Bairros

Vale a pena brincar de novo

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

Pula Sela

Tenho boas lembranças da época em que eu passava as tardes ensolaradas brincando na rua. Quando criança, morei na Vila Independência. Na época, as ruas do bairro eram um verdadeiro playground ao ar livre. Eu e mais uns nove amigos que moravam nas redondezas saíamos da escola, almoçávamos correndo e íamos direto para a rua ou para o campinho de terra brincar.

"Pula Sela" era uma das brincadeiras mais frequentes entre a turma. Um era escolhido para ficar abaixado e as outras crianças tinham de pulá-lo com as pernas abertas no ar, apoiando as mãos nas costas da pessoa.

Essa brincadeira era especialmente engraçada por conta dos acidentes de percurso que podiam acontecer. Não raras vezes alguém errava o pulo e ia parar no chão. Eu, por exemplo, me lembro de um dia que pulei um colega e cai de costas. Cheguei a perder o ar. Mas depois que retomei a respiração, voltei para a brincadeira, sem medo de ser feliz.

Além disso, "Pula Sela" é legal porque se torna um desafio. A pessoa que está abaixada vai aumentando a altura e os competidores superando limites. Gostaria muito que meus filhos tivessem vivido essa época.

Edna Furlan da Silva, 43 anos, elege a Pula Sela como uma das brincadeiras mais divertidas de sua infância


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Entre a bola de gude e o peão

Eu poderia ficar o dia todo falando sobre as coisas que costumava brincar quando era criança. Certamente, mencionaria muitas brincadeiras das quais você nunca ouviu falar. Mas vou me limitar a contar sobre minhas prediletas: o peão e a bolinha de gude, também conhecida como búrica.

Passava tardes e mais tardes brincando disso com os meninos da rua onde eu morava, no Jardim Bela Vista. Muitas vezes, chegávamos a carpir o terreno para podermos brincar. Nosso lugar predileto era aquele espaço vago próximo ao Fórum. Quando algum circo ou parque se instalava ali, ficávamos muito bravos.

O peão, embora fosse um brinquedo relativamente barato, era o xodó dos garotos. Para deixá-los diferentes, nós os pintávamos de várias cores. Ficava personalizado. O segredo para manter o peão girando por mais tempo é escolher uma superfície bem lisa, tipo chão de madeira.

Além disso, gostávamos muito de criar desafios para jogar peão. Em um deles, montávamos dois gols. A pessoa tinha de girar o peão na mão e fazê-lo bater em uma bolinha, que ficava no meio do campo, para que ela entrasse no gol. O outro jogador tinha de defender, tentando desviar a bolinha na sua vez de jogar. Dava uma disputa boa.

Também brinquei muito de bolinha de gude. Nós desenhávamos um triângulo no chão e cada jogador tinha de acertar dentro dos limites. Se saísse, perdia a bolinha. Mas tinha várias maneiras de brincar, sempre valendo as búricas, é claro.

Não tem uma maneira correta de jogar a bolinha. Cada um desenvolve sua própria técnica. Tem de ter tarimba.

Eu era muito bom nesse jogo. Tanto é que ainda hoje tenho cerca de 1.000 búricas guardadas em casa, de vários tipos diferentes.

José Salim, 64 anos, passou a infância disputando partidas de bolinha de gude e participando de campeonatos de peão


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Cinco Marias

Quando eu era pequena, improvisei muitas brincadeiras. Algumas, inclusive, meus netos nem conhecem. Penso até que elas se perderam no tempo. Hoje, as crianças estão muito apegadas ao videogame, ao computador. Na época da minha infância era diferente. Sentávamos no chão e passávamos o dia brincando, sem medo de roubo, de ser atropelado por carro, nem nada.

Brinquei muito de "Cinco Marias", um jogo antigo que começa com a construção do brinquedo, que é composto de cinco saquinhos. Eu mesma os fazia com terra ou feijão. Feijão era melhor, porque, além de fazer barulho, não precisava costurar os saquinho com pontos muito apertados. Terra era ruim porque escapava pelos vãos da costura. Ah, também dá para substituir os saquinhos por pedras de um tamanho razoável.

A brincadeira consiste em jogar um saquinho para o alto, pegar um dos quatro que restaram no chão e voltar a tempo de agarrar o que está no ar, antes que ele caia. Depois, joga-se dois para o alto, pega-se um dos três que restaram no chão e assim por diante.

Tinha fases que devíamos passar os saquinhos por baixo de uma das mãos, que devia ficar apoiada com os dedos no chão formando uma espécie de túnel, enquanto o outro saquinho ainda estava no ar. Ia ficando cada vez mais complicado. Para falar a verdade, faz tanto tempo que nem me lembro direito das fases da brincadeira.

Meus netos nunca jogaram isso. As crianças de hoje não sabem o gosto que tem a infância, o que é brincar de verdade. Que tal aprender?

Clarides Franco de Godoy, 85 anos, propõe voltar à infância brincando de Cinco Marias


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Mãe da Rua

Quando eu era criança, gostava muito de brincar de "Mãe da Rua". Era diversão garantida para todos que participassem, especialmente se o número de crianças fosse grande. Para brincar, é preciso pelo menos cinco pessoas.

Primeiro, alguém deve ser sorteado para ficar no meio da rua. Ela será a "Mãe da Rua". Os outros, se dividem em dois grupos, posicionados um de cada lado da calçada. Os componentes dos grupos devem tentar atravessar a rua e a "Mãe da Rua" deve tentar capturá-los. Os participantes que são capturados devem ajudar a "Mãe da Rua" a pegar o restante. O último que não foi capturado, vence a brincadeira. Já o primeiro a ser pego, será a próxima mãe da rua.

É uma brincadeira simples de se organizar e muito divertida, contudo, pouco praticada nos bairros da cidade. Na minha opinião, isso se deve ao aumento do fluxo de carros. Antigamente, a tranquilidade das ruas facilitava a diversão da criançada. Ainda assim, é possível improvisar. Que tal brincar em um campinho ou uma praça, por exemplo?


Cássio Luiz Castilho Razera, 41 anos, sugere resgatar a brincadeira Mãe da Rua.

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Lenço Atrás

As brincadeiras de minha infância são muito diferentes das brincadeiras atuais. Eu cresci em sítio e, para brincar, tinha de improvisar e inventar minhas próprias brincadeiras e brinquedos. Fazia bonecas com sabugo milho, casinha com materiais que não eram mais aproveitados, como caixa de fósforo, por exemplo. Hoje é diferente, já vem tudo pronto.

Além disso, inventávamos muitos jogos. As crianças se reuniam e soltavam a criatividade. As brincadeiras de roda eram as mais divertidas. Passávamos horas e horas brincando de roda.

Uma das brincadeiras que me lembro é a do "Lenço Atrás". As crianças ficavam sentadas em roda, com a cabeça baixa, e um percorria a roda pelo lado de fora e, em determinado momento, abaixava e colocava o lenço de um dos participantes.

A pessoa escolhida deveria ir para o meio da roda pagar um castigo, que podia ser recitar um poema, fazer uma declaração ou qualquer coisa do tipo. Outra variável dessa brincadeira tem a regra de que criança que recebeu o lenço deve correr para pegar quem deixou o lenço cair atrás dela, antes que essa pessoa se sente. Mas a gente não gostava de correr muito.

Era uma brincadeira bem engraçada. Aliás, nós brincávamos muito de roda, com vários outros jogos. Tenho saudade dessa época. Até procuro estimular meus netos, mas eles são bastante resistentes. Preferem o videogame. Gostaria que as crianças de hoje descobrissem o prazer de construir os próprios brinquedos.

Ana Zeferina Martins Querino, 68 anos, cita o "Lenço Atrás" como uma das principais brincadeiras de sua infância


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Passa Anel

Uma das delícias da infância são as brincadeiras. E quando digo isso, me refiro às brincadeiras feitas na rua, com os amigos, que não precisam de dinheiro, mas, sim, de criatividade.

Da minha infância, recordo de muitas delas. Todas, muito divertidas. Uma das que eu mais gostava é a "Passa Anel". É uma brincadeira simples, que, para ficar legal, deve ter pelo menos sete participantes.

Apesar de se chamar "Passa Anel", não é preciso necessariamente de um anel. Pode-se usar uma pedra ou qualquer outro objeto pequeno.

Uma pessoa deve ser escolhida para passar o objeto. Ela deve segurá-lo entre as mãos, que ficam posicionadas palma com palma, como se estivesse rezando. As outras crianças ficam em roda, com as mãos do mesmo jeito. Quem está passado o anel deve passar as mãos pelo meio das mãos de todos os participantes e escolher um deles para deixar cair o anel. O escolhido não pode dar sinais de que o anel está com ele.

Na sequência, quem faz a função de passar o anel deve escolher alguém para adivinhar com quem o objeto está. Se a pessoa acertar, vai para o meio. Se errar, quem está com o anel assume a função de passá-lo.

Gostava muito dessa brincadeira porque não precisávamos de muito espaço nem de correr muito. Podíamos ficar sentados na sarjeta ou brincar em lugares pequenos, sem atrapalhar os adultos.

Como disse, é uma brincadeira simples, mas que pode ser muito divertida. Quanto maior o número de participantes, maior é a competição para adivinhar com quem está o anel.

Vera Isa Lourenço Pinto, 48 anos, dá a ideia de brincar de "Passa Anel" quando não puder fazer muito barulho


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Balança Caixão

Uma das brincadeiras que mais marcou a minha infância foi a "Balança Caixão!". Eu e meus amigos íamos para a escola de manhã, estudávamos e fazíamos os deveres de casa durante a tarde, terminávamos rapidinho com as outras obrigações para poder sair na rua e brincar. Geralmente, era um horário que já estava escurecendo, o que tornava a brincadeira ainda mais divertida.

Para quem nunca brincou de "Balança Caixão", funciona assim: uma pessoa deve ser escolhida para fazer a função de caixão e outra de tampa de caixão. O caixão deve ficar agachado, de frente para quem faz a tampa. Atrás da tampa, em fileira, ficam os outros participantes.

Então, o último da fila grita ?balança caixão?, e o caixão responde ?balança você, dá um tapa na bunda e vai se esconder?. O último da fila bate na bunda de quem está na frente e vai se esconder. O ritual se repete até chegar a vez de quem está atrás da tampa se esconder.

Na sequência, o caixão deve liberar a tampa para procurar as pessoas que estão escondidas e pode pedir que traga cada fugitivo de uma forma. Pode mandar buscar pela orelha, pelo nariz ou pelo braço, por exemplo. A tampa deve encontrar um por um.

Uma dica: se não quiser ser encontrado facilmente, procure um lugar inusitado e difícil de ser achado. Ah, e não bata muito forte na bunda de quem está na sua frente porque, na próxima rodada, as posições podem se inverter!

Ana Maria Sotero de Castro, 42 anos, indica a brincadeira Balança Caixão para divertir as crianças

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