antiga 4º série, a compra do material.

"No resto do ano, vendemos cerca de cinco cadernos por mês. E, nestes casos, a procura é maior por parte de pessoas idosas, que gostam de treinar a letra", afirma Caio.

Márcio Antônio de Sousa, sócio-proprietário de uma papelaria localizada na Vila Industrial, afirma que a procura pelo material também sofreu um grande declínio em seu estabelecimento.

"Antes, vendíamos cerca de 500 cadernos a cada volta às aulas. Hoje, não passa de 100. Quem mais procura são os pais que percebem que a letra dos filhos está ruim", explica.

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