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A faxina ética da presidente

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Mesmo com todos os temores do "padrinho" Lula da Silva ligados a um possível iso-lamento do Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff parece mesmo disposta a fazer uma "faxina ética" no governo. Tem dado mostras de não se intimidar com o esperneio desse mau cabrito, que atende pela sigla de PR. Finalmente aparece um mandatário - tinha que ser mulher - com a consciência do seu papel histórico de pensar primeiro no país e depois, na próxima eleição. As últimas declarações de Dilma deixam claro que vai continuar a limpeza, e esta pode ir além do Ministério dos Transportes. A cirurgia de grande porte causa surpresa num organismo tomado pela doença da fisiologia. Já estávamos acostumados ao cenário do toma lá dá cá. Sem o toma lá, teme Lula que não haja o dá cá do Congresso. Foi assim que, ao longo do tempo se reduziu o jogo político-parlamentar a barganhas comerciais e financeiras. Um dia há de acabar. Se tanto dura é mais pela incapacidade do povo brasileiro de se indignar e ir às ruas em protesto, ao estilo do mundo árabe.

A presidente já havia dado a senha de que as coisas mudariam, ao deixar o então ministro Antonio Palocci sangrar até morrer. No meio do tiroteio ela resolveu agir, tomando o cargo de Palocci naquilo que é convencional no serviço público: o demissionário pede para sair, numa decisão negociada. Dilma até que demorou muito. Poderia ter saneado logo que surgiram as primeiras acusações. Pesaram neste titubeio o noviciado no cargo e os compromissos com os fisiológicos que ergueram a sua própria candidatura. É lógica a contradição entre o que corretamente faz Dilma no Ministério dos Transportes, e a maneira como está montada a aliança partidária que a sustenta. Mas, se a presidente deseja uma administração com um mínimo de decência, tem de fazê-lo. Impor ordem e respeito de cima para baixo. Em todos os escalões. Não há alternativa. A pressão da mídia é grande. Pode ser também, como se especula, que seja uma estratégia de atração da classe média emergente, mais sensível às questões éticas. Que seja. O importante, neste caso, é a chance da faxina na máquina do Estado. Trabalho não falta. Idêntico modelo de ordenha do dinheiro do contribuinte funciona em outras áreas, como nas Minas e Energia ? ministério nas mãos do PMDB maranhense ligado a Sarney. Até que ponto Dilma aguentará as pressões e o trincar de dentes no Congresso Nacional, não se sabe.

Curioso tem sido o papel da oposição. Quer que o Governo se lixe, mas mantém uma estratégia cautelosa. Evita radicalizar neste momento. Aguarda em segundo plano, mas com o dedo no gatilho. O primeiro tiro será a convocação de uma CPI para investigar os escândalos do Ministério dos Transportes. Veja como política é uma coisa intrincada... O PR joga com a possibilidade da CPI armada pela oposição, justamente para pressionar o governo a parar com a faxina. Haveria o perigo de o tumor supurar de vez durante as inquirições e empestear o ar. O importante para todos aqueles que querem um país melhor é que Dilma parece disposta a limpar a sujeira, onde quer que ela se apresente, mesmo nos recônditos mais tenebrosos da administração.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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